A bruxa está à solta?

Através da história, o olho pintado de preto teve diversos significados antes de se tornar um clássico da maquiagem contemporânea. Aqui, debatemos a sua misteriosa potência subversiva.

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Nas temporadas de moda, que têm ocorrido virtualmente devido à pandemia do novo coronavírus, o olho marcado por sombra preta provou que está de volta e em versões mais plurais do que nunca. Depois de um ano tão tenebroso como o que passamos, nada mais natural do que a moda responder a isso e levar a beleza junto. O revival está ligado à sensação de peso que permeou boa parte das apresentações, principalmente das mais recentes (inverno 2021). "Ao mesmo tempo que a dança ganhou um papel central nos desfiles virtuais, os cenários desses espetáculos eram sempre escuros, quase tensos", aponta nosso editor de moda Lucas Boccalão. Não à toa, não estamos falando de smokey eye. Aquela versão que combina marrons e dá um efeito esfumado com pretinho só na pálpebra móvel não é a que estourou nas passarelas. Mesmo em marcas de luxo mais tradicionais, como Chanel e Dior, o olho da vez é 100% preto.

"É sobre uma mulher cinematográfica", declarou Lucia Pica, diretora global de maquiagem da Chanel, no backstage da apresentação lá do verão 2021, quando a marca começou a apostar na tendência, que, desde então, apareceu em quase todos os desfiles posteriores da maison. É interessante ver a beauty artist aludindo às telonas, porque elas tiveram um papel fundamental na popularização dessa maquiagem, que se tornou um clássico da beleza ocidental. Nos anos 1920, época das principais inovações de Gabrielle "Coco" Chanel, mas também do auge do cinema mudo, as atrizes apareciam em frente às câmeras com os olhos aprofundados por sombras escuras porque a tecnologia da época não era capaz de captar naturalmente essas nuances da face. Com isso, o efeito foi se tornando cada vez mais popular e teve o seu ápice quando o mundo voltou os seus olhos para o Egito, depois da descoberta da tumba de Tutancâmon, em 1922, e depois com o busto de Nefertiti, em 1924.

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Conversando com Josi Helena, professora do curso de história da cosmetologia da Escola Madre, em São Paulo, lembramos que o Egito antigo é o berço da maquiagem escura nos olhos. "A primeira sombra criada pela humanidade é o kohl, uma mistura composta de pó de malaquita, carvão e cinzas. Os egípcios acreditavam que pintar os olhos com essa fórmula traria a proteção divina contra espíritos malignos", relata. Através do tempo, o olho pintado de preto teve diversos significados, por vezes até contrastantes, dependendo da geografia e da época. No Israel do Antigo Testamento, por exemplo, essa maquiagem estava associada à indignidade e à má-fé feminina. Para o islã, no entanto, o kohl abre a visão e é usado por homens durante o ramadã como um sinal de devoção.

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Chanel, Cruise 2022Fotos: divulgação


À esquerda, Dior, Inverno 2021, à direita, Dior, Pre-Fall 2021.Fotos: Charlotte Navio e Yi Tuo.


De todo modo, o olho preto que chega hoje às passarelas carrega em si um passado plural, global e multifacetado, o que colabora para a sua aura de mistério e subversão. É um resumo desses muitos olhos ancestrais que Peter Phillips, diretor criativo da linha de maquiagens da Dior, tenta reproduzir nos desfiles da casa. Maria Grazia Chiuri, a estilista da grife, é adepta. "O olhar é fundamental para ela", diz Phillips sobre sua colega de trabalho em entrevista à ELLE França, pouco depois do inverno 2021 da marca. "Por causa da obsessão dela, estou virando profissional em olho preto!" Vale lembrar que esse desfile da etiqueta aconteceu em Versalhes e foi intitulado Disturbing Beauty (beleza perturbadora). Ou seja, havia algo de soturno e misterioso no rosto das modelos.

Assim, em contraposição ao batom vermelho, que fala de otimismo e autoconfiança, de um desejo de se colocar no mundo, os olhos escuros parecem dar vazão à versão mais secreta de quem investe nesse make. Algo como um convite à descoberta de um interior que pode assustar ou seduzir – de uma forma que vai além da conotação sexual e passa pelo mistério, que instiga, provoca e revela. Como bem souberam fazer Rei Kawakubo, na Comme des Garçons, e Alexander McQueen no auge de suas carreiras. Em alguma medida, eles soltaram esse feitiço, que até hoje, em versões ora mais, ora menos corajosas, paira no ar.