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Alice no país das distopias

Prestes a estrear em Rensga Hits, Alice Wegmann estrela a capa da ELLE View e fala aqui sobre política, preconceito cultural e religioso e outras distorções que fazem parte do Brasil atual.

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Foto: Hugo Toni | Edição de moda: Davi Ramos e Flavia Pommianosky

Antes de ser Sofia (A vida da gente), Lia (Malhação), Shirley (Em família), Maria (Onde nascem os fortes) ou Dalila (Órfãos da Terra), antes de ser atriz, de ser Raíssa (Rensga Hits), Alice Wegmann é uma cidadã, como gosta de lembrar. Uma mulher. E sabe bem o que isso significa hoje não só no Brasil, mas no mundo – se você acompanha o noticiário, sabe o retrocesso que paira sobre nós. Com 2,6 milhões de seguidores no Instagram e prestes a estrear no streaming no papel de uma cantora sertaneja, um ritmo que transita na sintonia “ame ou odeie”, ela também tem consciência do seu poder de influenciar. E, justamente por isso, costuma expor nas mídias sociais bem mais do que seu corpo de biquíni ou sua relação com a moda. Alice fala sobre política, sobre fé, sobre vida com uma lucidez rara. “Com Rensga Hits, uma série que é muito popular, entendi pela primeira vez essa dimensão do meu trabalho, da minha voz política, da responsabilidade que é me comunicar tanto com o Chico Buarque quanto com a ‘tia Josefa’, que mora no Acre. Aos 26 anos, me sinto adulta”, diz durante uma entrevista realizada por videochamada em uma manhã de sexta-feira.

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Você interpreta uma cantora sertaneja em Rensga Hits, série prestes a estrear na Globoplay. Como foi esse processo de preparação?

Quando recebi o roteiro, fiquei até às 3 da manhã lendo, não conseguia parar. E, quando terminei, pensei: “Não tem como isso não ser um sucesso”. É muito diferente você ter essa sensação, acreditar no projeto desde o início. Em oito episódios, a série aborda o universo sertanejo, mas aborda também família, empoderamento feminino, amor. Tem comédia, tem drama. A gente acompanha a trajetória da Raíssa Medeiros, os sonhos dela, a vontade de compor para pôr os sentimentos para fora. E ela é muito genuína, a personagem mais carismática que já fiz, aquela sobre a qual você pensa: “Caraca, eu tomaria muito uma cerveja com essa garota”. A Renata Corrêa, que é a autora, é também uma ativista e trouxe uma equipe muito diversa, com diferentes pontos de vista. Tem cantor sertanejo que se descobre gay, tem dupla nos moldes de Sandy e Júnior, só que preta. É muita história para contar. E é muito surpreendente como a gente conseguiu explorar esse universo do sertanejo, que é gigantesco no Brasil, tem uma força inacreditável e pouquíssima produção, se levarmos em conta o tamanho que ele tem.

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O Brasil tem um preconceito cultural enorme com tudo que é mais popular, até com o TikTok.
O universo sertanejo é mesmo gigante no Brasil, mas sofre uma espécie de preconceito cultural, muita gente torce o nariz...

Até o country estadunidense sofre certo preconceito, nem a Taylor Swift é aceita por todo os Estados Unidos. E aqui, no Brasil, tem um preconceito cultural enorme com tudo que é mais popular, até com o TikTok, que é um fenômeno de comunicação, muito mais que dancinha. O sertanejo esbarra nesse elitismo cultural, principalmente o carioca. Existe um reconhecimento de artistas como o Caetano Veloso (quefez uma homenagem a Marília Mendonça), mas também essa vontade de não aceitar, que sinceramente eu não entendo, porque sertanejo é muito bom de ouvir! É sofrência gostosa. Mas acredito que essa série tem o poder de se comunicar tanto com as pessoas que gostam de sertanejo quanto com as que não. Estamos num momento muito polarizado e cheio de polêmicas, inclusive sobre a forma como se ganha dinheiro com a música. Mas percebi que tudo é muito genuíno no sertanejo. Eles se apoiam entre si, e acho isso muito bonito. Temos que começar a olhar para esse lugar e dar mais importância. Não tem uma região do Brasil em que o sertanejo não reverbere de alguma forma. Precisamos entender por que é tão fácil ele chegar às massas.

A Raíssa, aliás, tem um quê de Marília Mendonça. E a cantora morreu bem no meio das gravações da série. Como foi lidar com isso?

A série não é sobre a Marília, mas, se existe uma inspiração, ela é a Marília Mendonça. A coisa de tocar no bar, o jeito, o sotaque. Ela foi meu principal ponto de estudo. Acho que foi a inspiração maior para todos os personagens, a voz da série. No dia em que ela morreu, eu tirei um cochilo à tarde, porque vinha de um pancadão de gravações, e acordei com uma sensação muito ruim. Quando abri o celular, vi a notícia do acidente e congelei. Ainda tinha uma cena para filmar e chorei horrores, e a cena nem era de choro. Quando filmei o último take e a gente viu que ela tinha morrido mesmo, eu tremia inteira, chorava muito. Era um choro de não conseguir respirar. Cara, foi muito triste. Você nunca espera que uma mulher de 26 anos, com filho pequeno, mais de 400 músicas para lançar, morra assim. É um corte brusco, muito difícil de lidar. Lembro que era 5 de novembro, dois dias depois do meu aniversário, e completei 26, a mesma idade em que ela morreu. E pensei justamente isso: “Eu ainda tenho tanta coisa pra fazer...” Saí da gravação e encontrei a Renata (Corrêa), que era megafã da Marília e estava em Goiânia nesse dia. Botamos as músicas dela nas alturas e dançamos muito para liberar um pouco esse susto. A série não deixa de ser uma homenagem.

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Quais são suas músicas favoritas dela?

Bye Bye, Deprê e Amante Não Tem Lar. Amo!

Cantar é como ficar pelada na frente do Brasil, é meu lugar de maior vulnerabilidade.
Como atriz e como carioca, deve ser difícil interpretar personagens de outras regiões do Brasil sem cair no estereótipo. Como transitar nessa linha tênue entre dar veracidade e reforçar estereótipos?

É sempre difícil fazer personagem com outro sotaque. Em Onde nascem os fortes, por exemplo, eu fazia uma menina do Recife e tive apenas 30 minutos de prosódia, porque foi tudo muito corrido. Uma coisa que me ajudou muito foi mandar uma mensagem para Camila Coutinho e pedir para ela me mandar muitos áudios. (risos) Acho que não tem nada melhor do que ouvir quem nasceu no lugar, não tem referência melhor do que essa. É direto da fonte. Para interpretar a Raíssa, eu fiquei vendo muitos Stories de gente de Goiânia para pegar o R que o carioca não tem, o ‘forrrça’, e a musicalidade também, porque não é só o R ou o S. É um cantado, são as cantorias de cada estado do Brasil. Tive duas semanas de preparação, o que para mim foi muito pouco, porque nunca cantei na minha vida e tinha pavor de cantar, a ponto de a mão suar, de a perna tremer. Foi um desafio muito grande. E é isso, você nunca quer cair no estereótipo por respeito às pessoas. Morei três meses em Goiânia, fiz prosódia e aula de canto. E essa parte de cantar me fez florescer muito. Como atriz, tem o calor da cena, a emoção, mas fico muito focada, já tem uma fluidez. Cantar é como ficar pelada na frente do Brasil, é meu lugar de maior vulnerabilidade. Gosto tanto da música, especialmente da brasileira, que eu tinha medo de estragar. Existe uma coisa quase espiritual, transcendental no canto. É a arte que está mais conectada com o divino, o que mais me conecta com Deus.

Falando em espiritualidade, conexão, você é da Umbanda, uma religião que costuma, assim como o sertanejo, ser malvista por grande parte do Brasil, que inacreditavelmente tem intolerância religiosa. Como é essa sua ligação com o divino?

Meu processo espiritual foi curioso. Sempre tive muita fé, mas não sabia identificar muito bem minha religião. Ficava vagando, ia a centro espírita, budista, igreja, candomblé. Fui em tudo. Eu gosto disso, e para mim é uma busca constante. Há pouco tempo, conheci um centro de umbanda que mistura tudo e trabalha muito também com física quântica. Mas é triste como as pessoas têm preconceito. Caramba, o Brasil tem tanta diversidade, e a filosofia das religiões é praticar o bem, é a união. Eu não sei por que assusta tanto as pessoas. É para você se proteger e, de certa forma, ganhar um potencial. É a natureza, o rio, o mar, a mata, o barro. A filosofia dos orixás é sobre o poder que a natureza tem sobre a gente. E, quando você começa a olhar assim para o mundo, tem mais vontade de cuidar. Dá um senso de coletividade, um senso ecológico mesmo. Acho que está tudo muito ligado e sou outra pessoa depois que comecei a me conectar. Mesmo os amigos que ficaram um tempo sem me ver por causa da pandemia me dizem que virei uma mulher, que estou radiante. Eu realmente estou no melhor momento da minha vida nos últimos dez anos.

Religião, corpo, moda, tudo no fundo é política. E você é uma pessoa que não tem medo de se posicionar politicamente. Quando isso começou a despontar em você?

Em 2018. Foi o momento em que mais me conectei à política, porque entendi a força e a grandeza que isso tem, o direito e o dever que você tem de eleger alguém, de escolher o que você quer. Me posicionar, a partir daí, foi natural porque, antes de ser atriz, sou cidadã, uma pessoa normal, que vota. E, ao mesmo tempo, entendo meu lugar como uma pessoa exposta, seguida. Estamos ainda nessa fase muito polarizada, mas tirei muitas lições de 2018, inclusive a dificuldade que tive em me comunicar com a outra bolha, porque ficou extremo para os dois lados. Foi tanta impaciência em fazer as pessoas enxergarem que o Bolsonaro é desumano, que não pensa na coletividade, no todo, que é muito... Ele me dá nervoso de falar. Em algum lugar em 2018, fiquei naquele desespero de mostrar o que estava quase prevendo, todo esse mal que ele ia causar – não à toa, a gente passou pela pandemia de um jeito muito ruim, muito devastador, com mais de 600 mil mortos, e vemos essa destruição também na Amazônia. Tudo o que ele podia destruir, ele destruiu. Mas entendi que este ano preciso me comunicar de uma forma diferente para atingir meu objetivo, que é não eleger o Bolsonaro de novo. As pessoas dizem que preferem levar um tiro que votar no Lula. Eu prefiro votar no Lula, embora esteja esperando até hoje um mea culpa do PT, essa declaração que nunca veio. Gostaria de ver gente nova na política, mas entre Lula e Bolsonaro, vou no Lula sem dúvida nenhuma.

Além da polarização política, estamos em um momento muito difícil, em uma espécie de retrocesso, especialmente em relação às mulheres... Tá difícil ser mulher no Brasil?

É um retrocesso mesmo o que aconteceu nos Estados Unidos e aqui, com nossas meninas. A exposição, o controle. A garota é estuprada e as pessoas se espantam mais com o aborto do que com o estupro. O estuprador está lá, saiu ileso, ninguém sabe o nome dele. Quem está exposta é a garota, a menina, a mulher. Tá muito errado esse controle, essa imposição sobre como a gente deve ser, como deve parecer. É difícil ser mulher. Mas não nos resta nada além de lutar e seguir em frente, porque não nos é dada uma opção. Eu torço muito pra que mais mulheres estejam no poder e a gente possa ser mais defendida, mais compreendida. E não só mais mulheres, mas mulheres com essa visão de liberdade, porque também não adianta nada ter uma Damares tomando decisões absurdas sobre o corpo das mulheres. É por isso que a gente tem que pensar e lutar cada vez mais para que as mulheres estejam no poder também.

Gostaria de ver gente nova na política, mas entre Lula e Bolsonaro, vou no Lula sem dúvida nenhuma.
Eu sei que tá meio deprê, mas você tem o hábito de ver as notícias, ler jornal?

Leio jornal todo dia, acho que é uma coisa que peguei do meu pai. E agora, que estou praticando mais o inglês, tenho lido também jornais de fora, o New York Times, por exemplo, para treinar. E tem sido interessante acompanhar o que está acontecendo lá fora também.

Quando você comunicou sua saída da Globo, um dos motivos alegados foi o tempo que uma novela demanda de um ator. Como é sua relação com o tempo, você é ansiosa, por exemplo?

Eu nunca tinha parado. Dos 3 aos 11 anos, conciliava sete horas por dia de ginástica olímpica com o colégio. Depois disso, eu conciliava a faculdade de comunicação com o trabalho. E a pandemia me obrigou a parar. Foi o primeiro momento em que fiquei bastante sem trabalhar, e entendi a importância do tempo, da longevidade dos dias. Rensga foi o primeiro trabalho que fiz no esquema cinco dias para dois de folga. Em novela, você faz seis dias para um, de segunda a sábado, e no domingo estuda o texto da semana seguinte. Então, no fim das contas, não tem folga. Enquanto estava fazendo novela, não pensava muito em como isso era desesperador. Mas quando tive dois de folga achei tão perfeito poder sair com os amigos, tomar um vinho... Me deu outra dimensão. E cheguei à conclusão de que eu quero isso para minha vida. Quero poder aproveitar a minha casinha, que comprei recentemente, ficar na piscina, olhar pro céu. Entendi o quão melhor é trabalhar com essa qualidade de vida, entrar no set inteira, porque estou descansada. Mas a minha relação com a Globo continua, e já estamos pensando em coisas pro ano que vem. O mercado está muito aquecido, temos possibilidades de trabalhar com outros países, em outras línguas, coisas que me interessam muito não pelo status de Hollywood e tal, mas pelo desafio, pelo lugar de vulnerabilidade. Acho que vai ser válido tanto para a Globo quanto para mim. Digo que não foi um rompimento. Foi uma reorganização. É como abrir o relacionamento depois de muitos anos de casamento.

Inclusive, você está engatando uma relação com a HBO...

Sim! Vamos filmar ainda. É uma série do Raphael Montes, um melodrama, tem uma coisa de novela, mas em um formato de série. É interessante, e o elenco está muito legal. Tem uma galera de peso, o Antônio Fagundes, a Camila Pitanga, o Daniel de Oliveira. Estou muito animada.

O consumo também é política. Temos que ficar cada vez mais atentos para quem a gente dá o nosso dinheiro.
Falando agora de moda, que não deixa de ser uma escolha política também, como é sua relação com o consumo?

O consumo é uma escolha política sem dúvida! Infelizmente, essa coisa do consumo consciente, do second hand, ainda é uma coisa muito elitizada. Não chegou às pessoas mais pobres. Putz, se você comprar na Shein é muito mais barato. Mas, se você tem a oportunidade de escolher, deveria optar por um consumo mais consciente. Eu, por exemplo, amo bolsas desde pequena. Minha avó, inclusive, escreveu um livro para mim quando eu tinha 5 anos, falando sobre esse meu amor por bolsas. E, no final, ela dizia que a Alice descobriu que a maior bolsa que ela tem é o seu coração! Cara, é uma graça o livro. É o único objeto que eu gostaria de salvar se minha casa pegasse fogo. Mas eu não vou sair por aí comprando tudo o que é bolsa, tudo o que é tendência. Eu espero, gosto de coisas mais clássicas, porque sei que vão durar a vida inteira ou que vão valorizar e eu vou poder vender depois para comprar outra. Mas de fato ainda é uma coisa que não chega a todo mundo.

E com as marcas?

Minha relação com a moda vem de muito tempo. A forma como gosto de consumir, de acompanhar os desfiles, isso está em mim, é da minha natureza. E a Patricia Zuffa, que é minha stylist, ajudou muito a direcionar o meu olhar. É uma pessoa pela qual sou muito grata, uma inspiração na forma de vestir, de pensar a moda. Eu já fui em um desfile da Louis Vuitton em Paris, em um desfile da Gucci na Itália. E essa relação com a Gucci é muito legal. Vai além da coisa com a moda. A filosofia que eles têm está muito conectada com os meus valores, meus ideais. A moda é política, é a forma como você se posiciona, no que acredita. Não adianta, por exemplo, ter campanhas diversas e dentro da empresa só ter homem branco, cis. Temos que ficar cada vez mais atentos para quem a gente dá o nosso dinheiro.