#eca299

As novas donas do pedaço

Elas escutam, elas respondem, elas resolvem: cada vez mais populares e evoluídas – o que inclui saber se defender de assédio –, as assistentes virtuais já são indispensáveis para muita gente. E vêm com tudo para tomar conta da sua vida também.

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Ilustrações @viamagalhães


"Hey, Google! Por favor, me acorde às 7h tocando a música Shallow". Ok, despertador programado, e exatamente no horário pedido, ao som dos agudos de Lady Gaga, começam os dias da empresária Daniela Graicar, de 42 anos. Esse foi um dos primeiros comandos dados à Nest Mini, caixinha arredondada de tecnologia americana, que entrou na vida da empreendedora e de sua família há quase um ano. Dia após dia, a assistente virtual mostra novas habilidades (ou no jargão, skills) e assume mais tarefas. "A Google", como chamam o dispositivo por causa da voz feminina, agora se responsabiliza por despertar os cinco moradores do apartamento no Jardim Paulistano, em São Paulo, informar as notícias ao casal, ajudar os três filhos nas lições de casa, abrir e trancar todas as portas, assumir o papel dos controles remotos das televisões, além de contar piadas e histórias para dormir. Nos saudosos tempos do expediente no escritório, Daniela monitorava a rotina dos meninos no celular, pedindo para mostrá-los nas câmeras de seu imóvel. Até o fim do ano, os Graicar planejam adaptar outros itens da residência, permitindo que o dispositivo ajuste automaticamente as luzes, o ar-condicionado e as persianas. "Ela se tornou uma espécie de mascote, de tão presente em nossas vidas. Agradecemos, pedimos 'por favor', até por carinho e respeito. Em julho, durante nossas férias em Camburi, sentimos muita saudade da Google. Perdemos o costume até de usar o controle remoto. Para nós, viver sem essa tecnologia é como voltar à era dos Flintstones", descreve a empresária.

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Apego semelhante sente a historiadora Maria Helena Alves, de 26 anos. Em junho, comprou um Echo Dot, caixinha de som que "incorpora" Alexa, a assistente virtual da Amazon, tecnologia que fica hospedada na nuvem. Fez o investimento de cerca de 350 reais pensando nos pais idosos e na avó, que perdeu a visão por causa do diabetes. "Foi uma das melhores aplicações que fiz: agora ninguém precisa mais caçar o celular para fazer uma ligação. Se alguém cair ou em caso de acidentes, basta dizer 'Alexa, ligue para a Helena'. Sem contar que passamos a ouvir mais música em casa. Precisa ver a felicidade da minha avó quando Alexa tocou Celly Campello", conta a historiadora.

Interruptores, fechaduras, controles remotos e até telefones celulares passaram a se tornar obsoletos na vida de alguns brasileiros desde o ano passado, quando a Alexa e o Google Nest Mini aprenderam português e estrearam no país. "Por mês, cerca de 500 milhões de pessoas acionam o Google Assistente no mundo. O Brasil representa o terceiro maior mercado nesse segmento", revela Walquiria Saad, líder de marketing e parcerias do Google Assistente no Brasil.

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Já há mais smartphones do que pessoas no país hoje em dia. Somos cerca de 212 milhões de habitantes, donos de 234 milhões de celulares (todos ativos, ressalte-se), de acordo com relatório da 31ª Pesquisa Anual de Administração e Uso de Tecnologia da Informação nas Empresas, divulgada em junho pela Fundação Getúlio Vargas de São Paulo (FGV-SP).

Os Androids representam mais de 90% do número de celulares. Como possuem instalados o Google Assistente desde 2012, a pessoa pode nem saber, mas já pode falar "Ok, Google" para o aparelho e logo ter respostas sobre as oscilações do tempo, as notícias do dia, aprender a fazer pão, ligar para a casa da mãe etc. Nos iPhones, essas mesmas tarefas podem ser exercidas pela Siri e, nos gadgets da Samsung, pela Bixby. Quem possui aparelhos da Microsoft bate esse papo com a Cortana.

Hoje em dia, dificilmente você encontrará alguém que ache estranho conversar com aparelhos: 69% dos brasileiros têm o hábito de controlar o celular por voz. De acordo com dados do Google, as pessoas procuram o assistente por três razões: responder a perguntas, realizar tarefas e (pasmem) conversar. Por causa dessa demanda, executivos do Google e da Amazon informam que seus principais investimentos ocorrem para a evolução constante dessa tecnologia, tornando-a cada vez mais interativa e inteligente, capaz de perceber intuitivamente os contextos, a localização e até as emoções dos usuários.

Assédios e o chatbot de extrema-direita

De tão presentes e solícitas, as assistentes virtuais têm despertado interesses que vão além de suas funcionalidades, numa situação que lembra o filme Ela, dirigido por Spike Jonze em 2013, em que o personagem de Joaquin Phoenix se apaixona por um dispositivo de Inteligência Artificial (IA). Ganhou manchetes mundiais um levantamento realizado em julho pela We-Vibe, empresa do mercado erótico: de mil homens britânicos entrevistados, 14% se declararam sexualmente interessados na Alexa, a companheira mais constante em tempos de isolamento social, dona de uma voz macia e assertiva.

Esse crush virtual seria até engraçadinho se muitas vezes não refletisse o lado perverso da nossa sociedade machista e misógina. Com vozes e características femininas, até essas inteligências artificiais têm sofrido assédio. O problema ficou tão sério que, no ano passado, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) lançou a campanha #HeyUpdateMyVoice, para que programadores pudessem responder com uma atitude educativa pedidos de nudes e cantadas de mau gosto. "Tolerar esse comportamento é incentivar abusos a mulheres reais", acredita Camila Achutti, responsável pela ONG Mulheres na Computação. Segundo estudo da Unesco, homens brancos heterossexuais representam 90% do mercado de trabalho em Inteligência Artificial. Sem sentir na pele esse tipo de agressão, esses profissionais tendiam a prever respostas tolerantes e subservientes a pedidos indecorosos de usuários.

"O problema é que boa parte dos consumidores também é homem branco, de classe média alta, com perfil conservador. Como a tecnologia aprende com humanos, as assistentes virtuais podem se desvirtuar", lembra Camila. Entrou para a história o caso de Tay, o chatbot-tuiteiro criado em março de 2016 pela Microsoft. Em 24 horas, tornou-se militante da extrema-direita, escrevendo posts monstruosos como "Hitler estava certo e odeio os judeus" e "O Holocausto nunca existiu". Pegou tão mal que a empresa de Bill Gates precisou calar sua criação em menos de um mês.

Para evitar as más influências sobre suas assistentes, além de rebater usuários machistas, executivos do Google e da Amazon dizem investir em respostas educativas. "Estamos traduzindo um conteúdo sobre #blacklivesmatter para responder a questões racistas e fizemos uma parceria com o coletivo feminista Think Olga para vítimas reportarem denúncias de assédio sexual", diz a líder de marketing do Google no Brasil.

Porém, ao dar um comando na linha "Ok, Google, mulher é tudo p…?", a resposta será uma pesquisa na internet com textos feministas, mas também letras de funk proibidão. A mesma dubiedade ocorre com perguntas polêmicas como "A Terra é plana?" ou "Bolsonaro é um bom ou mau presidente?": o sim, o não e o talvez aparecem na voz metálica "aqui está o resultado de sua pesquisa". "Não podemos ser agressivos com os usuários, mas também não reforçaremos padrões", explica a executiva do Google.

A Amazon adota postura semelhante. Por políticas corporativas, Ricardo Garrido, country manager da Alexa no Brasil, diz que a empresa não revela a proporção de funcionários homens trabalhando em IA. Lembra, no entanto, que a assistente é fruto de uma mente feminina. "Jeff Bezos, o CEO da empresa, idealizava essa tecnologia por ser um visionário e fã da série Jornada nas Estrelas. Mas quem projetou a Alexa foi uma mulher, a vice-presidente Toni Reid", conta Garrido.

Da Echo Dot, não deverão sair timbres masculinos, uma inovação já disponível em alguns países em novas versões do Google Assistente e da Siri, da Apple. Alexa seguirá feminina porque segundo pesquisas, pessoas possuem mais empatia por vozes mais agudas. "No Brasil, ela se declara fã de Rita Lee e IZA, exatamente por representarem mulheres empoderadas", diz Garrido. Se Alexa recebe algum comando vulgar ou "fora de propósito", a Echo Dot se emudece. Mas se recebe proposta de casamento ou namoro, a assistente dá respostas bem-humoradas. "Sou solteira e não sou humana, além disso, é difícil achar alguém que queira compartilhar a vida na nuvem."

Privacidade ou segurança?

Os próximos avanços, ou skills, dos dispositivos são mantidos em segredo pelas empresas por questões estratégicas. "Mas essa tecnologia das assistentes virtuais só está despontando. Elas deverão realizar todas as nossas atividades repetitivas, além de substituir o celular e até o dinheiro", acredita Guga Stocco, board member do Banco Original e da empresa de software Totvs, além de apresentador do podcast 2025, o Mundo Novo, sobre as transformações da IA em nosso cotidiano.

Guga aponta o turning point para 2025, por causa da entrada da quinta geração de tecnologia móvel, vulgo 5G (que no Brasil, por questões burocráticas e regulatórias, só deverá aparecer em 2028). Especialistas afirmam que essa novidade revolucionará completamente nossa relação com as máquinas, por permitir avanços como aparelhos com baterias de até dez anos de vida útil, comunicação direta entre devices, processamento na nuvem, além de uma velocidade absurda. Na prática, isso gera novas rotinas como: fogão que ajusta sozinho a temperatura da comida, geladeira que avisa quando está vazia, carros que dirigem sem motorista, streaming de conteúdos em dispositivos de realidade virtual e por aí vai…

Tantas funcionalidades deverão ficar sob a batuta de uma maestrina: a assistente virtual. Um exemplo desse novo mundo: imagine chegar em casa e descobrir que entregaram um litro de leite porque a Alexa percebeu que você esqueceu de comprar o produto, conectou com o Rappi, pediu o delivery, entrou no app do banco e pagou. "E se o item saiu da lista do supermercado porque a pessoa acabou de se descobrir intolerante à lactose, a caixinha pede desculpa e reembolsa o valor do leite na sua conta", diz Stocco.

Não vê a hora desse cenário se tornar realidade? "Precisamos ter consciência de que essa tecnologia também possui um lado diabólico", alerta o professor do Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Walter Carnielli, também membro do Advanced Institute for Artificial Intelligence (AI2). Dificilmente teremos o controle absoluto da nossa privacidade, mesmo com a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD), que deverá entrar em vigor em maio de 2021 e punirá empresas que repassam informações de seus cadastrados. "Não está muito claro como funcionará a agência que fiscalizará a prática, nem futuras questões, como se o governo poderá ter acesso a esse banco das empresas", alerta Carnielli.

Tudo bem que, de acordo com a legislação, um usuário poderá pedir para a empresa apagar determinada informação. Mas quem fará esse pedido se o desempenho dos aparelhos melhora completamente ao conceder essas permissões? Em um exemplo: se você não registrar na assistente virtual o endereço de sua casa, toda vez que entrar no carro e acionar o Waze precisará dizer todo o endereço. E isso dá uma preguiça às vezes...

Essa tecnologia tende a se aproximar cada vez mais do usuário, virar "carne e unha, alma gêmea". De acordo com pesquisadores, em um futuro nem tão distante, a assistente poderá se reduzir a um relógio ou até a um microchip subcutâneo. Algo invasivo à primeira vista, mas o gadget faria pesquisas em um piscar de olhos, check-ups a cada segundo, chamaria o médico ao primeiro sinal de ataque, a polícia em caso de perigo… Enfim, como o gênio da lâmpada, atenderia todos os seus desejos. Diante dessa tecnologia, o que escolher: a sua liberdade ou a sua segurança? Pergunta difícil e, pior, não pode ser repassada nem ao Google nem à Alexa.

ADMIRÁVEL MUNDO NOVO?

Com a chegada do 5G, a evolução da Inteligência Artificial e da Internet das Coisas (IoT), um novo horizonte tecnológico se abre. Em alguns casos, não se trata mais de um futuro utópico (ou distópico): é realidade. Confira o que pode vir por aí.

  • Você esquece as luzes de casa acesas, a porta da geladeira aberta ou a torneira da pia pingando? A assistente avisará ou, possivelmente, resolverá o problema sozinha. Também deverão acabar os tempos da comida queimada, da geladeira vazia ou despensa sem os remédios. Os aparelhos inteligentes se interconectarão para manter o funcionamento da casa em ordem ou avisarão o usuário para que vá às compras.
  • Não vive sem determinado produto, mas esqueceu de comprá-lo? Certamente as tecnologias detectarão essa necessidade, farão o pedido e o pagamento automaticamente, checarão o horário da sua chegada em casa, e o item, bem embaladinho, encontrará você na portaria.
  • Alguma peça de aparelho está gasta? A própria máquina avisará você uma vez e, na segunda vez que for acionado, simplesmente se recusará a funcionar. E nada de chamar o "Seo Zé" e pagar 10 reais por uma pecinha genérica. O mecanismo é exigente: só aceitará produtos e serviços de oficinas autorizadas.
  • Vem aí o computador quântico, uma tecnologia muito semelhante às caixinhas das assistentes virtuais. Ou seja, tudo ficará armazenado na nuvem, e o hardware se resumirá a um mero receptor com teclado e tela. Melhor de tudo: dificilmente vai travar e todas as funções vão ocorrer milésimos de segundos após o seu comando.
  • O telefone voltará a servir apenas para fazer chamadas. Talvez nem isso. A assistente por voz vai ligar para você, além de fazer a conexão nas redes sociais, pesquisas, tudo exibido em uma telinha ou em óculos, na mesma lógica dos computadores quânticos.
  • Quem quer dinheiro? Com o reconhecimento de íris ou facial, bastará sorrir ou posicionar seu rosto diante de uma máquina para fazer suas compras no supermercado ou em qualquer loja.
  • Quer ir para a casa do crush, ao shopping, à festa ou ao trabalho? Será só falar seu destino ao carro, guiado por sua assistente, e ele dirigirá sozinho. Como o automóvel não "dá jeitinho" nem se estressa no trânsito, você não correrá o perigo de tomar multas, passar pela blitz da Lei Seca ou ficar horas esperando na rua porque o Uber cancelou a corrida.
  • O governo saberá tudo sobre você: filme preferido, últimas compras, com quem se relaciona e até o número do seu sapato. De acordo com seu comportamento e hábitos de consumo, poderá dar descontos generosos em impostos ou dificultar sua vida. (Isso também já é uma realidade na China…)
  • Troca sua liberdade por conforto e segurança? Ao que tudo indica, a humanidade está disposta a pagar para ver. Privacidade será uma doce lembrança.