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Carta da editora

Sonho, desejo, ambição e despedida

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Esses dias me deparei com um tuíte que grudou na minha cabeça. Ele dizia algo como “nunca vi tanta gente terminar um ano tão mal, parece um campo de batalha, as pessoas estão se segurando como podem”. Só na última semana, vi mais uns três que diziam coisas parecidas. Soube também que a OMS vai passar a classificar, a partir de 2022, o burnout como uma doença ocupacional. É a prova de que o esgotamento é coletivo e de que as soluções podem sim passar por tratamentos individuais, mas também demandam a consciência de que transformações mais estruturais são necessárias.

Um dos fatores que aumenta a exaustão é, sem dúvidas, o famigerado poder das redes sociais sobre nós. Esse tema foi bastante debatido nas edições da ELLE View deste ano com reportagens e conversas com nossas estrelas de capa sobre como aprender a lidar melhor com elas. Falamos com Luísa Sonza, Camilla de Lucas, Ludmilla, Mc Carol e, agora, Marina Sena. A cantora mineira, que estourou no TikTok, tem pouquíssimo tempo de mainstream, mas já precisou encarar pelo menos dois grandes episódios de hate online (um por causa de sua voz e outro por ter sido escolhida como a revelação do ano no Prêmio Multishow). Apesar de fazer parte da geração que domina a internet, ela se manifestou após sua conta no Instagram ter sido suspensa dizendo que não há como normalizar esse tipo de ataque. Acaba ficando escancarado que há sempre uma boa dose de machismo no tratamento destinado a mulheres artistas, principalmente as que ousam continuar trabalhando, vivendo e almejando crescer. Não é coincidência que diversas pesquisas tenham apontado que mulheres, agora falando não apenas das celebridades, sofram mais da tal síndrome do burnout do que homens.

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Mas uma coisa que me chamou atenção na entrevista que Marina nos deu é que, apesar do pesares, ela vive com a certeza de que sempre foi uma diva pop, de que vai virar uma estrela internacional e de que conseguirá marcar a história da música brasileira. Para mulheres, convicções assim podem ser lidas como ambição demais, ou mesmo arrogância. Passar por cima desse tipo de julgamento, conseguir ouvir os desejos e transformá-los em corpo e forma como Marina vem fazendo, porém, é um dos meus grandes desejos para nós em 2022.

Com essa deixa, aproveito para contar que esta é a minha última edição da ELLE View, projeto que toquei com tanto orgulho e dedicação em 2021. Eu definitivamente não quero fazer disso uma triste despedida, mas para quem não sabe, estou na ELLE desde 2014, em uma trajetória que superou em muito qualquer sonho adolescente meu de um dia trabalhar em uma revista de moda. Poder parar para contemplar os anseios da cabeça (e de uma pessoa que está passando por seu retorno de Saturno) é um privilégio e também a coragem que citei acima que sinto que consegui alcançar. Me despeço deste espaço sabendo, é claro, que não existem adeus definitivos e que é preciso, assim como Marina Sena tem feito, acolher os nossos desejos.

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Obrigada, leitores, por tudo. São vocês que, com sua assinatura, fazem com que o projeto desta revista digital siga firme e forte (e vem melhorias e mudanças por aí em 2022) assim como nosso trabalho na ELLE em diversas plataformas. Deixo vocês nas melhores mãos do mundo e desejo que 2022 seja ainda mais brilhante.

Esta edição, que fala de retrospectivas e apostas em diversas áreas, não poderia ser melhor para encerrar este ciclo. Poder imaginar o futuro juntos – sempre, é claro, ponderando as novidades que muitas vezes chegam disfarçadas de melhorias – é um pequeno ato para caminharmos para algo melhor coletivamente.

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Um beijo,

Nathalia