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Dizem que o glamour voltou, mas para quem e por quê?

Como o enfrentamento à pandemia da covid-19 impactou o mercado de moda, da estética aos negócios.

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Há algumas semanas a New York Magazine colocou em sua capa uma reportagem sobre a volta do FOMO. Sim, o fear of missing out (medo de não participar) é uma realidade de novo. No caso, a matéria falava sobre o boom de eventos nos Estados Unidos. Com quase 45% da população vacinada (até a data desta publicação), boa parte das atividades sociais banidas por mais de um ano foi retomada.

Além do país norte-americano, outras nações menos negacionistas e genocidas também já começam a sentir o impacto positivo das campanhas de vacinação em massa, aliada a pacotes de auxílio econômico para empresas e cidadãos. E a moda é um ótimo termômetro para isso.

Desde janeiro, a busca por tops brilhantes subiu 137%, segundo a plataforma de compras de moda Lyst. Sapatos de salto alto e vestidos de festas tiveram um crescimento de 163% e 222%, respectivamente, nas pesquisas do site. Entre as peças mais procuradas, destacam-se as mules Devon, da Attico, e um vestido de alcinha de Nensi Dojaka.

A marca londrina viu as vendas de vestidos transparentes e colados ao corpo aumentarem 95%, nos EUA, e 44%, no Reino Unido, de acordo com a plataforma de inteligência de varejo Edited. Um look bem diferente daqueles compostos de calça de moletom, camiseta, meia e sandália tipo Birkenstock.

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O movimento não é exatamente uma surpresa. Desde o início da pandemia, em 2020, já se falava de como, passado o caos, muita gente desejaria o completo oposto do que vestiu e fez durante quase um ano e meio. As coleções de inverno 2021, apresentadas em fevereiro, reforçaram a tese. Entre as principais tendências da temporada está o retorno do glamour, ou uma versão adaptada dele.

Prada, Paco Rabanne e Dries Van Noten, todos inverno 2021.

Prada, Paco Rabanne e Dries Van Noten, todos inverno 2021.

Fotos: Divulgação

Prada, Paco Rabanne e Dries Van Noten são alguns nomes que não esconderam o quanto sentiam falta de um bom paetê, tecidos acetinados, cortes elaborados, volumes e tudo mais que remete a ideias exuberantes do vestir. Teve quem preferiu escapar para a fantasia ou para o drama, caso de Dior, Simone Rocha e Patou. E teve também aquele surto de quem não aguenta mais os básicos de todo dia e decide usar tudo junto ao mesmo tempo (e de maneira extremamente criativa), como visto na Louis Vuitton e na Coach.

Contudo, é preciso ir com um pouco de calma no assunto. A euforia pró-montação é bastante compreensiva, desejada até, porém não existe num vácuo. Está submetida a uma realidade bastante complexa e pouco definida. Por exemplo: segundo pesquisa da consultoria McKinsey & Co., 90% dos executivos entrevistados acreditam que os modelos de trabalho seguirão híbridos após o fim da pandemia. Ou seja, o home office não deve desaparecer tão cedo. Isso tem impacto direto sobre a maneira de vestir – e consumir.

"Podemos ver algumas variações de comportamento no consumidor. Basicamente, ele deve se arrumar mais e melhor nos dias em que vai sair e manter os hábitos e looks confortáveis quando estiver em casa", disse a consultora Anita Balchandani, no The McKinsey Podcast. "O que devemos observar é uma nova forma de glamour, com algum grau de conforto embutido."

Em termos práticos, significa uma abordagem considerada por parte dos consumidores, escolhendo mais cautelosamente o que investir e o valor (simbólico e funcional) daquela peça. Já do lado de quem cria, opções de itens versáteis e uma nova interpretação sobre o glamour estão entre os principais desafios.

\u200bChanel, inverno 2021

Chanel, inverno 2021.

Foto: Divulgação

Molly Goddard, inverno 2021.\u200b

Molly Goddard, inverno 2021.

Foto: Divulgação


Raf Simons, Chanel, Chloé, Molly Goddard e Balenciaga são algumas marcas que já aderiram à ideia. Em todas elas, rola uma combinação de peças elaboradas, tecidos finos e brilhos discretos, com modelagens similares àquelas do bom e velho agasalho de moletom, do jeans com anos de vida e da camiseta puída, da qual jamais abrimos mão. É para quem quer brilhar, mas ainda não se sente 100% preparado para se desapegar do conforto e da segurança da roupa de ficar em casa.

Questão de contexto

A busca por glamour, contudo, não tem a ver só com uma reação às privações de um mundo pandêmico. Na verdade, trata-se da conjuntura de vários fatores sociais, políticos, econômicos e culturais, que contribuem para mudanças de humor e, consequentemente, estímulo ao consumo.

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A história está de prova. Exemplos óbvios são os anos loucos, na década de 1920, após a Primeira Guerra Mundial e a gripe espanhola, a libertinagem da Berlim na República de Weimar, também no entre guerras, e os relatos de alegria histérica e fornicações sem limites, depois da peste bubônica, no século 14. Porém é possível ir um pouco além e constatar hábitos e padrões similares aos de agora em pandemias passadas.

Em 1830, por exemplo, a França teve um surto de cólera, responsável por matar 3% dos parisienses em apenas um mês. Com o fim da doença, o país viveu um boom econômico, dando início a sua industrialização, logo após a revolução industrial do Reino Unido. Porém a pandemia afetou a população de maneira desigual, deixando os pobres em situação ainda mais vulnerável. Revoltados contra os ricos, que fugiram para suas casas de campo, as classes mais baixas deram início a anos de revolução social.

Outro ponto comum em outras pandemias, em relação à de agora, diz respeito à poupança. Na primeira metade de 1870, durante um surto de catapora na Inglaterra, as economias das famílias dobraram. Com a gripe espanhola, entre 1919 e 1920, os estadunidenses pouparam mais dinheiro do que em qualquer outro ano até a Segunda Guerra Mundial, quando as economias voltaram a crescer.

Ainda segundo as análises históricas, uma vez retomada a normalidade, o dinheiro poupado passava a circular mais rapidamente, aumentando o consumo e gerando mais empregos.

Isso ajuda a entender por que os EUA, junto da China, comandam a retomada econômica na primeira metade de 2021. Ambos mostraram uma recuperação rápida e acima do esperado. Ainda que mais tímidos, os dados se repetem na Inglaterra, na Itália e em Cingapura.

Especificamente sobre os EUA, os indicadores econômicos voltaram a dar sinais positivos a partir de dezembro de 2020, com o começo da campanha de vacinação. Em março deste ano, já sob o governo Biden, um novo pacote de auxílio de renda de quase 1,9 trilhão de dólares reacendeu os ânimos dos consumidores. Naquele mês, as vendas subiram 10,7%, em comparação ao anterior.

No Brasil, ainda estamos longe de mudar nossos hábitos e rotinas. Nem 15% da população nacional recebeu as duas doses da vacina. Já são quase meio milhão de brasileiros mortos pela pandemia e negação do governo federal. Poupar é praticamente impossível com a redução do auxílio emergencial e alta nos preços de itens básicos de alimentação.

O PIB voltou a crescer, é verdade, assim como a concentração de renda. Se tudo der certo, dizem economistas, o cenário começa melhorar lá por meados do segundo semestre. Mas melhorar para quem? Não bastasse a morosidade da vacinação, temos uma economia convalescida, desemprego nas alturas e desigualdade galopante.

Não é nem que não tem clima para pensar em look glamouroso para festa pós-vacina. Para muitos, o sonho é simplesmente longe demais da realidade. Quem vai pensar em comprar brusinha quando pode faltar comida no prato?

Por aqui, é só wishlist e FOMO da vacina. Enquanto isso, o terceiro setor que mais emprega no país (são mais de 8 milhões de pessoas impactadas direta e indiretamente por essa indústria) segue em deterioração. E tem gente que ainda acha que moda e política não se misturam. Puro delírio.