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Humano, esse ser social

Sempre há uma comunidade online pronta para receber você. Veja como esses grupos virtuais viraram espaços de troca, de acolhimento e até agentes de mudanças sociais.

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Desde que o mundo é mundo, as pessoas se reúnem em grupos. Para sobreviver ou se divertir, para unir forças e trocar conhecimento. Para compartilhar valores, crenças e ideais, preencher uma necessidade de pertencimento. Os motivos pelos quais continuamos nos agrupando permanecem os mesmos, mas, neste século, a evolução tecnológica transformou drasticamente os mecanismos que possibilitam esses encontros.

As redes sociais encurtaram caminhos e estabeleceram ambientes de intercâmbio de ideias e de criação colaborativa em que pessoas de diferentes lugares, mas com desejos em comum, não encontram barreiras geográficas. Ok, a gente sabe que a internet não é exatamente um universo colorido cheio de unicórnios (leia mais sobre o lado obscuro das redes na reportagem O dilema do momento). Mas não faltam exemplos de grupos e comunidades virtuais que se transformaram em espaços potentes de construção coletiva. São redes de afeto e de apoio, além de iniciativas que contribuem para mudanças que vão além do ambiente online e sacodem também as estruturas do mundo offline.

O recurso de grupos no Facebook completa 10 anos neste mês de outubro e, segundo dados da plataforma, é utilizado por mais de 1,8 bilhão de pessoas todos os meses. Só no Brasil, essas comunidades virtuais reúnem mais de 120 milhões de participantes. Com o isolamento social imposto pelo avanço do novo coronavírus pelo mundo, a relevância desses grupos ficou ainda maior, como aponta uma pesquisa realizada em agosto pela empresa britânica YouGov, a pedido do Facebook. No Brasil, 78% dos participantes disseram que as comunidades se tornaram mais importantes para eles durante esse período, 94% das pessoas que são membros de uma comunidade deram apoio a alguém por meio dela e 88% receberam apoio dessa forma durante a pandemia. Outro dado revelador: 87% dizem que a comunidade mais importante da qual são membros é online.

Quem se lembra do Orkut?

A ELLE Brasil também tem seu grupo no Facebook para conectar leitores, discutir pautas e trocar informações. E foi lá que a leitora mineira Aline Carvalho, 24 anos, deu o seu depoimento: "Nesses grupos, pude levantar pautas importantes, mostrar a minha vivência como mulher com deficiência, informar e quebrar tabus. Grupos conectam as pessoas, ampliam os mundos". Aline conta que começou a participar de comunidades virtuais ainda na adolescência, "na época da internet discada e do Orkut". A rede criada em 2004 pelo engenheiro turco Orkut Büyükkökten foi desativada em 2014, mas Aline relata que até hoje mantém amizades que fez por lá.

Assim como Aline, muita gente teve sua primeira experiência com grupos virtuais no Orkut. Febre no Brasil, ele chegou a reunir 30 milhões de usuários no país. Para ter uma noção da grandiosidade, o museu de comunidades criado pelo Google quando a rede foi extinta (que ficou no ar até 2017) reunia mais de 1 bilhão de mensagens trocadas em 120 milhões de tópicos de discussão de cerca de 51 milhões de comunidades.

Uma dessas comunidades era a Passinho Foda, que foi administrada por Leandra Pinheiro, conhecida na época como Leandra Perfects, no período de 2008 a 2010. Leandra, 36 anos, conta que o grupo inicialmente foi fundado por um garoto para falar sobre futebol. Os tópicos sobre dança, no entanto, tinham mais engajamento, e o criador acabou passando a senha para ela. Rebatizado com o nome do vídeo que deu fama mundial ao passinho, o grupo virou um canal para divulgar bailes, debates e desafios e um espaço em que era possível compartilhar experiências e visões de lugares diferentes, sem problemas de distância e outros obstáculos. "A Passinho Foda uniu pessoas de comunidades diferentes do Rio de Janeiro. Acredito que, se não fosse por ela, muitas pessoas nunca teriam se conhecido", diz Leandra. Sem contar que a comunidade também iniciou o diálogo sobre a questão do machismo no passinho, que no começo era visto como algo exclusivamente masculino.

Para o movimento feminista, por sinal, as comunidades virtuais se revelaram uma ferramenta fundamental. "Os grupos e comunidades online, por serem de fácil acesso (pela perspectiva de um ambiente urbano), foram como gasolina no fogo da discussão sobre os direitos das mulheres", diz a jornalista Juliana de Faria, 34 anos, fundadora da ONG Think Olga e do grupo Talk Olga, no Facebook. "Eles facilitaram o entendimento das temáticas, que muitas vezes eram feitas de maneira mais elitizada ou restrita a ambientes acadêmicos." Criada há sete anos, como um blog, a Think Olga foi responsável por importantes campanhas online pelos direitos femininos, com a divulgação de hashtags como #primeiroassedio, #elafazhistoria e #chegadefiufiu. "Costumo falar que a coragem é viral e funciona como um jogo de dominós. Você derruba o primeiro, que derruba o segundo e por aí vai. Eu aprendi e ainda aprendo muito, todos os dias, graças a esse acesso a outros grupos e a mulheres que se tornaram ícones na propagação de seus pontos de vista, de seus objetos de estudos, das suas vivências, das suas histórias e memórias. Isso tem sido muito enriquecedor", diz Juliana.

A criadora do grupo Mad Women, Ana Mationni, 31 anos, também aposta no coletivo: "O nosso poder veio de descobrir que a gente encontra refúgio uma na outra e que as angústias se transformam em força quando elas não são sentidas sozinhas". Atualmente com cerca de 6,8 mil integrantes, o grupo surgiu da insatisfação e da exaustão de mulheres que atuam em agências de publicidade e no mercado criativo diante de um espaço machista, com vasto histórico de assédios físicos e morais.

"O nosso poder veio de descobrir que a gente encontra refúgio uma na outra e que as angústias se transformam em força quando elas não são sentidas sozinhas." Ana Mationni

Graças à pressão de comunidades como a Mad Women, houve avanços, como a criação da lei da importunação sexual, que criminaliza atos libidinosos realizados sem o consentimento da outra pessoa. Antes da implementação da lei, ocorrências como "beijos roubados" e toques inapropriados – que ocorrem com frequência no transporte público, por exemplo – eram consideradas apenas contravenções. "O que os grupos fazem é mostrar que algumas células que se movimentam juntas já são um organismo com vida própria, com uma força imensurável e uma sensação de potência que é quase viciante", compara Ana.

Do online para o offline

Um bom exemplo de mobilização online que gera resultados fora do ambiente da internet é a comunidade Indique uma Preta, uma rede de apoio, empregabilidade e desenvolvimento profissional para mulheres negras, que tem 17,8 mil seguidores no Instagram e 6,9 mil integrantes no grupo privado no Facebook. Suas fundadoras, Amanda Abreu, Daniele Mattos e Verônica Dudiman, observaram que, diante dos tensionamentos puxados pelos movimentos sociais, várias empresas se mostravam mais preocupadas em discutir questões relacionadas a raça, gênero e classe, mas não ofereciam recursos necessários para mudanças de fato. Com o Indique uma Preta, elas atuam como consultoras de conexões entre a comunidade negra e o mercado de trabalho. "Nós percebemos que Indique uma Preta era um negócio, pois estávamos fazendo tudo de um jeito muito legítimo, com propósito, a fim de promover transformações", diz Daniele, comunicadora social com foco em relações públicas e diversidade.

Para entender a importância dessa iniciativa, basta dar uma olhada nos números. A taxa de desemprego entre mulheres negras é de 16,6% – o dobro da verificada entre homens brancos, de 8,3%, mostra o levantamento feito pelo economista Cosmo Donato, da LCA Consultores, com base na média dos últimos quatro trimestres da PNAD Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). A mesma pesquisa aponta ainda que o índice de desemprego entre as mulheres negras também é maior quando comparado ao das mulheres brancas (11%) e dos homens negros (12,1%).

Amanda, 30 anos, que atua na área de Planejamento Estratégico, ressalta que essa questão já vinha sendo tratada por nomes como Sueli Carneiro, da Geledés, e outras pensadoras do movimento negro: "A internet e as comunidades, de certa forma, impulsionaram esse assunto para uma gama maior de público. A gente não trouxe o tema. Nós o potencializamos", avalia. Com a pandemia, a relação da cofundadora Verônica, 28 anos, com a rede ficou ainda mais estreita. "A rede ajudou a romper barreiras regionais. Converso com mulheres do Sul, do Nordeste… Há uma potência criativa nelas, e o Indique uma Preta nasce disto, de criar espaços que a gente não teve, pensando nas mulheres negras desta e das próximas gerações, para que elas não passem por tudo que a gente teve que passar."

Diferentemente do Indique uma Preta, que já nasceu com um propósito bem definido, outros grupos foram encontrando seu foco graças à atuação dos próprios participantes. É o caso do Fashionismo, que reúne 10,6 mil membros no Facebook. Originalmente, o grupo foi criado com o simples objetivo de ajudar na construção de um novo layout para o blog de mesmo nome, com sugestões das leitoras mais ativas. Mas a história foi muito além: não demorou muito e ele se transformou em um espaço para troca de ideias e debates sobre moda e comportamento. "Foi conhecendo a vivência de muitas dessas mulheres que saí da minha bolha, aprendi palavras como empatia e sororidade. E, se aconteceu comigo, aconteceu com milhares delas. Crescemos juntas", diz Thereza Chammas, 38 anos, criadora do Fashionismo. O grupo existe há seis anos, metade do tempo de existência do site, e apesar de Thereza marcar presença lá diariamente, ela conta que a comunidade tem vida própria. "Ela funciona graças às leitoras que fornecem conteúdo, troca e entretenimento", conta a fundadora.

Outro site que tem um braço forte no Facebook é o Modices. Fundado em 2007 como um blog, pela carioca Carla Lemos, 35 anos, o Modices evoluiu e se tornou um veículo de comunicação que fala sobre moda, beleza e empoderamento no Brasil, um espaço para que seus leitores quebrem padrões e se redescubram por meio da moda. Em 2011, foi criado o grupo do Modices no Facebook a fim de ampliar a conversa e ver outras realidades, tornando-se, assim, um espaço de acolhimento. Carla fez valer o sentido de redes sociais e não ficou somente na internet: antes da pandemia, o Modices promovia encontros presenciais, incluindo matinês para reunir mães que precisavam de um tempo mais flexível – olhar para as demandas da comunidade e ver os membros como pessoas e não como avatares, afinal, é essencial para fazer com que o grupo se movimente na vida real. "As comunidades ajudam a gente a não ter medo de mudar de ideia. Sempre há algo a aprender", diz Carla. Entre os aprendizados, há um principal, destaca ela: "Exercer a escuta".

E aí chegamos a um ponto-chave para entender os grupos online: apesar de estarem unidos por algum tipo de afinidade, os membros de uma comunidade não precisam – nem devem – assentir a tudo o que o outro diz. O conceito de comunidade, seja ela virtual ou física, não é algo tão simples de ser sintetizado.

Para o pesquisador, artista e curador João Simões, 41 anos, um dos idealizadores da plataforma Explode!, a comunidade envolve uma pluralidade de visões e perspectivas que nem sempre estão em concordância. "No meu entendimento, a comunidade pode ter desejos e objetivos comuns, sem que isso signifique um achatamento das questões individuais de cada pessoa que faça parte dela." Em alguns momentos, isso gera, sim, conflitos para que esses objetivos "comuns" possam ser definidos e modificados quando houver necessidade, diz João. Mas não é a unanimidade que faz a força de um grupo. É a sua pluralidade que vai definir as possibilidades de transformação e manutenção de uma comunidade.