Marcando a história

Se designers negros importam, por que a moda faz questão de apagar cada um deles ao longo do tempo?

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Em julho deste ano, na estreia da Pyer Moss no calendário oficial de alta-costura, o diretor de criação Kerby Jean-Raymond fez de sua coleção uma homenagem a inventores negros ignorados ou esquecidos pela história. O fenômeno não é raro e tem nome: apagamento cultural. Consiste na alteração ou, como o nome já indica, na exclusão de feitos e autorias de determinado grupo social. No caso, estamos falando de pessoas negras. E na moda não é diferente.

Pense em três grandes estilistas. As chances de você ter lembrado apenas de nomes de pessoas brancas são altíssimas. Ao longo da história, designers negros colaboraram de forma relevante para a evolução do mercado, da indústria e da forma como muita gente se veste. Mais do que isso, esses profissionais tiveram de resistir e batalhar para conquistar espaço em uma indústria dominada por brancos. Aqui, lembramos alguns nomes icônicos que comumente são deixados de lado.

Luiz De Freitas

Luiz de Freitas foi um grande ícone carioca, dono e estilista da Mr. Wonderful, marca de moda masculina criada na década de 1970, que marcou época como símbolo de modernidade. Suas roupas eram voltadas para o showbiz e eram solicitadas com frequência para editoriais e programas de televisão. Não por acaso, os tecidos favoritos do estilista eram o lamê e o cetim, com direito a muita transparência e brocados.

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Luiz veio de uma família de operários e, antes de se aventurar com roupas, trabalhou como mecânico de automóveis. Mas a moda sempre foi grande fascínio do estilista, nascido em Pau Grande, bairro do distrito de Vila Inhomirim, no município de Magé (RJ). E desde muito cedo. Aos nove anos, costurou seu primeiro vestido, feito para sua irmã, na máquina da madrinha.

De origem simples, negro e gay, ele fazia questão de exaltar suas raízes e combater o preconceito com sua personalidade irreverente. Traço que se refletia em sua loja, na Zona Sul da capital fluminense. A decoração simulava um ambulatório. Era uma ''clínica da moda'', decorada com móveis antigos de hospital. É que Luiz achava que, para vender roupas tão fora do padrão para os homens da época, era necessário um ''tratamento'' para plantar a ideia de que eles precisavam se vestir de forma diferente da habitual.

Luiz achava a moda masculina brasileira muito cafona, padronizada e sem graça. Seu objetivo era mudar esse cenário. Veio daí o nome da marca, Mr. Wonderful (Senhor Maravilhoso). Numa época em que o estilo carioca era representado por uma imagem um tanto mais sóbria daquela que conhecemos hoje, o estilista apresentou ao mercado cores e exuberâncias sem igual.

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Entre seus clientes estavam Caetano Veloso, Gilberto Gil, Arnaldo Jabor e nomes internacionais, como Prince, Rod Stewart e Freddie Mercury. Esse último, aliás, comprou muitas leggings coloridas de Luiz. Jean Paul Gaultier também esteve na Mr. Wonderful – os dois chegaram até a fazer um desfile juntos –, assim como Gianni Versace, que saiu com dez vidros da água de colônia vendida por lá.

O sucesso internacional foi tanto que Luiz ganhou até uma coleção exclusiva na Saks, famosa loja de departamentos de Nova York. A linha foi toda desenvolvida em algodão tinturado com medalhas, guizos e outros objetos.

Hoje, sem aposentadoria, morando em Magé, sua única fonte de renda é anual e vem da confecção de peças de Carnaval para escolas de samba graças a uma parceria com o coreógrafo Carlinhos de Jesus.

Ann Lowe

Diz a lenda que até mesmo Dior ficou impressionado com as habilidades de Ann Lowe, a primeira afro-americana a se tornar uma estilista com projeção internacional. Foi ela também a responsável por criar o vestido de noiva de Jackie Kennedy, um dos mais famosos da história. Entretanto, a ex-primeira dama nunca deu os devidos créditos à designer. Disse apenas que foi "uma mulher de cor" quem o fez.

Nascida em dezembro de 1898 na zona rural de Clayton, Alabama, a bisneta de uma mulher escravizada se tornou uma das estilistas de Nova York mais requisitadas de seu tempo, fazendo vestidos para gerações de Du Ponts e Rockefellers, por exemplo. O gosto pela costura foi herdado de família: sua mãe Janey e sua avó Georgia eram costureiras e lideravam uma confecção de roupas frequentadas por membros da alta sociedade. Quando sua mãe faleceu, Ann, então com 16 anos, assumiu os negócios da família.

Em 1917, a costureira saiu do Alabama e foi estudar em Nova York, na St. Taylor Design School, uma escola segregada em que Ann era obrigada a assistir às aulas em uma sala sozinha, separada dos colegas de curso. Mesmo assim, ela superou os outros alunos com seu talento e seus trabalhos se tornaram uma referência dentro da instituição.

Depois de se formar, em 1919, se mudou com sua filha para a Flórida e abriram uma loja de vestidos, que rapidamente se tornou um sucesso. Com faturamento nas alturas, elas conseguiram juntar 20 mil dólares e decidiram voltar para Nova York. Lá, a estilista passou a trabalhar para grandes lojas, como Bendels, Saks e Chez Sonia, mas decidiu abrir a sua própria e trabalhar de forma independente, já que nunca recebia créditos por suas criações. Em uma ocasião, ela desenhou o vestido que Olivia de Havilland usou para receber o Oscar de melhor atriz por Só resta uma lágrima (1946), mas o nome na etiqueta do vestido era de Sonia Rosenberg.

Goya Lopes

Goya Lopes nasceu em Salvador, no dia 7 de maio de 1954, é estilista, designer têxtil e artista plástica. Desde cedo, os pais a incentivaram e proporcionaram conhecimento sobre literatura, cinema, música e artes plásticas. Sua mãe a apoiou na decisão de estudar artes, embora preferisse que a filha fosse arquiteta.

Em 1986, lançou a sua grife de roupas, a Didara, que significa "bom" em iorubá. Já no ano seguinte ao lançamento, por causa do aumento expressivo das vendas, decidiu montar uma loja fixa no Pelourinho e, em 1988, passou a exportar suas peças para Itália e Estados Unidos.

Sua história na moda, contudo, começa um pouco antes, na década de 1970, quando Goya começa a estudar história na universidade. O curso não foi o suficiente e a jovem estudante decidiu, então, cursar artes plásticas na Universidade Federal da Bahia. Mais tarde, acabou se especializando na área na Universidade Internacional de Artes de Florença, onde também estudou litografia.

Foi nesse período que a baiana descobriu seu lado artístico e passou a pintar quadros que, logo depois, já não bastavam para dar vazão a sua criatividade. Com isso, suas telas se transformaram em tecidos de algodão, juta e popeline.

Nos anos 1980, Goya se mudou para São Paulo e atuou em projetos para a empresa Alpargatas, na linha Madrigal, com temas relacionados à cultura popular brasileira e nordestina. Seu objetivo sempre foi usar a estamparia como técnica para contar a história das relações entre o Brasil, especialmente a Bahia e a África.

Em 1993, ela recebeu o 7º Prêmio de Revestimento do Museu da Casa Brasileira e, hoje, é considerada uma das pioneiras na moda afro-brasileira graças ao seu processo criativo único, capaz de contar histórias que geram conexões por meio das roupas.

Zelda Wynn Valdes

Em 1948, Zelda Wynn Valdes, nascida Zelda Christian Barbour, em Chambersburg, EUA, se tornou a primeira estilista negra a abrir uma loja na Broadway, Nova York. Ela era adorada por estrelas como Josephine Baker, Ella Fitzgerald e Mae West.

Zelda cresceu em Charlotte, no estado da Carolina do Norte, e se formou como pianista clássica, ao mesmo tempo que nutria seu amor por moda, criando vestidos. Logo após se formar, se mudou para White Plains, Nova York, onde conseguiu um emprego em uma butique chique de alto padrão.

Sua carreira começou no auge da segregação de Jim Crow. Nessa época, as costureiras negras não eram valorizadas e recebiam pouca remuneração pelo trabalho. O título "designer" ou "costureiro" era normalmente reservado para homens brancos.

Suas criações eram caracterizadas por uma silhueta sexy, que acentuava a cintura e as curvas femininas. Ela transformou organza de seda, crepe, cetim e jérsei de malha em vestidos de noite justos e glamourosos, com enredados bordados à mão e lantejoulas. Com isso, conquistou o closet de grandes estrelas negras, como a consagrada cantora e atriz Joyce Bryant.

Em 1958, foi chamada por Hugh Hefner, o fundador da Playboy, para fazer o famoso traje original das coelhinhas da revista. Em 1970, Arthur Mitchell pediu a Zelda que desenhasse os figurinos de sua nova companhia, a Dance Theatre of Harlem. Ela fechou seu negócio em 1989, mas continuou a trabalhar no Dance Theatre of Harlem até sua morte em 2001, aos 97 anos.

Willi Smith

Willi Donnell Smith nasceu em 29 de fevereiro de 1948, na Filadélfia. Ele foi aluno da Mastbaum Technical High School e cursou ilustração de moda no Philadelphia Museum College of Art. Em 1965, recebeu duas bolsas para financiar seus estudos na Parsons School of Design, em Nova York, para onde se mudou. Lá, ele foi estagiário do costureiro Arnold Scaasi.

Contudo, em 1967, Willi deixou a faculdade e o trabalho para se dedicar à sua carreira solo. Ele buscou inspiração no que as pessoas usavam nas ruas e assim virou pioneiro no streetwear moderno. Sua marca, a WilliWear, se tornou extremamente valiosa, chegando a ser avaliada em 25 milhões de dólares antes de sua morte, em 1986.

Em sua etiqueta, o estilista começou com propostas ousadas e estilosas para mulheres e, logo depois, para homens. Os preços eram acessíveis e os tecidos quase todos de fibras naturais. Ao longo de sua trajetória, Willi se dedicou a quebrar barreiras de gênero, tamanho, raça e classe social. "Eu não desenho roupas para a rainha, mas para as pessoas que acenam para ela quando ela passa", disse ele.

Recentemente o Cooper Hewitt / Smithsonian Design Museum fez a curadoria de uma exposição chamada Willi Smith: street couture, para celebrar e, finalmente, reconhecer o pai do streetwear moderno.

Jay Jaxon

Nascido no Queens, em Nova York, em 1941, Eugene Jackson é o mais novo dos quatro filhos de Ethel Rena-Jackson e Sidney Jackson. De acordo com a historiadora de moda Rachel Fenderson, quando adolescente, ele foi morar com uma família nas proximidades de sua casa para ajudar no cuidado das crianças, enquanto frequentava o ensino médio. Lá, aprendeu a costurar e pegou gosto pela coisa.

Apaixonado por moda, ele criou sua própria marca e decidiu alterar seu nome para Jay Jason Jaxon, antes de se mudar para Paris. Lá, ele aprendeu com Yves Saint Laurent e Christian Dior. Em 1965, aos 24 anos, assumiu o comando da grife Jean Louis Scherrer e também colaborou com importantes coleções de Pierre Cardin.

Jaxon ultrapassou as fronteiras da cultura de um único país, levando seu olhar estadunidense para a França. Sua criatividade transformou a moda em termos de estética e funcionalidade, especializando-se em trajes largos e forrados.

Ao retornar aos EUA, ele já atendia celebridades como Thelma Houston e Diahann Carroll. Durante sua longa carreira, Jaxon também trabalhou para algumas produções de TV e criou os figurinos dos filme Mr. and mrs. Smith, The division, Angel, Ally McBeal e Sabrina: the teenage witch.

O estilista desenvolveu criações notáveis por cerca de 40 anos, sendo reconhecido por peças atemporais. Sua estética era consistente, com foco em peças clean e fluidas. Havia calças de modelagem ampla e jaquetas fáceis de usar, saias e vestidos cortados no viés. Embora expressassem simplicidade, suas roupas, mesmo as esportivas, eram extremamente sofisticadas e elaboradas.

Jaxon morreu de complicações de câncer de próstata em 19 de julho de 2006. Ele tinha 64 anos. Antes de sua morte, planejava lançar uma linha de vestidos plus size.

Patrick Kelly

Nascido no Mississippi, em 1954, Kelly foi apresentado ao mundo da moda por familiares que lhe mostravam revistas sobre o assunto. Sua trajetória, contudo, não foi linear e é repleta de altos e baixos. De vitrinista não remunerado em uma loja de Yves Saint Laurent, em Atlanta, a virar o primeiro membro americano da Chambre Syndicale du Prêt-à-Porter.

Paris amava o trabalho de Patrick. Ele conquistou a todos com seu talento para criar vestidos de jérsei em cores vivas e silhueta ajustada, adornados por botões e laços coloridos em homenagem ao estilo sofisticado das mulheres sulistas de sua infância. Os designs de Kelly eram conhecidos por sua exuberância, humor e referências à cultura pop e ao folclore negro.

Fora da Europa, Kelly vendia suas peças em lojas de departamentos como Bloomingdale's e Bergdorf Goodman, em Nova York, e tinha como clientes Grace Jones, Isabella Rossellini e Betty Davis.

Em 1989, Kelly estava no auge de seu sucesso. Porém, em agosto daquele ano, ficou doente, o que logo resultou no cancelamento de seus contratos. O estilista estava com aids, mas a esperança de sua recuperação parcial fez com que sua doença permanecesse em segredo até depois de sua morte. Ele morreu em 1 de janeiro de 1990 e foi enterrado na 50ª divisão do cemitério Père-Lachaise, em Paris.

Scott Barrie

Nascido na Filadélfia, em janeiro de 1946, como Nelson Clyde Barr, o estilista assumiu o nome de Scott Barrie quando iniciou sua carreira na moda.

Junto com Willi Smith e Stephen Burrows, ele foi um dos primeiros estilistas negros a deixar sua marca na moda estadunidense.

Barrie estudou brevemente no Philadelphia Museum College of Art, antes de se mudar para Nova York para estudar na Mayer School of Fashion. Trabalhou em vários empregos como freelancer ao longo dos anos 1960, mas tinha como seu maior mentor o lendário designer negro Arthur McGee.

Ele começou vendendo suas roupas para butiques independentes, mas logo passou a ser requisitado pela Bendel's e Bloomingdale's. Muitas lojas de departamento queriam seus vestidos de jérsei arrebatadores, sensuais e reveladores. Ele tinha a habilidade de cortar o tecido, bem como o chiffon, em designs luxuosos e modernos. Daí seu sucesso entre os consumidores mais jovens. Scott é um dos estilistas de ouro da era Studio 54, com desfiles que foram das passarelas às pistas de dança, marcando toda uma época.

Scott morreu em Alessandria, Itália, em junho de 1993, aos 47 anos, de um câncer no cérebro.