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Movimentos políticos

Dos clipes de tributo ao movimento #blacklivesmatter às aulas de zumba nas academias, a dança é sempre um ato político – mesmo que muitas vezes a gente nem perceba isso.

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Você certamente já experimentou essa sensação pelo menos uma vez na vida: na pista de dança — ou em estádios ou até na rua em um bloquinho de Carnaval —, a batida da música nos une e a multidão começa a se mover como um só organismo vivo. As pessoas ao lado, completamente desconhecidas, transformam-se em amigos de infância. E esse pessoal nem precisa falar português, porque os movimentos, os sorrisos, os olhares dialogam perfeitamente. Essa empatia também não depende de um talento nato para o balé clássico, a dança moderna, o jazz, o sapateado ou um gingado Globeleza. Os corpos, de alguma forma natural e espontânea, entendem-se e comunicam uma mesma intenção: seja curtir uma festa ou comemorar um campeonato, protestar contra algum partido, apoiar uma causa…

"Celebrado como um fenômeno eufórico, em algumas tradições espirituais essa experiência chega a se aproximar do divino", destaca Julia Bryan-Wilson, curadora adjunta de arte moderna e contemporânea do Museu de Arte de São Paulo (MASP). "Em vários sentidos, trata-se de política pura, no sentido de interagir com o outro, impactar e até transformar a sociedade", completa. Há dois anos, Julia, o curador Adriano Pedrosa e a curadora-assistente Olivia Ardui prepararam a mostra Histórias da Dança, com a proposta de revelar o potencial dessa arte de expressar a alegria, desejo e ira diante da opressão e da crise. Ao evidenciar a maneira como os corpos se movem juntos dentro de contextos políticos, históricos e econômicos específicos, a exposição representa a dança como forma de resistência exuberante.

A mostra estava marcada para estrear em outubro no MASP, mas o coronavírus acabou com a festa, e o material deverá ser exposto ao público na forma de um catálogo, além de um site, ainda em 2020. "Uma pena não apenas esta restrição, mas a gente precisar migrar para um mundo cheio de 'não pode', 'não faça'. Ao mesmo tempo, é curioso também observar como as pessoas interagem nesse cenário", diz Julia.

Trancada em seu apartamento na Califórnia desde a Quarta-Feira de Cinzas — quando fez sua última dança em 2020 —, a curadora adjunta colecionou "um mundo" de material. Por exemplo, no Vietnã, o coreógrafo Quang Dang dança no meio de uma rua deserta, ao som de uma música que fala sobre lavar as mãos. Uma equipe médica de Wuhan, na China, dança para entreter quem está em lockdown. O voguer Muryllo Hills, de quarentena em São Paulo, executa seu death drop usando um traje completo de proteção. "Meus vizinhos fazem festas de bairro estranhas em modo coronavírus, com pessoas dançando nas calçadas enquanto mantêm um espaço de segurança de pelo menos 1,80 m entre os participantes", conta Julia.

foto PB de mulher dancando

Getting off the ground (1978-1979), foto da coreógrafa e dançarina chilena Carmen Beuchat, que estará na mostra virtual Histórias da Dança, do Masp.

Cortesia Arquivo Carmen Beuchat

A ideia de Histórias da Dança surgiu quando a onda conservadora cresceu não só por aqui, mas no mundo, acirrando a polarização política. Época em que o coreógrafo Wagner Schwartz escandalizou o Movimento Brasil Livre (MBL) e afins ao se apresentar no Museu de Arte Moderna, em São Paulo, com La Bête. Porque estava nu em uma exposição aberta a todas as idades, muitos o acusaram de pedófilo. "Refletimos sobre esse e outros episódios que ocorreram no mesmo período, como o Queer Museum, mostra cancelada no Rio Grande do Sul com acusações de zoofilia e pedofilia; além das coreografias realizadas por manifestantes direitistas nas passeatas pró-impeachment. Então, pensamos sobre como os corpos, independentemente de partidos, expressam-se politicamente", diz Olivia.

A mostra virtual terá trabalhos, coreografias e histórias de mais de 150 artistas, e o mais curioso: não apenas ligados ao movimento corporal. Haverá peças icônicas, como a escultura "Bailarina de Catorze Anos" (1880), do impressionista Edgar Degas (1834-1917), obra que chocou a sociedade ao retratar a dançarina Marie van Goethem (1865-?), que, como muitas jovens da época, era de origem modesta e vislumbrava na dança uma possibilidade de ascensão social. Os contemporâneos de Degas reclamaram muito pelo artista ter jogado um holofote na crua realidade por trás do ideal de beleza e elegância feminina associado ao balé. A estátua chegou a ser chamada de vulgar, de feia e até comparada a um macaco.

"Há movimento político até na arte estática", ressalta a curadora adjunta do MASP. Exemplo mais radical, a obra "Balé neoconcreto", de Lygia Pape (1927-2004) e Reynaldo Jardim (1926-2011), deixou boquiaberta a plateia "diferenciada" do Teatro Copacabana Palace, no Rio de Janeiro, em 1958. Quando as cortinas se abriram, as pessoas perceberam que paralelepípedos laranjas e cilindros brancos substituíam bailarinos de carne e osso no palco. Mantendo momentaneamente a imobilidade, os blocos se moviam até formar uma nova composição, somente para depois se reposicionarem, seguindo a partitura de um poema visual de Jardim.

Poder pop

Essa "pista de dança" virtual de Histórias da Dança parece ainda mais vibrante ao retratar movimentos mais recentes, que guardamos na memória, mas muitas vezes nem nos damos conta de seu peso político. Por exemplo, a importância do voguing. A dança que ganhou fama mundial com Madonna em 1990 (sempre vale a pena ver de novo esse clipe maravilhoso), na verdade nasceu dentro da comunidade ballroom, um movimento cultural que tomou forma na década de 1960, no Harlem, nos Estados Unidos, como uma paródia subversiva dos padrões de comportamento e beleza heteronormativos (leia mais sobre a cultura ballroom na reportagem Strike a pose).

No clipe Apeshit (2018), Jay Z e Beyoncé "reinam" no Museu do Louvre, diante de obras icônicas como a Mona Lisa (1503-1506), de Leonardo da Vinci (1452-1519). Para as curadoras, o gesto de fechar o espaço de arte mais famoso do mundo, com todo o poder simbólico a ele associado, exclusivamente para filmar um ostensivo videoclipe, parece uma provocação à hegemonia branca que essa instituição ajudou a firmar e a difundir. "Nesse sentido, é importante lembrar também as novas coreografias populares, em especial as do movimento #blacklivesmatter, surgidas após o assassinato de George Floyd, que têm como características a ocupação do espaço público com gestos que sinalizam entre alegria e ódio", define Julia Bryan-Wilson.

O "combo" música e multidão pode ter efeitos imprevisíveis. Quem viveu na cidade de São Paulo na década de 1990, certamente ainda guarda na memória o show de Daniela Mercury no vão do MASP em 1992, quando a pulsação de 30 mil axezeiros causou um tremendo congestionamento na Avenida Paulista e ainda ameaçou a integridade estrutural do icônico prédio modernista de Lina Bo Bardi (1914-1992).

O artista baiano Pedro Marighella produziu um desenho perturbador para a exposição Histórias da Dança: justapõe o público obediente ao "tira o pé do chão" a uma imagem menor, na qual imagina o que poderia ter acontecido naquele dia se o show não tivesse sido interrompido pela Prefeitura de São Paulo. O que ocorre quando sincronizamos nossas ações para formar uma unidade poderosa? Que força, prazer ou caos poderia resultar disso?

A política está no corpo

"O corpo possui uma inteligência própria, algo extremamente poderoso e libertador", acredita Marina Guzzo, professora e artista na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), autora de diversos artigos sobre dança e política. "A política está no corpo, até por questões semânticas", ressalta. A palavra deriva do grego politikos, aquilo que é relativo ao cidadão ou ao Estado, e polites, cidadão.

Dessa forma, o simples fato de um grupo se reunir com um objetivo, com uma identidade, ao som de uma mesma música, reflete um ato político – mesmo que seja uma aula de zumba na academia para perder calorias com felicidade e um bom rebolado (#saudade).

Mulheres vestidas de branco na rua seguram molduras em frente ao rosto

Dançarinos da performance Arte é..., de Lorraine O'Grady, uma das imagens que estarão na mostra Histórias da Dança, no Masp.

© Lorraine O'Grady/Artists Rights Society (ARS), Nova York

A professora mergulha mais fundo ao relacionar movimentos, sociedade e governo. No texto Arte, Dança e Política(s), ilustra com palavras de uma série de filósofos e pensadores, em especial, os franceses Michel Foucault (1926-1984) e Gilles Deleuze (1925-1995). "A ação política da dança se dá no modo crítico de questionar o próprio fazer, práticas coletivas de pensar e agir como corpo que dança", escreve Marina.

Ela relaciona como figuras de fundo a política e a arte (não apenas a dança, mas qualquer uma). Qualquer manifestação artística tem como palco um cenário político, um determinado momento da História. "Se eu não puder dançar, não é minha revolução", já dizia a anarquista Emma Goldman, uma pedra no sapato do governo americano no início do século passado. O inverso também ocorre, como artistas que influenciaram a sociedade.

Nesses mais de 300 mil anos da humanidade, há incontáveis exemplos expressivos desse pas de deux de danças e dançarinos revolucionários. Algumas pinturas em cavernas ainda estampam alguns de nossos antepassados – Homo sapiens festivos – como uma expressão da sociedade já na pré-história. As festas juninas derivam de bailados milenares, tradição ensinada de geração em geração, para celebrar o início do verão europeu. A Igreja Católica se apoderou da festa pagã na Idade Média para homenagear São João.

O balé clássico, criado no século 15, é a cara da riqueza da Europa renascentista, com suas bailarinas coroadas que parecem vencer a lei da gravidade. Em compensação, os dançarinos desceram ao chão e passaram a rastejar com a radicalização da dança moderna americana, movimento que ocorreu bem na crise mundial de 1929. Como não pensar na destruição de Hiroshima e Nagasaki ao ver uma apresentação de corpos e rostos contorcidos no butô? E as mães chilenas na Cueca Sola, um mix de protesto e dança, em que, como pares, contracenam com retratos dos filhos, vítimas da ditadura militar da década de 1970?

Entre os bailarinos que criaram coreografias transformadoras e inesquecíveis, destacam-se a alemã Mary Wigman (1886-1973) – crítica dos movimentos engessados do balé clássico, valorizava as emoções dos bailarinos e criou a dança expressionista –, influenciando outra heroína dessa arte, a conterrânea Pina Bausch (1940-2009); o ucraniano Vaslav Nijinsky (1889-1950), que apresentou ao mundo a sensualidade masculina no balé O Fauno (1912); e a americana Isadora Duncan (1877-1927), precursora da dança moderna, que pregava a liberdade dos movimentos corporais, além de se autodeclarar ateia, bissexual e simpatizante comunista.

Dzi Croquettes e Stagium

"Brasil, esquentai vossos pandeiros/Iluminai os terreiros que nós queremos sambar", cantam Os Novos Baianos em "Brasil Pandeiro", letra de 1972. Mas também queremos fazer passinhos de funk, sertanejo, forró, frevo… Somos um país que se remexe muito. De acordo com dados do IBGE de 2012, a dança é a terceira principal atividade artística do país, praticada em 53,9% dos municípios. Só perde para os grupos musicais (60,3%) e para a manifestação tradicional popular (como os pesquisadores chamam o folclore que, aliás, muitas vezes se manifesta em bailados), com 55,1%.

E também possuímos um histórico riquíssimo de grupos de dança transformadores. Nos anos 1970, por exemplo, tivemos os irreverentes Dzi Croquettes, símbolo da contracultura daquela década. O grupo capitaneado pelo coreógrafo Lennie Dale (1934-1994) trazia homens vestidos de mulher, que se movimentavam com a virilidade masculina e a leveza feminina. "Não somos damas nem valetes, somos os Dzi Croquettes", cantavam nos palcos brasileiros e europeus, hasteando as bandeiras da sexualidade livre e de gêneros não binários em plena ditadura militar. Em 1976 – com apenas quatro anos de estrada e amado por personalidades como a atriz Liza Minelli e a cantora Josephine Baker (1906-1975) – os 13 integrantes se desentenderam por causa de um cenário em uma apresentação na Bahia, e o grupo se dissolveu. Outro fenômeno bem peculiar dos anos de chumbo foi o Teatro de Dança Galpão, grupo formado por 16 bailarinos instalados em uma salinha no Teatro Ruth Escobar, em São Paulo. Curiosamente, a turma antiditadura era financiada pelo governo do Estado de São Paulo na década de 1970. Logo no espetáculo de abertura, Caminhada, de 1974, a protagonista, interpretada por Ruth Rachou (hoje com 93 anos), usava uma máscara e visivelmente oprimia os demais colegas de cena. "Por não usar a linguagem oral, apenas a corporal, os censores não entendiam as mensagens e liberaram todos os espetáculos", explica Talita Bretas, idealizadora do Portal Mud, um museu virtual dedicado à arte. O grupo acabou em 1981, início da crise econômica da hiperinflação, por falta de dinheiro nos cofres públicos. No Brasil, não faltam bailarinos calejados que seguem a máxima "não desisto nunca". Em 2021, o Ballet Stagium completará cinco décadas de história. "Política e resistência é o nosso lema. Mas sem nos aliar a partidos. A arte é maior do que esses jogos e diz por si só", explica uma das fundadoras, a bailarina Marika Gidali, de 83 anos.

mulher de mascara vestida de preto subjuga bailarinos no chao.

Caminhada, de 1974: censores não entenderam as mensagens da linguagem corporal e liberam o espetáculo.

Foto Sebastião Sauirra/Museu da Dança

O grupo ganhou identidade em 1974, quando ela e o colega Décio Otero, hoje com 89 anos, toparam protagonizar o projeto Barca da Cultura, idealizado pelo mecenas carioca Paschoal Carlos Magno. No projeto, a trupe se apresentou em 57 cidades banhadas pelo Rio São Francisco.

"O pé queimava, a barcaça balançava e intervia na coreografia, mas a gente só se importava em interagir com o público. Dali, desenhamos o Stagium com o propósito de realizar espetáculos com as perguntas 'O que dançar?', 'Para quem dançar?' e 'Como dançar?'", diz Marika.

Sempre com temáticas bem brasileiras (já homenageou de Geraldo Vandré a Elis Regina), desde então, a bailarina e sua companhia várias vezes deixaram a sede nos Jardins, bairro nobre paulistano, para evoluir para plateias em palcos pouco usuais, como o Pantanal, o garimpo de Serra Pelada, presídios, escolas de samba, além de favelas e ambulatórios. Também possuem o projeto Joaninha, que ensina dança a crianças carentes em São Paulo.

Por causa do coronavírus, fecharam as portas em março, migraram suas aulas para o online e só reabriram a sede em agosto, ainda com o esquema de ensinar a distância. No grupo de risco, Marika aparece por lá duas vezes por semana. "Enfrentamos poucas e boas durante o período da ditadura… Mas, olha, esse cenário está um Deus nos acuda! É o nosso maior desafio. Já estava difícil por causa do pouco subsídio à arte nos últimos anos e agora, com essa pandemia... A coreografia para celebrar nossos 50 anos certamente vai retratar esse momento, mas com leveza", planeja.

Especialistas apontam como principal descompasso hoje em dia o "império do raso" no Brasil. "Padecemos da monocultura, ou seja, um pensamento que restringe e não admite ou tolera diversidade. No imaginário de grande parte da população, dança significa só o balé do Faustão, em movimentos sensuais, algo restrito para mulheres curvilíneas. Claro que é dança também, mas a arte vai além. E inclui outros tipos de gestos, gêneros, corpos… O governo brasileiro, ao não investir na educação e na consciência do corpo, torna sua população menos potente e consciente de seu poder", explica a professora da Unifesp Marina Guzzo.

Idealizadora do Portal Mud, a ex-bailarina Talita Bretas também sentiu os subsídios minguarem nos últimos dois anos. "Mas somos criativos e partimos para novas ações e parcerias", conta.

Especialmente na pandemia. Se em 2014, com a estreia da iniciativa, receberam uma saraivada de críticas na linha "não faz sentido uma plataforma virtual sobre uma arte essencialmente presencial", agora, esse ambiente se mostra vital. O Laboratório da Dança, com cursos online de diversas modalidades, tem aumentado o número de matrículas. Em março, o portal criou a mostra #danceemcasa, com vídeos de 15 a 60 segundos postados nas redes sociais com o pessoal dando seus pivôs e piruetas livremente no confinamento.

Talita diz que pelo material que recebeu – 3 mil posts de profissionais e amadores – dá para antever os próximos passos da arte aqui no Brasil. "Será lúdica, de entretenimento, mas também com ingredientes de resistência e militância. A dança do futuro deverá ser cada vez mais livre e democrática, com espaço para tudo e todos, independentemente de correntes e corpos", finaliza.