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O riso no divã

Como fazer rir quando não se está bem? Ouvimos Dani Calabresa, Yuri Marçal, Dadá Coelho e Felipe Fagundes Torres sobre o dia a dia do comediante e sobre fazer piada em plena pandemia.

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Esta reportagem não é engraçada, mas também não usaria a expressão "sem graça" para que você não desista da leitura já aqui, no primeiro parágrafo. Mas é um texto que, apesar de falar com humoristas e dar espaço a seus pensamentos e conflitos, não se presta a trazer comédia. É uma pena o que você lerá agora, mas humoristas são seres humanos e não estão à disposição do nosso riso 24 horas por dia, sete dias por semana. Eles também não são felizes o tempo todo. Dá para acreditar? Alguns – assim como boa parcela da população – sofrem com depressão, ansiedade e outros transtornos mentais. Mas, diferente de você ou de mim, eles são obrigados, às vezes por contrato, a trazer sorriso aos nossos pândegos rostos. Mas como fazer o outro sorrir quando não se está bem? Como levar alegria para alguém quando o sentimento é medo, raiva ou dor?

Há uma linha tênue entre a tragédia e a comédia. Momentos agudos como a pandemia que vivemos agora são muito férteis para a construção da piada, porque às vezes é melhor rir da catástrofe do que potencializar a dor que ela traz. Mas ela existe e muitos comediantes a internalizam de forma grave. Como o ator e comediante Robin Williams, que se suicidou em 2014, assim como Fausto Fanti, um dos criadores do humorístico Hermes & Renato.

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A lista de humoristas que sofrem ou sofreram de algum transtorno é grande e não vale aqui ficar elencando quem tem ou não depressão, ansiedade ou outras características, mas fica um alerta. Em 2014, um estudo da Universidade Oxford com 523 comediantes, 404 homens e 119 mulheres, revelou que o perfil de personalidade dos profissionais é pouco comum e bastante contraditório. Há um lado introvertido e depressivo e outro extrovertido e cheio de manias. A pesquisa conclui que a comédia talvez seja uma forma de lidar com a depressão. Mas tudo isso, claro, não se aplica a todos os humoristas e as análises psicológicas não podem ser generalizadas.

Há, porém, pontos em comum no dia a dia dos profissionais do riso, como você verá nos depoimentos de Dani Calabresa, Yuri Marçal, Felipe Fagundes Torres e Dadá Coelho. Ouvimos também Christian Dunker, psicanalista, escritor e professor do Instituto de Psicologia da USP, sobre o tema e suas repercussões.

Clique nas fotos para conferir os depoimentos.

Uma breve análise sobre o humor, por Christian Dunker

Depois de abrir o microfone para Dani Calabresa, Yuri Marçal, Dadá Coelho e Felipe Fagundes Torres, fomos buscar um pouco da teoria por trás do riso. Segundo Christian Dunker, psicanalista, escritor e professor do Instituto de Psicologia da USP, há uma pequena teoria psicanalítica sobre isso. "Você distingue o cômico do humor, propriamente dito." Dunker explica que o cômico implica em rir da desgraça alheia. Você não escorregou na casca de banana, nunca faria algo tão idiota. Você ri, no fundo, do fato de você não ser ele. "Mas o humor depende, não de duas, mas de três posições", acrescenta. "Depende de você entender a seguinte situação: quando você conta uma piada, ela tem que ter para mim um efeito de surpresa, de júbilo e ser concisa. Você conecta duas coisas que eu afasto e por seu intermédio eu consigo juntar duas coisas que eu sabia, mas jamais diria e você fala por mim, então eu rio."

Dunker continua. "Você me contou a piada e ela depende necessariamente da surpresa. Então, não posso chegar em casa e contar essa piada para o espelho, não funciona. O que tenho que fazer? Tenho que dividir essa piada que você me contou com uma terceira pessoa. E quando transmito essa piada e faço aquela pessoa rir, capturo um fragmento daquele meu riso inicial e daí eu rio de novo. Consigo fazer aquilo que com o espelho não é suficiente."

Agora, vamos imaginar um humorista profissional. Dunker explica que a pessoa que se especializa em transmitir a piada para um terceiro consegue capturar um sentimento de gozo, de satisfação, mas é só um fragmento, um revival daquele prazer inicial. "O humorista se aperfeiçoa nessa segunda parte e, portanto, ele vai desaprendendo a rir no primeiro riso". Por isso, explica o psicanalista, "é muito difícil você contar uma piada que vai fazer aquele humorista rir pra caramba. Eles são, fora de cena, em geral, meio mal-humorados, picantes, a não ser que queiram fazer graça com você".

Muitas vezes, para os humoristas, é como se o riso fosse uma ferramenta de trabalho que precisa ser guardada depois do expediente. Além desses conflitos pessoais, existe outra característica muito comum aos que nos fazem rir que é serem invadidos pela intromissão alheia, uma intimidade que o fã cria e se sente à vontade de externar diante de seu comediante. Dunker, que escreveu ao lado de Cláudio Thebas o livro O palhaço e o psicanalista: Como escutar os outros pode transformar vidas, explica. "Assim como existem brinquedos eróticos, existem brinquedos lúdicos. Ou pessoas lúdicas, que funcionam como brinquedos. E com o brinquedo você se dá a liberdade de pegar e mexer, de virar, de quebrar e de imaginar que ele está sempre ali a sua disposição, como um carrinho ou uma boneca, porque isso – a gente supõe – é o que ele gosta, para isso que ele foi feito. Isso, no fundo, não é uma intimidade, mas sim uma intrusão da privacidade."

Ele complementa: "Isso representa um rebaixamento de censura. A pessoa olha para o humorista e fala: 'Com você eu não tenho que ter censura, eu posso falar a verdade, posso ser autêntico, pegar em você e todos esses tipos de intrusão'".

Para terminar, o professor traz dois olhares para a comédia. "O humor, de fato, é um grande elemento de resiliência. Um antídoto para o Supereu, um treino para a gente conseguir se separar de si e não se levar tão a sério. A gente vai criando e, quando a gente ri, a gente se sente mais criativo, por isso uma piada leva a outra". Dunker completa: "No fundo, o humor é uma continuação de uma atividade infantil decisiva para a inteligência, para a sociabilidade, para o desejo, para a vinculação interpessoal que é a brincadeira. A criança brinca com o carrinho, com a boneca. E o adulto brinca com o humor e com a sexualidade. Então, quando alguém perde o humor, está numa situação de violência como essa, traumática, muitas vezes o humor funciona como uma espécie de proteção mesmo".