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Quando se trata do futuro, para onde o passado nos levará?

Nomes, tendências e momentos de décadas atrás renasceram graças ao TikTok. O resultado é uma nova economia de volta no tempo.

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Você deve se lembrar de quando, em 2019, Jennifer Lopez encerrou o desfile de verão da Versace usando um vestido transparente com estampa de selva. Ele era uma nova versão do que a artista usou para cruzar o tapete vermelho do Grammy, lá em 2000. Sob os holofotes da premiação, a peça impressionava porque parecia que se desintegraria, deixando seu corpo nu a qualquer momento. “Foi revelador sem revelar nada”, escreveu Robin Givhan, em crítica ao Washington Post, na época.

Quase duas décadas depois, Donatella Versace considerou apropriado resgatar a peça e sua musa. Os que acreditam na regra dos 20 anos – aquela que fala que esse é o tempo necessário para algo morrer e voltar à moda – poderiam afirmar com orgulho que previram o renascimento do icônico jungle dress.

Jennifer Lopez usando Versace no

Jennifer Lopez no Grammy 2000.

Getty Images

Jennifer Lopez e Donatella Versace posam no fim do desfile.

Versace, verão 2020.

Getty Images

Desde que Donatella assumiu a direção criativa da Versace, em 1997, a estilista se dedica a recuperar os símbolos, momentos e nomes que fizeram parte do legado de seu irmão, Gianni. Só neste ano, a marca celebrou a amizade entre seu fundador e Karl Lagerfeld em uma parceria com a Fendi, apresentou castings estrelados com as "supermodelos", que há 30 anos ajudaram a impulsionar a grife, relançou os óculos mais desejados da década de 1990, o Medusa Biggie, e por aí vai.

Ou seja, os resgates não são exatamente uma novidade para Versace nem para a moda como um todo. Acontece que, agora, o momento parece mais conveniente do que nunca.

Em março, a garota favorita dos anos 2000, Paris Hilton, estrelou a campanha de verão da Lanvin. Alguns meses depois, a Gucci relançou a sua clássica bolsa de alça de bambu, a favorita da princesa Diana durante os anos 1990. Na temporada de desfiles de setembro, as modelos da Chanel cruzaram uma passarela elevada entre rodopios e poses bem-humoradas, tal qual uma apresentação de três ou quatro décadas atrás.

É difícil que, nos últimos meses, alguém não tenha se deparado com alguma imagem antiga dos nomes citados acima ou outros. Antes mesmo de o movimento passar a ser chamado de economia da nostalgia, fotografias e vídeos antigos de Adriana Lima e Devon Aoki já haviam se tornado virais, assim como peças do arquivo de Vivienne Westwood e Jean Paul Gaultier.

O responsável por isso? Bom, seria redutor demais citar apenas um ou dois motivos, mas, entre as possibilidades, não se pode negar um em especial: o TikTok.

Adriana Lima posa em evento nos anos 2000.

Adriana Lima em evento da Victoria's Secret nos anos 2000.

Getty Images

Naomi Campbell desfila para Vivienne Westwood.

Viviennne Westwood, inverno 1994.

Getty Images

TikTok: vive no passado, mas define o futuro

Entre um emaranhado de vídeos rápidos e estranhamente fascinantes, o TikTok é o aplicativo mais baixado há quase dois anos e, a esse ponto, você já não deve ter tantas dúvidas sobre ele. Ou talvez ainda tenha. Mesmo já familiarizado, o público pode seguir com muitas perguntas não respondidas. É que a plataforma é radicalmente diferente de todas as que estávamos acostumados, assim como o seu algoritmo.

Aliás, o algoritmo... Quando se trata do TikTok, essa palavra é repetida com uma frequência ainda mais expressiva. O mecanismo de recomendação misterioso que tudo vê é o motivo do sucesso da rede. Digerindo de forma instantânea cada pausa, clique, deslize e compartilhamento, ele entrega porções personalizadas de vídeos de até três minutos com uma habilidade especial para congelar os seus olhos no celular por horas a fio. O tal algoritmo é bom no que faz, e é justo ele também que facilita o ressurgimento de flashbacks.

Lelê Burnier, que acumula quase 700 mil seguidores na rede, explica: “O TikTok é a vida real, onde tudo dá errado, onde o vídeo mais caseiro é o mais legal”. A influenciadora carioca acredita que é com esse trunfo que ele torna capaz de viralizar conteúdos que, até então, ficavam limitados apenas aos insiders – isso inclui os constantes trechos de desfiles e entrevistas de décadas atrás revividos por lá. “O aplicativo consegue deixar a moda mais palpável, mais perto, alcançando pessoas que não eram consumidoras desse tipo de conteúdo e permitindo que elas tenham conhecimento sobre moda”, comenta.

A hashtag #ArchiveFashion é prova disso. Com mais de 100 milhões de visualizações, ela reúne de tudo um pouco do que foi visto na moda durante a história recente. Seja assistindo ao vídeo de alguém costurando uma nova versão de uma peça icônica, seja dissecando o figurino de um seriado dos anos 2000, você certamente aprenderá algo ao se deparar, em sua página For You, com um TikTok que possua essa tag marcada.

Ironicamente, porém, a ascensão de tamanha nostalgia tem sido atribuída às mídias sociais ou ao seu uso excessivo. Segundo um estudo realizado por John Della Volpe, diretor de pesquisas do Instituto da Escola Kennedy de Harvard, mais da metade da geração Z (53%) acredita que a vida era melhor antes das redes. O dado é quase autoexplicativo: enquanto a juventude anseia desesperadamente por tempos mais lentos, ela busca uma forma saudável de escapismo em um mundo pré-digitalizado, antes que a internet assumisse o controle.

A ideia de fuga pode ser doentia? Às vezes, sim. Porém some a exaustão digital a uma pandemia, calamidade ambiental, crise econômica. Quem poderia culpá-la? Quando o presente é difícil demais de lidar, é mais fácil encontrar consolo no passado. É aí que o apelo nostálgico se estende por gerações. Não há quem escape das memórias inesperadas da infância ou juventude, do vislumbre de uma fotografia velha ou o fragmento de um hit esquecido. Relembrar dias felizes que não podem mais ser vividos é aquele prazer meio doce, meio amargo, mas que, ao contemplar uma afeição sentimental, nos torna humanos.

A moda traduz isso. Enquanto tentamos voltar a qualquer década para não viver a atual, as forças socioculturais de nossa história se infiltram nos guarda-roupas e psiques coletivos. E se o TikTok é onde a juventude define o tom para o que é considerado legal, é lá que isso deixa de ser uma tendência de nicho e se torna (quase) universal.

“A plataforma se tornou um lugar seguro para expressarmos nossos sentimentos”, comenta Mitcho Mezzomo. Esse gaúcho de 25 anos acumula 600 mil seguidores por lá. Os seus vídeos mais assistidos costumam ser comentando os tapetes vermelhos que, agora, assim como as ruas e redes, foram dominados por peças vintage. “É como se o passado estivesse encontrando uma vida nova. Nas mãos da galera do TikTok, compartilhar itens e nomes antigos nunca foi tão fácil. Eles reaparecem rapidamente e viralizam como algo reconfortante”, explica.

O Depop que o diga. Para quem não conhece, explicamos: é uma plataforma que permite que os usuários criem lojas online, comprando e revendendo roupas a um preço relativamente baixo. O seu foco, porém, acabou se tornando o mercado vintage. À medida que a pandemia interrompia os planos do varejo, o Depop conquistou a atenção da juventude, em grande parte graças ao TikTok. Com mais de 1 bilhão e meio de visualizações em sua hashtag no aplicativo, os usuários da empresa (90% dos quais têm menos de 26 anos) venderam mais de 1 bilhão de dólares em produtos antigos ou usados no último ano.

Entretanto, a economia da nostalgia não é sustentada apenas por quem deseja as versões originais de uma roupa histórica ou de época. Enquanto as marcas tradicionais revivem os seus produtos clássicos, as mais jovens buscam parceiros para evocar o espírito saudoso. Nesse jogo, tenha quem escolha demonstrar o seu poder contínuo, como um mito deslumbrante demais para ser esquecido. Já outras preferem realizar uma investigação do seu impacto, em vez de uma reverência vazia ao passado. O juízo de valor fica por sua conta.

Seja lá como for, temos muitos motivos para sentir saudades. Mas isso nos leva a olhar para trás a partir de uma lente um tanto distorcida. É fácil pensarmos em uma época na qual não vivemos e acreditarmos que, ali, naquele espaço-tempo, as coisas estavam seguras, quando, na verdade, não estavam. Ao ignorarmos as partes dolorosas da história, inventamos memórias idealizadas e, às vezes, até irreais. É a diferença entre nostalgia e saudade.

Fora das telas

Observe os anos 1990. Sim, eles foram um alívio profundo do exagero plástico e glamour luxuoso da década anterior. Era como uma espécie de limpeza cultural, um período de catarse. Nos vídeos revividos pelo TikTok, você irá se deparar com John Galliano, Tom Ford e Alexander McQueen. A imagem que fica, ao passear pelo aplicativo, é que aquele era o melhor momento para ser um designer jovem e talentoso. As possibilidades eram muitas, de fato, e ingressar em uma grande casa parecia emocionante.

Desde então, aprendemos bastante. Inclusive que a estrutura de conglomerados não é tudo o que, um dia, alguns pensaram que seria. Essa parte não será contada pela nostalgia midiática, mas cada um daqueles estilistas lutou contra sua carga de trabalho – e demônios interiores. Galliano foi demitido da Dior após um escândalo alimentado pelo vício e, de lá, saiu direto para uma clínica de reabilitação. Ford deixou a Gucci em uma disputa pelo controle da marca e depois lutou contra o alcoolismo. McQueen suicidou-se.

Look constru\u00eddo em diferentes tons de azul, durante um dos desfiles mais ic\u00f4nicos de Tom Ford para Gucci.

Gucci, inverno 1996.

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Uma modelo exibe um vestido longo sereia desenhado por John Galliano para Dior.

Dior, verão 1997 alta-costura.

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Sharlom Harlow durante o memor\u00e1vel ver\u00e3o 1999, de Alexander McQueen.

Alexander McQueen, verão 1999.

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Não que essas situações devam ser maiores do que os seus respectivos legados. De forma alguma. Porém fingir que não aconteceram, embora acalente a geração mais nova, pode ser perigoso.

Graças às mídias sociais, incluindo o TikTok, as oportunidades de exposição às imagens de moda de arquivo aumentaram significativamente. É provável que a nostalgia siga moldando a cultura e a economia por mais algum tempo, mas há uma armadilha aí. Enquanto coleciona scans da The Face e compartilha photo dumbs de Naomi Campbell no auge de seus 20 e poucos anos, não ignore o declínio daquele tempo. Caso contrário, em algum momento, os mesmos erros serão repetidos.

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2022 já está quase aí. Por qual outra modelo de décadas atrás o TikTok ficará obcecado? Qual fotógrafo de moda dos anos 1980, há muito tempo esquecido, voltará a fotografar campanhas e editoriais? Qual peça, criada originalmente pelo seu fundador, será relançada por uma grande casa? Quando se trata do futuro, para onde o passado nos levará? Seja lá qual for a resposta, estamos animados para descobrir. É importante lembrar, porém, que o escapismo oferecido pela nostalgia não passa de uma fantasia.