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Fotos: Divulgação
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Pedreiras de mão cheia

Mulheres estudam e ensinam técnicas de bioconstrução para erguer casas com materiais 100% naturais, e a partir do zero.

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Faltava pouco menos de um mês para a inauguração da CasaCor Minas Gerais, no ano passado. No auge da montagem do evento, um grupo de cinco mulheres se dirigiu ao Espaço (Com)Viver, dos arquitetos Assis Humberto e Marcus Vinícius, e se pôs a trabalhar – para o assombro geral. Munidas de um liquidificador gigante, bombonas, baldes e enormes colheres de pau, elas peneiraram terras de diferentes tonalidades e produziram, ali mesmo, o acabamento das paredes do ambiente, de forma que ficassem bem parecidas com as antigas estruturas de pau-a-pique. O liquidificador? Serviu para bater retalhos de drywall, previamente colocados de molho dentro das bombonas – transformado em uma espécie de papel machê, o material de descarte foi incorporado à terra para dar liga à massa. “A gente trabalhava cantando, espalhando reboco com as mãos, o que o pessoal da CasaCor não esperava ver. Eles enlouqueceram”, diz, se divertindo, a arquiteta Paula Peret, 36 anos, que liderou a equipe.

Fundadora da Bioarquitetar, empreendimento que ela apresenta como escola de construção de baixo impacto ambiental, Paula faz parte de um movimento que tomou corpo nos últimos anos: mulheres, centenas delas, das mais variadas origens, idades e formações profissionais, empenhadas em resgatar antigas técnicas de construção à base de elementos 100% naturais, como o pau-a-pique e o tijolo de adobe. Um trabalho que vai muito além da teoria – a paixão delas é literalmente botar a mão na massa. Agrupadas em aplicativos de mensagens, elas já são mais de 300, de profissionais experientes a estudantes. Mas também estão lá algumas curiosas, que se encantam pela ideia de construir a própria casa de terra e se aproximam para dar os primeiros passos no assunto.

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As arquitetas Nilce Pinho e Karen Ueda, durante a construção da Casa das Birutas.

Não faltam dúvidas. Pouco difundido no Brasil, o termo bioconstrução ainda é estigmatizado, associado a casas bem rústicas, mal-acabadas e pouco resistentes. Do Brasil Colônia para cá, porém, as técnicas construtivas evoluíram um bocado. O pau-a-pique, no qual uma estrutura de ripas trançadas é preenchida com barro, e os tijolos de adobe, moldados artesanalmente em fôrmas de madeira, continuam em uso, mas com acabamentos bem mais caprichados, sem as frestas que costumavam abrigar o temido inseto barbeiro. E há alternativas recentes de alta eficiência construtiva – como o hiperadobe, no qual o barro é compactado dentro de sacos compridos, empilhados para formar as paredes.

Até o aspecto das casas prontas mudou. Além dos projetos rústicos inspirados nas residências coloniais, de paredes irregulares e acabamentos alternativos, como garrafas de vidro, há os de visual contemporâneo. O reboco, afinado com polvilho, fica liso como cerâmica, e as tintas à base de terra permitem inúmeras variações de tonalidades terrosas, do branco, feito com terra argilosa, ao rosa, colorizado com beterraba. Com seu telhado curvo de bambu, a Casa das Birutas, projetada pelas arquitetas Nilce Pinho e Karen Ueda, do escritório paulistano Gera Brasil, não poderia ser mais cenográfica. O projeto faturou dois prêmios em 2019 – o Saint-Gobain de Arquitetura Sustentável e a menção honrosa do Prêmio de Arquitetura do Instituto Tomie Ohtake AkzoNobel – e foi selecionado para integrar o Guia IAB para a Agenda 2030, elaborado pelo Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB).

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A Casa das Birutas finalizada: projeto premiado do escritório Gera Brasil.

Por ser quase toda encontrada na natureza, a matéria-prima da bioconstrução costuma ser barata – em muitos casos, é usada a terra do próprio terreno. Já a mão de obra é o xis da questão. “O material é fabricado manualmente na obra, o que prolonga e encarece o serviço”, compara Paula. É aí que entra um dos principais pilares da atuação feminina na bioconstrução: mesmo as construtoras que vivem disso têm como princípio ensinar as técnicas ao maior número possível de pessoas. Da equipe que Paula levou à CasaCor Minas Gerais, três mulheres foram escolhidas entre as participantes do workshop sobre bioconstrução que ela conduziu no projeto social Arquitetura na Periferia, dedicado a ensinar técnicas de autoconstrução a mulheres de comunidades carentes da Grande Belo Horizonte.

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Entrar em um universo tradicionalmente dominado pelos homens nunca é fácil. Por isso, elas valorizam tanto o trabalho em grupo – foi assim que surgiu o coletivo Moçabarro, criado pela massoterapeuta Naiana Máximo, 33 anos, pela dançarina Paula Carneiro, 39, e pela psicóloga Priscila Bogéa, 42. Sem nenhuma experiência em construção, as três queriam erguer as próprias casas e se conheceram em 2018, em um curso. Hoje, trabalham juntas, se apresentam como pedreiras e já trabalham para clientes. “A intenção inicial do coletivo era unir a mulherada. Vimos que a gente poderia se ajudar, organizando ambientes onde nos sentíssemos mais à vontade, sem ouvir ‘isso é pesado para você’ ou ‘deixa que eu faço’. Hoje nossas equipes são prioritariamente formadas por mulheres. A gente precisa fortalecer e dar visibilidade à construção feminina”, afirma Paula.

Paula, Naiana e Priscila, do coletivo Moçabarro: pedreiras unidas.

Nos grupos de mensagens – um no WhatsApp, outro no Telegram –, os desabafos são comuns. “Parece um confessionário. Não são raros os casos em que um pedreiro se recusa a seguir as instruções de uma arquiteta e ainda diz ‘você não sabe como se faz’”, diz Nilce. A própria Paula Peret admite que já pensou em desistir algumas vezes e se escorou no apoio do grupo para continuar. “Mulheres sempre enfrentam desafios extras. Você está no canteiro de obras, explica ao pedreiro como fazer, vira as costas e ele faz tudo diferente. Mulheres, ao contrário, sabem colaborar e trabalhar no coletivo. A grande força que percebi nesse processo foi a união, pois entendemos nossas dificuldades e peitamos tudo juntas.”

O olhar feminino muda radicalmente até mesmo a realidade dos canteiros – não é raro que as bioconstrutoras levem os filhos junto para a obra. Especializada em alto-relevos artísticos e nômade por opção, a paulistana Laís Yumi, 27 anos, só aceita clientes que a recebam com o filho Dante, 4 anos. Delicado, executado em várias etapas, o trabalho dela exige tempo e dedicação – por isso, a dupla pode passar até um mês na obra. O material de construção 100% natural, livre de produtos químicos, permite que o garoto brinque à vontade e até ajude a mãe. “A bioconstrução não é insalubre. Dante vive no meio do barro e já sabe diferenciar o reboco grosso do fino”, conta ela.

Casa construída pelo coletivo Moçabarro.

O interesse pela bioconstrução teve um aumento na pandemia – muita gente trocando a cidade grande pela vida no campo, sonhando com moradias mais integradas ao meio ambiente. E, nesse quesito, as paredes à base de terra são imbatíveis. Como “respiram”, absorvem até 80% da umidade e ajudam a regular a temperatura, sem necessidade de ar-condicionado e sem traço de mofo. Até os móveis podem ser modelados de cob, uma das técnicas mais primitivas da bioconstrução.

O que falta, na opinião de Nilce, é que o assunto saia da esfera dos cursos independentes e entre de vez no currículo das faculdades de arquitetura. Interesse por parte dos alunos, ela garante, não falta. “Eu mesma já dei aulas em universidades brasileiras e fiz uma palestra sobre taipa de pilão, na Universidade de Coimbra, para um grupo de estudantes feministas. Só que os pedidos sempre partem da molecada. Se os jovens aprendessem regularmente sobre bioconstrução já no primeiro ano, veríamos muito mais casas de materiais naturais por aí.”