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Foto: Divulgação / Restaurante da Marlene
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Pratos de resistência

Depois de apresentar um mundo de sabores fora dos circuitos tradicionais paulistanos, o guia Prato Firmeza vai ganhar versão carioca. E compartilha aqui alguns achados da gastronomia popular do Rio e de São Paulo.

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Gougère, crêpe, sorbet, cassoulet. É provável que você já tenha ouvido sobre ou comido alguns desses pratos e, talvez, relacionado o cardápio a uma refeição sofisticada, com uma boa taça de vinho para acompanhar. E se o assunto for pão de queijo, tapioca, açaí e feijoada com uma cachacinha, a percepção muda?

Em ambos os casos estamos falando de gastronomia popular. Clássicos franceses e brasileiros, todos os pratos são repletos de técnica, história e fazem parte da cultura dos seus respectivos países. O que pode mudar é o valor que grupos dominantes dão a cada um deles, muitas vezes colocando tudo que foge a determinado modelo como "popular", e fazendo com que, de alguma forma no imaginário coletivo, exista a ideia de que um seja melhor que o outro.

Afinal, existe realmente uma alta gastronomia ou uma gastronomia "erudita"? É claro que o trabalho cuidadoso pela boa comida e pelo bom serviço, que proporcionam ótimas experiências, deve ser sempre valorizado, mas isso não significa que tudo que é vendido como "chique" seja de fato superior. Ou que a nossa cultura alimentar do dia a dia não esteja no mesmo patamar. E é isso que o Prato Firmeza – Guia gastronômico das quebradas de São Paulo tenta subverter desde o primeiro volume.

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Criado em 2011 pela Énois, laboratório que trabalha por um jornalismo mais diverso e representativo, o projeto surgiu com uma ideia simples: mapear os estabelecimentos do Capão Redondo, periferia da Zona Sul de São Paulo. Dez anos depois, o guia se tornou uma referência em extrapolar as barreiras sociogeográficas do Centro expandido e proporcionar um mergulho nas experiências, nos sabores e nas histórias que a gastronomia feita nas periferias – e as pessoas por trás dela – tem a oferecer.


Porção de camarão do Atlântida.Foto: Max Chagas


A lista é grande: já são mais de 180 empreendimentos, mapeados por mais de 50 jovens jornalistas de todos os cantos da capital e da Região Metropolitana. Tudo registrado em quatro livros impressos e uma websérie em parceria com a TV Folha, além de um podcast e um festival para discutir alimentação. Como resultado, alguns prêmios na conta, entre eles, o Prêmio São Paulo Capital Mundial da Gastronomia de 2018 e o sexto lugar na categoria de gastronomia do Prêmio Jabuti de 2017, e diversas parcerias, como o projeto do Prato Firmeza Preto, feito juntamente com a Feira Preta. Publicado em 2020, o trabalho foi produzido remotamente durante a pandemia, focando-se em negócios de pessoas negras e nos entregadores. Abrindo a caixa, também foi lançado um Guia Metodológico, que possibilita a qualquer pessoa mapear os estabelecimentos gastronômicos e outros pontos de interesse da sua região.

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E seguindo essa linha de expandir e compartilhar, o guia agora faz uma viagem interestadual para o vizinho carioca: Prato Firmeza – Rio de Janeiro chega em setembro e traz os melhores points das favelas do Jacarezinho e de Manguinhos, onde moram os jovens repórteres que produziram os textos. A equipe por trás dessa nova edição é formada pela galera do LabJaca, laboratório de jornalismo da favela do Jacarezinho, e do data_labe, de comunicadores da favela da Maré. O grupo passou por uma formação com a Énois, mapeou e registrou 20 estabelecimentos, entre botecos antigos, lanchonetes inspiradas em personagens de filme e barraquinhas de cachorro-quente de todo tipo.

Para dar um gostinho, enquanto o livro completo não chega, indicamos dez lugares, de São Paulo e do Rio, que mostram a diversidade que a gastronomia pode oferecer fora dos circuitos convencionais. É como dizem lá no Jacaré: "Tá melhor que Paris".


Churrasco misto do Bar do Encontro.Foto: Max Chagas


RIO DE JANEIRO

Atlântida

Criado pelo chef Vagner Luiz, o Atlântida inova ao trazer um cardápio especializado em peixes e frutos do mar por um preço camarada. Com pratos como fettuccine ao molho de tomate com camarão e rúcula e pargo frito com arroz de brócolis, farofa de camarão, vinagrete e batata frita, ele, que já teve experiências em restaurantes como Sal Gastronomia e Casa Camolese, agora traz delícias do fundo do oceano direto para o Jacarezinho.

Preço médio: R$ 40
Av. Guanabara, 121, Jacaré, tel. (21) 96720-7406. Quinta e sexta, das 16h às 23h; sábado e domingo, das 13h às 23h.

Bar do Encontro

A fachada com os dizeres "Reduto do samba do bairro" já entrega: o Bar do Encontro celebra a vida em comunidade, a boa comida e a boemia carioca, com samba de quinta a domingo com grupos da própria comunidade. Aberto pelo pernambucano Cledson Sales junto com sete irmãos, as raízes nordestinas se mostram fortes na especialidade da casa: o baião de dois.

Preço médio: R$ 50
R. Lino Teixeira, 263, Jacaré, tel. (21) 3593-0830. Todos os dias, das 9h à 1h.

Dona do Pedaço

A lanchonete se destaca pelos lanches "sem miséria". Mãe e filha, as donas do pedaço, Ivonete Araújo e Beatriz Soares, preparam, entre porções de pastel e batata frita, pratos que podem alimentar toda a família, como o Dogão de 30 cm ou o Brutus, um sanduíche de carne assada acompanhado de muçarela, presunto e calabresa, que é mesmo do tamanho de um prato.

Preço médio: R$ 20
R. Gregório de Sá, loja 1, Manguinhos. De terça a sábado, das 19h à 1h.

Point do Açaí

Em funcionamento desde 2014, o Point do Açaí já é a casa mais antiga de Manguinhos especializada na delícia cremosa paraense. Aqui, ela vem acompanhada de granola, leite em pó e amendoim e brilha junto com as frutas frescas, como morango, manga e kiwi. Outro destaque é o açaí com musse de maracujá, criação de Leandro de Paula, o dono do estabelecimento, que busca sempre inovar nas misturas. Em tempos de pandemia, o delivery para toda a Zona Norte é garantia de doce em qualquer lugar.

Preço médio: R$ 10
Estr. de Manguinhos, 436-470, Manguinhos, tel. (21) 96462-1512. Todos os dias, das 14h à 0h.

Ric's Original

Com mais de 20 anos de experiência na gastronomia japonesa, o chef Ricardo Lima oferece opções de sushis, sashimis e temakis, que chegam fresquinhos em qualquer canto da cidade. Se preferir comer por lá, o atendimento cuidadoso e o ambiente aconchegante tornam a experiência ainda mais agradável. Dependendo do dia, ainda é possível comer sob a luz do luar.

Preço médio: R$ 30
R. Dr. Luís Gregório de Sá, 3, Manguinhos, tel. (21) 96487-3013. De segunda a sábado, das 19h à 0h.

Baião de dois do Organicamente Rango.Foto: Divulgação


SÃO PAULO E ABC

Organicamente Rango

Comandado por Thiago Vinícius e Cleunice Maria de Paula, a Tia Nice, o restaurante oferece comida caseira e produtos orgânicos a um preço acessível, além de um espaço de discussões socioculturais que vão muito além da alimentação. Responsável pelo primeiro armazém de comida orgânica das periferias de São Paulo, Thiago entrou para os 50 Next, lista publicada em abril pela World's 50 Best, uma das mais importantes premiações internacionais da gastronomia, com 50 jovens que estão moldando o futuro do setor.

Preço médio: R$ 35
R. Batista Crespo, 105, Vila Pirajussara, São Paulo, tel. (11) 98593-8057. De segunda a sexta, das 12h às 15h; sábado, das 12h às 16h.

Pierry Delivery

Em São Bernardo do Campo, José Augusto de Oliveira, o Pierry, se inspirou nos tradicionais lanches de rua para criar sanduíches autorais que fazem sucesso em todo o ABC. Do seu trailer saem opções como o já clássico El Toro, que leva costela assada e fatiada, maionese defumada, alface-americana e creme de dois queijos, ou o Mariachi 2, com hambúrguer artesanal de soja, berinjela grelhada, alface, pepino e muçarela, com barbecue e maionese de manjericão.

Preço médio: R$ 25
R. Arcângelo Campanella, 54, Jardim Calux, São Bernardo do Campo, tel. (11) 96950-761. De quarta a domingo, das 18h às 23h.

Restaurante da Marlene

Aberto desde 1989, o restaurante familiar mostra que mesmo a comida caseira de todo dia pode estar repleta de sabor e valorização da cultura local. Localizado em Parelheiros, região que virou referência em produção de orgânicos na capital, o estabelecimento da chef Marlene Pereira traz pratos que valorizam ingredientes da Mata Atlântica, como o cambuci, fruto que entra na receita da costelinha com barbecue. Recentemente, a casa recebeu da prefeitura o Selo da Produção de Sampa, que valoriza os estabelecimentos que exercem um comércio justo e local.

Preço médio: R$ 25
Estr. Ecoturística de Parelheiros, 645, Parelheiros, São Paulo, tel. (11) 94182-8705. Todos os dias, das 11h30 às 15h.

Samambaia Bar e Lanches

Dizem por aí que, se o estabelecimento tem "boteco" no nome, ele provavelmente não vai se parecer muito com um boteco de verdade. Já com "bar e lanches" não tem erro, e é isto que o Samambaia oferece: uma homenagem à cultura de boteco tradicional paulistana. Com cerveja gelada e bons drinques, porções no pote de vidro em cima do balcão e discos de vinil convidam quem estiver na Zona Leste.

Preço médio: R$ 60
R. Maria Otília, 110, Vila Regente Feijó, São Paulo, tel. (11) 96977-5701. Quinta, das 18h às 23h; sexta, das 12h às 15h e das 18h às 23h; sábado, das 12h às 23h; domingo, das 10h às 19h.

Toya Vegan

Dentro de uma das várias galerias que compõem a paisagem do Centro de São Paulo, Selma Lopes prepara delícias livres de qualquer produto de origem animal, como feijoada, moqueca de palmito e lasanha de berinjela. Outro talento da dona Selma, como é conhecida, está nos doces. Seus bolos, sonhos, tortas e brigadeiros mostram as deliciosas possibilidades que uma comida sem crueldade pode oferecer.

Preço médio: R$ 25
R. da Consolação, 331, Consolação, São Paulo, tel. (11) 98214-7130. De domingo a sexta, das 12h às 16h.