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Raba é feita para brilhar

Ovacionando mulheres corajosas e inspirada no que há de mais popular no Brasil, a Ken-gá Bitchwear lembra que não existe nada mais interessante na moda do que se divertir.

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Foto: Léo Fagherazzi


De Bauru (SP), Lívia Barros, 35 anos, se mudou para a capital paulista, na metade dos anos 2000, com o objetivo de estudar moda. Janaína Azevedo, 47, já morava em São Paulo desde 1998, onde seguia a formação em medicina. As duas se conheceram no aniversário de um amigo, em 2006, e nunca mais se separaram. Atualmente, são casadas, mães de pets e, desde 8 de dezembro de 2016, da marca Ken-gá Bitchwear — elas guardam a data de estreia da label como uma certidão de nascimento.

Após o curso de estilo, Lívia não se aventurou pelo design. Ela foi trabalhar como produtora e figurinista de publicidade. Janaína, por sua vez, não tinha conexão alguma com moda. Fez especialização em ginecologia, obstetrícia, ultrassom, o que é seu ofício até hoje.

"Confesso que não sei como fiquei tanto tempo sem criar, porque é esse o meu lugar", diz Lívia. Janaína se vê mais como apoiadora, sócia e braço direito da parceira no empreendimento. Mas, na verdade, é tão mãe quanto. Quem segue a marca nas redes sociais sabe de seu papel fundamental na comunicação. É ela a dona dos vídeos-memes característicos da Ken-gá, como o abaixo, feito especialmente para a ELLE:

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Quenga, bitch, vadia, biscate…

A Ken-gá nasceu da vontade de Lívia em ter um maiô dourado com o qual pudesse entrar na água. "Com o lamê não pode, e fiquei pesquisando até achar uma folha metalizada que desse pra aplicar na láicra e molhar", lembra. O experimento, contudo, serviu de faísca para algo muito maior. No caso, a criação e produção de acessórios diferentões, difíceis de achar em tamanhos acessíveis e que não fossem caros. Um desejo antigo, porém adormecido. O fato de a estilista nunca ter pisado em uma equipe de estilo de uma marca convencional também serviu como combustível. Afinal, todos os itens que a estilista queria podiam formar uma marca cheia de liberdade.

O negócio ganhou corpo no final de 2016 por meio de um desfile. "A liberdade é legal, mas quis incorporar qualidade nessa moda diferentona", explica Lívia. O show aconteceu no extinto bar Lourdes, no centro de São Paulo. A coleção foi apelidada de Bolero Boreal e tinha, além do maiô dourado, muitos itens de veludo molhado. A imagem parecia a de uma Barbarella prontinha para um fervo paulistano e os insiders que compareceram ao evento compraram na hora aquele prazer debochado.


A drag queen Bianca Dellafancy no desfile de inverno 2019 da Ken-gá Foto: Agência Fotosite

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O drama todo expandia a seara inicial do beachwear rumo às vontades por looks emblemáticos para a noite, tipo um bolerinho e um macacão. Na sequência, veio o Carnaval de 2017, e uma peça desse desfile de estreia já prometia ser hit. A dupla, contudo, não imaginava o quanto.

Com a vontade de colocar mensagens escritas em brincos, as duas decidiram moldar uma peça para as orelhas com o escrito "Sai, machista!". O acessório viralizou entre as guerreiras dos bloquinhos. Havia ainda os brincos "Fora, Temer", "Gorda", "Preta" e "Travesti". Muita gente usou apenas Ken-gá da sexta de Carnaval à Quarta-feira de Cinzas. "E rolou uma série de imitações, o que a gente amou. Uma gay fez um brinco de papelão escrito 'Bicha'. Foi sensacional, porque teve muita adesão", conta Janaína.



O holofote foi tanto que as redes sociais da grife foram infestadas por conservadores recalcados e seus xingamentos. Mas pelas DMs também chegaram a funkeira Valesca Popozuda querendo um brinquinho para chamar de seu, Pitty, que ostentou a peça no programa Saia Justa, no GNT, e Liniker, que usou o acessório em seu show no Rock in Rio. E teve ainda Adriane Galisteu, Gretchen, Nanda Costa, Assucena Assucena e Raquel Virgínia, d'As Bahias e a Cozinha Mineira, só para citar algumas. "Vendemos mais de 500 brincos em uma noite só", relembra a dupla. "Agora só faltam Rihanna, Lizzo e Joelma", elas brincam.

De acordo com Lívia e Janaína, a alma da Ken-gá é exatamente o deboche e a subversão. "A gente se questiona desde o começo sobre o que é ser uma mulher livre na sociedade. Fazer um maiô dourado não é uma peruíce qualquer. Quando uma mulher se sente livre, ela não está nem aí se vai chamar a atenção, porque está segura e poderosa com o que quer."


Foto: Reprodução

Ela não anda, ela desfila

Desde 2018, a etiqueta desfila na Casa de Criadores com uma série de apresentações que saúdam a coragem das mulheres. O primeiro desfile no evento foi o Tundra Tântrica, com referências à grandiosa Elke Maravilha. Depois, veio o Heras Venenosas, no qual apresentaram outra característica forte da marca: a relação com os memes. O desfile seguinte foi o Boleia Mística, exaltando Afrodite, uma caminhoneira trans e sua história.


Da esquerda para a direita, Janaína Azevedo, Afrodite e Lívia Barros no desfile de verão 2020 da marca. Foto: Agência Fotosite


Já no final do ano passado, foi dado início a uma trilogia com duas apresentações digitais e, a depender da evolução da vacinação e da pandemia, um grande desfile presencial. A primeira parte foi uma ode ao Brás, centro de comércio popular paulistano, além de outros momentinhos de Brasil profundo – que geral chama de brega e elas amam, como os Barões da Pisadinha. A segunda e mais recente se infiltrou na estética dos paredões, os metros e metros de caixa de som que fazem a maioria das festas de periferias das grandes cidades. E o grand finale, se tudo der certo, será com a coleção MPB, Moda Popular Brasileira.

Enquanto isso, nos meses de setembro e outubro, a Ken-gá planeja ainda uma coleção cápsula, a Memewear. Nela, um "toile de self" fará as vezes de um "toile de jouy", com os desenhos bucólicos clássicos do tecido dando lugar a imagens da memesfera. Mais do que isso, por enquanto, não podemos revelar.


Close na estampa "toile de self", criada pela primeira vez na coleção de inverno 2019.Foto: Agência Fotosite


Lívia e Janaína brincam que, no começo de tudo, a escolha do nome da marca foi apontada com uma data de validade. Muita gente não acreditava que o negócio vingaria ou iria para a frente com o apelido engraçadinho. Dificilmente sairia em uma revista de moda. "Da nossa vivência em cidade pequena, sabemos que, quando uma mulher faz qualquer coisa minimamente diferente do que o esperado, ela é chamada de quenga, puta, vadia, biscate. A gente acredita que essa mulher só é xingada porque ela é corajosa e faz o que quer sem se importar com a opinião alheia. E é demais quando você é valorizado pelo que realmente é", conta a dupla.