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Mente quieta, espinha ereta e o coração tranquilo

A depender do atual cenário, o ritual de pular sete ondinhas não vai ser suficiente para aguentar 2021. Conversamos com quatro mulheres que ajudam as pessoas a descobrir novas formas de conexão com a espiritualidade e consigo mesmas.

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Em algum momento deste ano, você se perguntou como manter a tranquilidade nesse cenário quase apocalíptico? Achou que sua cabeça iria explodir? Pediu uma resposta aos céus? Bom, você não está só. Alguns números para dar a dimensão do estado de nervos mundial: em relação ao ano passado, houve o acréscimo de 3.250% na busca por "como ser uma pessoa mais calma" no Google. "Como fazer meditação para ansiedade" registrou o crescimento de 4.000% e "espairecer a mente" subiu 400% nas buscas.

Durante a quarentena, muitas pessoas tiveram que aprender a lidar com seu próprio "eu". O isolamento social, somado à incerteza em relação ao futuro, gerou anseios e dúvidas sobre tudo: amor, amizade, trabalho, família. E, em busca de respostas, muita gente procurou caminhos na espiritualidade e em novas formas de autoconhecimento, do zen-budismo às religiões de matrizes africanas, passando pela astrologia, pelo tarô e pela numerologia.

Pensando nisso, conversamos com quatro mulheres que, de diferentes maneiras, ajudam as pessoas a entrar em contato com a própria espiritualidade. A seguir, Pamela Ribeiro, Tati Lisbon, Ìyálorisa OmiLade e a Monja Coen falam sobre rituais e pensamentos que podem ajudar não apenas neste momento de pandemia ou na virada do ano, mas na vida inteira.

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Yemojazz

Para os iorubás, a escolha do nome é um rito de passagem. Janaína Teodoro, 40 anos, paulistana, agora é Ìyálorisa OmiLade. Sacerdotisa, pedagoga, poeta e estudante de direito, ela é a criadora do perfil @yemojazz no Instagram, em que compartilha a sabedoria iorubá e também seus pensamentos. Um ponto importante para entender seu trabalho é conhecer o conceito de Ori. A sacerdotisa explica que Ori seria a cabeça espiritual, ou nosso orixá individual: "Você tem que estar em conexão com a sua consciência e a sua cabeça espiritual para que as coisas aconteçam de fato. Então, o espaço Yemojazz vai falar sobre como se conquista esse equilíbrio, como entender o bom caráter, a partir da vivência Iorubá".

O culto ao Ori, diz OmiLade, envolve rituais muito simples, como erguer a cabeça em direção ao leste, onde nasce o Sol, ao acordar, e tirar dez minutos do dia para se concentrar e colocar pensamentos positivos no Ori. "São esses momentos que a gente tira para a gente, para buscar nossa própria força, os verdadeiros rituais", resume. "Para mim, a oração ao Ori é uma meditação. É um momento que eu tiro para mim e não converso com ninguém. Eu me levanto, lavo minha boca e vou ao sol, porque é no Sol que eu quero me espelhar." Cuidar de si, explica ela, também é um ritual: "O cuidado ritualístico de um Ori é amplo. É acordar e dormir fazendo coisas que possam proporcionar a você uma saúde perfeita".

Monja Coen

Todos os anos, de 1 a 8 de dezembro, a Monja Coen fica reclusa em um retiro de silêncio. "Ficar em silêncio, para algumas pessoas, é muito difícil, muito doloroso. Eu acho muito bom, vai me dando outro nível de consciência", relata a monja, uma das grandes divulgadoras da filosofia zen-budista no Brasil, autora de best-sellers como A sabedoria da transformação e O que aprendi com o silêncio. "Percebo que, quando a gente fica mais tempo em silêncio, nessa introspecção, nós temos mais energia vital e nos sentimos melhor. É menos dispersão da mente. Você começa a ouvir os pássaros, ver o movimento das folhas no vento. Sua percepção da realidade fica modificada, fica sutil, mais delicada."

O período de pandemia e isolamento, avalia a monja, deixou todos os sentimentos à flor da pele: alegria, tristeza, raiva, impaciência. "Então, eu acho que é um tempo rico para a auto-observação. Em mim habitam todas as possibilidades humanas de resposta à realidade. Quando eu tiver que fazer escolhas, será que eu vou responder com brabeza, com raiva, vou bater a porta? Ou eu vou respirar e dar uma resposta mais adequada?", questiona. Puxar o ar pelas narinas, endireitando as costas, e expirar devagar pela boca, abrindo a glote e emitindo um som, é um recurso ótimo para nos pôr no eixo, ensina.

Para ela, o hábito da meditação e a liturgia da oração também são essenciais para estabelecer esse eixo de equilíbrio. "Porque é fácil a gente ser puxado para fora ou para o lado", diz.

Em relação à angústia que tomou conta de tantas pessoas neste ano, a monja identifica dois sentimentos comuns: a ansiedade pelo que virá e a nostalgia pelo que foi. O conselho dela? Não se prender ao passado nem sofrer pelo futuro: "Tem que deixar esses dois de lado e estar presente".

Bruxa Preta

Terapeuta reikiana e oraculista, Pamela Ribeiro, 27 anos, fala de uma perspectiva preta e periférica sobre espiritualidade, autoconhecimento e bruxaria em seu perfil @abruxapreta, no Instagram.

Para Bruxa, o significado dos rituais de passagem passam pelo reconhecimento, pela autoidentificação e pela conexão com a ancestralidade. Diz que é preciso entender que os seres são cíclicos, com seus altos e baixos, errando e acertando dentro do possível, para que possamos ser melhores – para nós e para o mundo. "Calma com os seus passos e trajeto, evite comparações. O seu trilhar não é melhor nem pior do que o de ninguém. Estamos aqui de fato para aprender e experienciar", aconselha Bruxa. Ela indica também um belo banho energético: "Eles dão uma levantada na gente, harmonizam e equilibram nosso emocional. Invista no alecrim, no manjericão e na hortelã para isso!"

Papisa

Astróloga, taróloga, numeróloga e DJ, Tati Lisbon, conhecida como Papisa, tem 28 anos, estuda astrologia desde os 12 e há quatro anos faz isso profissionalmente. Ela avisa, no entanto, que não dá soluções, apenas procura facilitar a jornada de outras pessoas. "O meu propósito não é trazer a verdade ou qualquer outra coisa do tipo. Eu não trago respostas", diz. Para Papisa, os rituais são como uma cartinha de desejo para o universo. "Às vezes, num ritual, você encontra naqueles gestos, naquela técnica, uma maneira de formalizar aquilo que deseja e jogar para o universo." O que não quer dizer, avisa ela, que o universo vá atender a esses pedidos. "Tudo em nossa vida está em constante transformação. Então, quando a gente joga algo para o universo, às vezes não vem como a gente gostaria, e nem sempre a gente gosta da resposta. Mas sempre tem uma resposta, nem que seja um não."