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Ilustra-se um amanhã

É hora de pensar como as imagens de moda contribuem para a construção de uma nova narrativa de representação social. Derrubar práticas do passado e considerar uma produção mais afetiva é um bom começo.

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Michel Foucault disse que a modernidade se caracterizou pela perda da harmonia entre as palavras e as coisas. Seguindo esse pensamento, podemos dizer também que, em tempos internéticos como o que vivemos, as imagens de moda perderam contato com a realidade. Exemplo disso é o que não falta.

Meses atrás, quando quarentenas e lockdowns começaram a ser decretados, não foram poucas as produções imagéticas em total descompasso com a gravidade da situação. De capas de revistas a posts insensíveis no Instagram, foi preciso toda uma avalanche de comentários nas redes sociais para que seus autores entendessem, de uma vez por todas, o velho clichê de que uma imagem vale mais do que mil palavras.

No início de junho, os protestos antirracistas que seguiram a morte de George Floyd intensificaram o tratamento de choque pelo qual passa a produção de imagem – a de moda principalmente. Da denúncia de conteúdos oportunistas e falsamente comprometidos com a causa negra até os registros de lojas vandalizadas durante as manifestações.

No SoHo, em Nova York, um dos maiores centros comerciais do planeta, se lia "vivendo no inferno", na vitrine da Chanel; "Fuck the police", na Hermès; "Não podemos ser silenciados", na Gucci; e "Faça a América pagar pelos crimes contra os negros", na Alexander McQueen. Lojas de todo o varejo foram vandalizadas e essas imagens divulgadas globalmente via redes sociais. As roupas caídas e as frases de protesto contrastam com as imagens imaculadas sobre as quais a moda se construiu ao longo do tempo.

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Imagens de fachadas e vitrines ap\u00f3s os protestos por justi\u00e7a racial nos EUA.

Imagens de fachadas e vitrines após os protestos por justiça racial nos EUA.

Vivemos um presente virtual em que tudo está à venda e a qualquer custo, inclusive o nosso próprio sofrimento – capitalizável via imagens com fundo rosa-millennial. É a lógica da pessoa-empresa, aquela que transforma amizade em network, bolhas sociais em target de mercado e dá novo sentido ao contágio positivo.

Inerente ao modelo neoliberal, o contágio positivo sugere laços e intimidade a partir de construções hiperidentitárias e horizontais. São bolhas de avizinhamento e exclusão que geram uma sensação de acesso facilitado ao sucesso. Como se estar próximo a pessoas bem-sucedidas significasse mais chances de alcançar aquele lugar tão desejado no mercado. O famoso interesse, aqui disfarçado de amizades virtuais contabilizadas em likes, tags e marcações em fotos.

A figura do influencer e sua lógica de contato positivo.

Contudo, a interrupção do contato social causada pela pandemia da Covid-19 desestabilizou esse modelo. Como resposta rápida, narradores e gurus da internet anunciaram um novo mundo. Como se a chegada do novo coronavírus fosse uma nova trend ou uma nova marca. E vamos de máscaras grifadas, volta da estética countryside, técnicas de meditação, empatia, afeto e o hype dos pijamas. No entanto, a previsão que seguia exatamente o mesmo padrão de antes (preservando privilégios e reforçando colonialismos) não se concretizou, e a temporada apresentou uma coleção que não deu certo.

Falhou, pois a realidade está tão caótica que ilusões estéticas não se sustentam mais. Isso fica nítido na maioria das práticas de mercado, em quase todas as lives e no grande acúmulo de e-mail marketing com descontos mil. Como escreveu Adorno, em 1946, tudo aquilo que chegou a ser bom e decente — a independência, a persistência, a previsão e a prudência — está corrompido. Se pensarmos na aparência em sua forma mais radical, ela se dá em não passar nenhum sinal errado. Mais vale a impressão que se deseja passar do que qualquer outra coisa. Essa é a regra básica da imagem de mercado e, por consequência, da imagem de moda.

Realidades e pessoas presentes

Em Traços Humanos nas Superfícies do Mundo, Judith Butler escreve: "Se não sabíamos o quão importantes eram os objetos no vínculo de um ser humano com outro, provavelmente o sabemos agora. A produção, a reprodução e o consumo de bens carregam agora o risco de comunicar o vírus. Uma encomenda é deixada na porta de casa, os traços do outro que a deixou ali são invisíveis. Ao pegá-la e trazê-la para dentro, se faz o contato com esse traço e com muitos outros que não se sabe. [...] Embora a inter-relação com todas essas pessoas não seja visível, essa invisibilidade não nega sua realidade."

Citação de Judith Butler.

Vírus, como citado por Butler, não é só o SARS-CoV-2. Pode ser também práticas e visões engessadas em padrões problemáticos do passado. É a produção e reprodução de imagens pautadas por valores desconectados com o atual contexto de mundo.

Em 2018, a Prada se viu em meio a uma grande polêmica envolvendo suas vitrines e alguns produtos considerados racistas. No ano seguinte, a Gucci lançou um suéter-balaclava que foi denunciado por fazer alusão ao blackface. Ambas as marcas se desculparam rapidamente pelo fato e retiraram as mercadorias de circulação. Porém, ficava evidente ali um tipo de alienação criativa. A insensibilidade em relação a pessoas racializadas e as violências que sofrem é só um dos exemplos envolvidos nas estruturas e sistema da criação de moda.

Em Mission Accomplished: Belanciege, a artista alemã Hito Steyerl questiona como as roupas populares reinterpretadas pela Balenciaga chegam aos corpos do 1% da sociedade, excluindo quem de fato inspirou aquelas peças. É aquela roupa de infância mal ajustada, passada de um irmão para o outro, mas que ganha destaque com um styling higienizado e passa a valer milhares de euros com uma etiqueta grifada.

Colagem com trecho do livro Mission Accomplished: Belanciege, de Hito Steyerl.

Após os episódios já citados, a Prada criou um comitê de diversidade dirigido pelo escultor Theaster Gates e pela cineasta Ava Duvernay, hospedando a exposição The Black Image Corporation, do diretor de cinema Spike Lee, na Fondazione Prada, em Milão. A Gucci, além de campanhas com casting 100% negro e belezas fora do padrão, deu início a uma potente política interno de inclusão e diversidade e reforçou ações de cunho social. Hoje, o site Gucci Equilibrium funciona como plataforma de comunicação para as muitas frentes de mudança positiva encabeçadas pela grife italiana – do apoio à visibilidade e à causa trans à questão dos refugiados e da sustentabilidade ambiental.

E aqui cabe uma outra interpretação sobre o vírus mencionado por Butler e suas formas de contágio. No caso, um contágio benéfico e transformador, responsável por derrubar velhos paradigmas e permitir a construção de algo novo.

Membros de uma nova geração de criadores, estilistas como Kerby Jean-Raymond e Telfar Clements são alguns dos responsáveis por repensar as barreiras entre imagem e realidade. À frente da Pyer Moss, Jean-Raymond transformou seus desfiles em grandes eventos midiáticos. O primeiro deles em tal formato foi a apresentação memorável de 2015, com um vídeo de 12 minutos sobre os abusos e assassinatos sofridos pela comunidade negra. Na passarela, botas brancas com pinturas de sangue escorrendo e o nome de pessoas mortas pela polícia faziam a conexão entre meio e mensagem. Mais recentemente, na coleção de verão 2020, a marca bordou e estampou frases como "vocês nos veem?" e "vote ou morra, de verdade agora" em suas peças.

Por meio de suas campanhas e desfiles, Telfar Clemens é responsável por trazer uma nova imagem da comunidade queer e negra de Nova York. Sua narrativa, contudo, extrapola a estética. Com preços mais acessíveis, ele propõe certa inversão de valores no sistema de moda. Sua icônica Shopping Bag, nos tamanhos P, M e G, foi considerada pelo site The Business of Fashion a "Birkin do Brooklyn". Em outras palavras, a verdadeira it bag.

Nas laterais, looks de Vicenta Perrotta; ao centro, look Pyer Moss.

No Brasil, nomes como Vicenta Perrotta, Gustavo Silvestre e Isaac Silva são expoentes de imagens e produtos alinhados às novas narrativas visuais da moda.

Com desfile de corpas e modelos diversos, Perrotta é um dos principais representantes da causa trans nas passarelas nacionais. Com o Projeto Ponto Firme, Silvestre cria, em conjunto com detentos, coleções a partir de aulas de crochê dentro da Penitenciária Desembargador Adriano Marrey, em Guarulhos. Silva faz uma moda que reverencia histórias negras deixadas de lado pela construção social recente.

Stylists e fotógrafos, como a editora de moda de ELLE Suyane Ynaya, Karla Brights, Caroline Lima, Helen Salomão, os irmãos MAR+VIN, entre outros, vêm mostrando maneiras mais inclusivas de se criar imagens de moda, nas quais a representatividade se dá também por quem faz essas imagens, furando bolhas.

Contato também tem a ver com isso: aproximar pessoas antes separadas, mas que hoje olham para o mesmo horizonte. O que existe além dele ninguém sabe, mas todos esperamos ser melhor.