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Virtualizo, logo existo?

Elas colecionam capas de revista, campanhas para marcas de luxo, turnês internacionais e singles no YouTube. Conheça as avatares virtuais que conquistaram fama e acumulam polêmicas nas redes sociais.

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Você pode até dizer que elas não são reais. Mas a limitação de uma existência física nunca foi impedimento para que as influencers e modelos criadas por computação gráfica se tornassem uma sensação na internet ao longo dos últimos tempos. Em meio a uma overdose de compartilhamentos e lives durante a pandemia, elas ganharam espaço com sua incrível capacidade de estar presente em qualquer lugar — enquanto boa parte de nós ainda continua dentro de casa.

Mas não é de hoje que essas simulações circulam e postam selfies por aí. Desde o começo da década de 2000, já é possível encontrar bons representantes desse movimento, sejam eles conectados a grandes marcas e projetos publicitários, sejam interfaces para atendimento, instalações artísticas ou até mesmo por pura diversão. Separamos aqui uma lista vip com as personas do momento:

Miquela

Em 2016, muita gente especulou quando o perfil misterioso de Miquela Sousa apareceu no Instagram. Enquanto os usuários quebravam a cabeça para descobrir quem (ou que) era ela, a história foi parar nos holofotes da mídia depois que a conta foi invadida e as fotos, apagadas, como uma ameaça para que ela revelasse sua identidade. Quando a conta finalmente foi recuperada, Miquela fez uma postagem e contou o que muita gente já esperava: ela não era humana.

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A cena, que parece ter saído de um episódio de Black Mirror, na verdade não passou de uma ação da Brud, empresa de Los Angeles que se descreve como "um estúdio transmídia que cria universos e histórias guiados por personagens digitais". A "hacker" que invadiu a conta era Bermuda, também uma personagem digital (leia mais sobre ela nesta reportagem), criada pela mesma empresa de Miquela.

Autoproclamada robô, Miquela, que nasceu em Downey, Califórnia, e diz ter ascendência brasileira, não fica atrás de nenhum outro influencer do mundo offline que você conheça. Ela frequenta as semanas de moda internacionais, é amiga de celebridades como Millie Bobby Brown, já foi capa da ELLE México, posou para o fotógrafo David LaChapelle e acumula outras dezenas de parcerias e campanhas com grifes de luxo. Em 2018, foi convidada pela Prada para assumir o perfil da marca no Instagram durante seu desfile de outono em Milão. No ano seguinte, o portal TechCrunch, especializado em tecnologia, informou que os criadores de Miquela arrecadaram cerca de US$ 125 milhões do fundo Spark Capital, que investe em novas startups.

Mas o que chama mesmo a atenção é que Miquela utiliza seu perfil para criar discussões que passam por reflexões pessoais sobre aceitação corporal e transtornos alimentares. Ela apoia causas sociais como o movimento Black Lives Matter e os direitos trans e de imigração. "Minha geração está muito ansiosa para usar as mídias sociais como uma maneira de aprender e obter mais empatia. Eu não pretendia usar o Instagram como uma forma de ativismo quando comecei a publicar fotos, mas como ganhei popularidade, aprendi e conversei com muitos fãs de todo o mundo, percebi que tinha a responsabilidade de fazer algo. Todo mundo tem que trabalhar para melhorar o seu mundo, então é assim que estou tentando melhorar o meu agora", revelou Miquela em entrevista exclusiva à ELLE Brasil em 2018.

É claro que esse ativismo não escapou de algumas controvérsias. No ano passado, por exemplo, Miquela estrelou a campanha #MYTRUTH, da Calvin Klein ao lado da top Bella Hadid. No vídeo, a supermodelo aparece beijando a menina avatar — e isso não teve uma boa recepção. Com intuito de promover a liberdade de expressão para uma ampla gama de identidades, incluindo o espectro de gêneros e identidades sexuais, a marca sofreu uma série de reclamações do público pelo apagamento de histórias reais e significativas de pessoas LGBTQIA+, e pelo teor "queerbaiting", termo usado para se referir a conteúdos midiáticos que sugerem, mas na verdade não retratam, relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo ou qualquer outra representação LGBTQIA+ apenas como estratégia de marketing. Depois do barulho, a Calvin Klein publicou um pedido de desculpas e lamentou qualquer tipo de ofensa causado pelo comercial.

Além de polêmicas, vale destacar que Miquela também é cantora e já possui alguns singles com milhares de visualizações no YouTube. Seu mais recente lançamento, "Hard Feelings", recebeu um videoclipe superproduzido com direito a coreografia e corpo de dançarinos:

Seja dividindo selfies com a cantora Pabllo Vittar ou com a apresentadora Maísa Silva, não dá para ignorar que Miquela ganhou relevância e é considerada a representante da geração que nasceu e consome de forma online, sendo eleita pela revista TIME como uma das celebridades mais influentes da internet junto com BTS, Kylie Jenner e outros.

Lu do Magalu

Com 3,6 milhões de seguidores só no Instagram, a Lu do Magalu é a maior influencer virtual do mundo. E já está no ramo mesmo antes de isso ser tendência. Foi criada em 2003, com outro nome, Tia Luiza, e outra aparência, em 2D. Assumiu o nome atual em 2009 e só em 2013 ganhou o visual que conhecemos.

A mudança para uma posição de influencer ocorreu com o tempo. Se hoje ela já se posiciona como uma "influencer virtual 3D" em sua bio no Instagram, a "brand persona" começou como especialista digital da rede de varejo, dando dicas tecnológicas em seu blog e no YouTube, onde está desde 2007.

Com o sucesso, a personagem começou a fazer postagens pagas para outras marcas e trazer celebridades para seus posts – Lu chegou a participar de um evento da Samsung junto de Miquela. Após a aquisição do e-commerce de moda Zattini pela empresa de Luiza Trajano, Lu desenvolveu mais seu lado fashion, diversificando os looks e as paletas de cor. Não é raro vê-la dando dicas de lifestyle: como outros influencers, tem sua rotina de exercícios e chás. Também usa sua plataforma para dar voz a questões sociais, se posicionando em campanhas contra a violência doméstica e pela prevenção do câncer de mama.

(Matheus Fernandes)

Bermuda

Depois de expor a colega robô, Bermuda fez as pazes com Miquela e ambas se tornaram melhores amigas — basta conferir os dois perfis. A loira compartilha memes, dá dicas de skincare e exercícios físicos, e frequentemente é flagrada em cafés ao lado de Blawko, jovem entusiasta do streetwear que já foi capa da revista Square (e divide o clique com as duas BFF acima). Ambos são fruto do estúdio Brud.

Shudu

"A primeira supermodelo digital do mundo", diz a biografia de Shudu em seu perfil no Instagram. Desenvolvida por acaso pelo fotógrafo de moda Cameron-James Wilson, a top ganhou vida em 2017 quando Wilson, apaixonado por ficção científica, fazia experimentos com software de criação tridimensional. Alta, magra e sempre bem vestida, Shudu atingiu notoriedade quando a Fenty Beauty, marca da cantora Rihanna, compartilhou uma foto sua usando a linha de batons da label. Posteriormente, após críticas por Shudu estar ocupando o lugar que poderia ser de uma modelo negra real, a foto foi apagada. Houve também quem levantasse o fato de que, apesar de Shudu representar uma mulher negra, quem lucrava com ela era um criador branco. Wilson, que já afirmou que o seu trabalho "não é tentar substituir ninguém", hoje é dono de uma agência especializada em modelos virtuais chamada The Diigitals.

Apesar das polêmicas, Shudu acumula mais de 200 mil seguidores e realizou várias colaborações de renome. Mas não dá para deixar de notar: assim como na vida real, modelos virtuais negras ainda são minoria nos castings.

Imma e Ruby Gloom

Somando ao território fashion, existem dois perfis asiáticos que atraem engajamento do outro lado do globo. Imma, uma garota de cabelo rosa que está sempre curtindo pelas ruas de Tóquio e faz parte da AWW, agência que mantém outras duas simulações. E Ruby Gloom, criada em Hong Kong, que não esconde seu lado ciborgue dos seguidores. Desde 2016 essa avatar invadiu o mundo das artes e levou seu trabalho digital para as galerias B4bel4b Gallery e BabyCastles, nos Estados Unidos, panke.gallery, em Berlim, e NN Galeria, na Argentina. Ruby também colaborou com a Fendi em 2019, recriando itens exclusivos com sua assinatura.

Hatsune Miku

Hatsune Miku é uma verdadeira pop star. Projetada para ter eternamente 16 anos, a cantora VOCALOID (software de sintetizador e emulação de voz para canto) possui fãs globais e atingiu status como símbolo da cultura pop japonesa. Com botas enormes, saia plissada e um longo cabelo azul, ela se tornou uma das principais escolhas entre os cosplayers (fãs que se vestem e interpretam personagens de séries, filmes, games ou desenhos animados), além de colecionar hits musicais e participações em animes e jogos eletrônicos como o game Just Dance.

A diferença aqui é que Hatsune consegue levar seu espetáculo para fora das telas através de holografia e composição 3D. O que a faz lotar estádios e fazer turnês por vários países, passando inclusive pelo Brasil. Não à toa, o estilista Marc Jacobs desenhou figurinos exclusivos para ela inspirados na sua coleção da primavera de 2013 da Louis Vuitton. A estrela holográfica também soma em seu currículo shows de abertura para a turnê Artpop Ball, da artista Lady Gaga e uma escalação para o line up oficial do festival Coachella deste ano.

K/DA

Outro bom exemplo de avatares no mundo da música é o projeto K/DA, uma girl group de K-pop lançada pela RIOT Games e formada pelas personagens Ahri, Akali, Evelynn e Kai'Sa, presentes no game competitivo League Of Legends. O quarteto estreou como atração principal durante o Mundial de League of Legends 2018, que aconteceu em Incheon, na Coreia do Sul. A popularidade do K/DA rendeu a elas a primeira posição no chart de vendas digitais da Billboard e mais de 350 milhões de views no clipe oficial publicado no YouTube. Quem empresta os vocais para as personagens são as cantoras Soyeon e Miyeon, duas integrantes do igualmente popular grupo (G)I-DLE, e as norte-americanas Jaira Burns e Madison Beer.

Duny

Duny poderia ser só mais uma avatar anônima dentro do game The Sims, mas ela nasceu para ser muito mais do que isso. Pelas mãos (e com a voz) do youtuber brasileiro Raony Phillips, que usou os recursos do jogo de simulação para criar a personagem, ela virou a estrela da websérie Girls In the House. Nos episódios, Duny divide a tela com as amigas Alex e Honey e, eventualmente, com avatares de celebridades que fazem participações especiais, como Kim Kardashian e Beyoncé. Com mais de 2 milhões de inscritos no canal, a websérie já está na quinta temporada. Despachada, desbocada e engraçadíssima, Duny já esteve em comerciais da Netflix e comentou o tapete vermelho da premiação VMA para a MTV. Até autobiografia ela já tem: Meu Livro. Eu que escrevi, foi publicado em 2017 pela editora Intrínseca.

Dunny - Manequin (Official Music Video)

War Nymph

Uma das personalidades mais frescas em CGI (imagens geradas por computador), War Nymph é fruto do universo visual criado pela cantora Grimes. Projetado para substituí-la em apresentações futuras, a ideia surgiu quando Grimes estava grávida – o bebê, filho da cantora com Elon Musk, nasceu em abril. A intenção era permitir que o avatar continuasse trabalhando em seu lugar durante as promoções do disco "Miss Anthropocene", lançado em fevereiro de 2020. A canadense, que adora se reinventar e é uma das mentes mais brilhantes da música pop atual, confessou à The Face que ter um alterego virtual facilita o processo de desvincular suas versões online e offline, o que colabora também para a sua saúde mental. "Em um videogame, há um avatar entre mim e os monstros com os quais estou lutando. Sinto que devemos tentar trabalhar nessa ideia IRL [in real life, ou seja, na vida real]", disse.