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A força da arte vai além da emoção, e prestar atenção nela e na vida de artistas pode ser como ganhar um potente guarda-chuva durante um clima estranho. Essa é a premissa de Funny Weather: Art in an Emergency (2020, Norton) — que pode ser traduzido por Clima Estranho: Arte em uma Emergência, novo livro da escritora Olivia Laing. A obra é uma coleção de ensaios da autora publicados desde 2015, quando começou uma coluna de mesmo nome para a Frieze. O título é uma referência aos tempos politicamente turbulentos e confusos que vivemos, quando as notícias diárias parecem estar cada vez mais dramáticas. Em tempos de pandemia, o livro também é uma janela para processar questões globais e perceber como elas ressoam na vida individual.

Entre perfis de artistas como Jean-Michel Basquiat e Georgia O'Keefe e até cartas de amor para David Bowie e Freddie Mercury, ela explora solidão, tecnologia, gênero, alcoolismo e o corpo. No entanto, a escrita é repleta de compaixão: para Olivia, a arte é resistência e reparo, um antídoto para o momento. "Nos dizem com muita frequência que a arte não consegue mudar nada. Mas ela muda nosso olhar. Deixa claro as desigualdades e oferece jeitos férteis de ver o mundo", diz Olivia.

Ela é também autora de três outros livros de não-ficção: To The River, a história do rio Ouse, em Sussex, no qual Virginia Woolf se afogou em 1941, The Trip To Echo Spring, sobre autores e sua relação com o alcoolismo, e The Lonely City, sobre a relação entre solidão e as cidades. Em 2018, lançou a ficção Crudo.

Como a arte pode ser nutritiva para nosso interior? Enquanto lia Art in an Emergency, fiquei muito tocada com a citação de Jonas Mekas. Quando entramos em contato com uma obra ou narrativa, nos sentimos nutridos por ela por dias ou até meses a fio. Às vezes ela é, inclusive, o único tipo de nutrição interior que temos, quando sentimos que não há escapatória da realidade imediata. Mas, no entanto, você descreve que esse não é um processo grandioso, catártico. Quais são as possibilidades que chegam com esse tipo de emoção relacionada à arte?

Eu amo essa citação do Mekas — "impregnado por toda aquela luz." Eu acho que essa é certamente uma das coisas que a arte pode fazer: nos preencher de ideias ainda não sonhadas, visões e possibilidades. A arte é uma fonte de clareza, uma forma de processar informações e sentimentos. É um jeito de resistir à opressão e ser testemunha da crueldade e da devastação. É sustento. Eu penso que, de verdade, é como criamos sentido para o passado e sonhamos com o futuro.

Muitos artistas recebem reconhecimento por suas conquistas, como se eles tivessem que ser vencedores, estrategistas ou gênios para serem reconhecidos. Mas em Art in an Emergency e The Trip to Echo Spring, vemos a importância da vulnerabilidade para a arte, assim como olhar para suas sombras. A crise é um caminho para a arte?

Eu sou atraída pela história de artistas que vêm de passados difíceis, e que usam a arte como uma forma de criar sentido para circunstâncias complicadas ou infelizes, sejam elas pessoais ou políticas. Esse é um tema que perpassa Art in an Emergency, e também meus outros livros. É como processamos a ansiedade, como sobrevivemos em circunstâncias hostis, especialmente se pertencemos a um grupo de pessoas que são estigmatizadas ou experienciam preconceito. A arte é uma ferramenta que pode ajudar em todas essas coisas. É uma forma de processar a dor e a perda, e inventar algo que seja sustento em circunstâncias que obstruem a vida.

"É uma forma de processar a dor e a perda, e inventar algo que seja sustento em circunstâncias que obstruem a vida", Olivia Laing

Durante o isolamento nessa pandemia, as pessoas estão entrando em contato com partes delas mesmas que eram, até então, desconhecidas. E para aqueles que dividem casa, questões familiares podem estar surgindo com bastante força. Sua história e seu passado estão conectados intimamente com sua escrita. Você pode contar como você resistiu, e por que você escreve sobre pessoas que criaram nessas circunstâncias?

Essa é uma situação tão difícil. Mesmo que você esteja com pessoas, pode ser ao mesmo tempo solitário e claustrofóbico. Eu venho de um passado complicado — eu cresci em uma família com uma alcoólatra, e minha mãe é lésbica. Os anos 1980 foram muito homofóbicos no Reino Unido, e eu percebi o preconceito e a exclusão desde bem nova. A arte sempre foi um jeito com o qual eu processei meus próprios sentimentos, tanto ao ler, ouvir música ou ver filmes, quanto ao fazer coisas minhas. Ao mesmo tempo, eu estava muito consciente disso como uma força política. Esse era o período da aids, e pessoas como o cineasta e ativista Derek Jarman foram verdadeiros heróis para mim. Jarman resistiu no terrível ambiente político, falou em protesto, mas também nunca parou de fazer um trabalho lindo, fértil e emocionante. Para mim, é isso que significa ser artista: falar verdadeiramente sobre o que está errado no mundo, mas ao mesmo tempo inventar alternativas.

Quando você fala sobre trauma e esses momentos difíceis, no entanto, isso não machuca quem lê. Como você pensa e decide sobre as palavras que usa, qual é sua perspectiva em relação a isso?

Isso é muito importante para mim. Não quero retraumatizar ninguém, ou revelar coisas dolorosas sobre quem estou escrevendo apenas para chocar. Eu escrevo a partir do amor, e eu devo sentir um respeito real pelo trabalho de quem estou falando, e ser capaz de transmitir isso. É uma regra bem forte. Eu odeio escrever biografias, mas eu acho que se eu estou expondo algo dos artistas que estou escrevendo, também devo explicar o motivo — seja ele a solidão, ou minhas questões com gênero ou com minha história familiar. Não quero expor. Quero que as coisas façam sentido, e quero que elas ajudem ou inspirem os leitores, mesmo se, juntos, estamos cara a cara com esse material difícil.

"Compreender a história é vital para criar um novo mundo. Precisamos entender o que aconteceu e o porquê, e então precisamos sonhar um melhor jeito de existir", Olivia Laing

Aqui no Brasil, a opressão e as desigualdades de gênero, raça e sexualidade são tão fortes e claras de se ver, especialmente durante a pandemia. As propostas culturais não chegam em quem realmente se beneficiaria da arte — mesmo que arte e política estejam tão conectadas. Como você acha que essas narrativas alcançam as pessoas que realmente precisam delas? Você acha que as histórias têm um jeito misterioso de agir e percorrer o mundo?

Eu penso sobre isso o tempo inteiro. Na minha escrita, uma das coisas que eu tento bastante é escrever de forma clara e horizontal. Eu quero que todos possam compreender. Eu acho que as pessoas são inteligentes e abertas, e eu realmente penso que a arte é para todos — que todos nós conseguimos captar o que ela está tentando fazer ou dizer. Mas muito da linguagem ao redor da arte é deliberadamente exclusiva e opaca. Ugh! Não tem que ser. Você pode falar sobre ideias difíceis em uma linguagem simples. Eu amei essa última pergunta, eu concordo com ela também. Eu acho que as histórias são como os humanos se comunicam. Elas vivem dentro da gente, e elas trabalham conosco. Elas nos abrem para o mundo.

Você pode falar mais sobre Freedom, seu próximo livro, e sua perspectiva sobre escrever para soluções, para um novo mundo, não focado em distopias?

Esse é o tema do meu próximo livro, que vai sair em 2021. Eu queria compreender por que os grandes movimentos por liberdade do século 20 — o movimento de direitos civis, liberdade gay, liberdade sexual e feminismo — parecem estar falhando. E eu queria entender por que o corpo humano é sujeito a tanto preconceito e violência. Eu acho que compreender a história é vital para criar um novo mundo. Precisamos entender o que aconteceu e o porquê, e então precisamos sonhar um melhor jeito de existir, com tolerância e solidariedade. Eu acho que podemos fazer isso. Eu acho que o mundo é um lugar assustador, mas eu não deixo de ter esperança no futuro.


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