PUBLICIDADE

Bangladesh é um pequeno país asiático responsável por abrigar parte importante da rede produtiva global de moda. Mas não só isso. A nação também é uma das particularmente vulneráveis às alterações climáticas. Na última década, em média, cerca de 700 mil pessoas se deslocaram, anualmente, das zonas rurais e costeiras para as cidades, especialmente rumo à Dhaka, capital do país. Estima-se que cerca de 4,2 milhões de pessoas estejam vivendo em favelas, e pode chegar a 50% a porcentagem de pessoas que agora vivem nas favelas urbanas de Bangladesh por terem sido forçadas a fugir de suas casas como resultado da erosão das margens dos rios.

Conforme explica Tim McDonnell no seu artigo para a National Geographic, "as mudanças climáticas estão interrompendo os padrões tradicionais de chuva – secas em algumas áreas, inundações inesperadas em outras – e aumentando o escoamento de geleiras das montanhas do Himalaia, levando a um aumento nas inundações e na erosão das margens dos rios. Todos os anos, uma área maior que Manhattan desaparece. Enquanto isso, o aumento do nível do mar está levando água salgada para as áreas agrícolas costeiras e prometendo submergir permanentemente grandes faixas".

A crise climática deve ser o maior motor de migração interna em Bangladesh ainda neste século. Até 2050, o número de pessoas deslocadas por conta das diversas consequências das alterações do clima pode chegar a 13,3 milhões, segundo dados do Banco Mundial de 2018. Esse número é maior que o total de habitantes vivendo na cidade de São Paulo, a maior cidade da América Latina, com 12,33 milhões de pessoas. Imagine, por um instante, São Paulo desaparecendo do mapa. Para onde iriam todas essas pessoas?

PUBLICIDADE
O clima e a tragédia de 24 de abril

Com a intensificação do fluxo migratório e nenhuma preparação, Dhaka se urbanizou de forma caótica e precária – característica de formação de muitas cidades do Sul global. Para migrantes costeiros ou rurais, as cidades apresentam enormes desafios: deslocadas de suas casas e seus modos de vida, sem qualificação profissional para entrar no mercado de trabalho urbano digno, essas pessoas se tornam mão-de-obra barata, prontas para serem inseridas no sistema capitalista global de produção em massa. Apesar da média de aumento do PIB de 6,5% ao ano, cerca de 40% da população do país vive abaixo da linha da pobreza.

A capital de Bangladesh abriga hoje uma série de fábricas e uma indústria têxtil e de confecção com cerca de 800 mil trabalhadores. Mas a cidade só entrou no debate global em 2013, após o desabamento do prédio Rana Plaza, responsável por abrigar centenas de fábricas de costura, diversas delas, fornecedores de grandes marcas nos Estados Unidos e Europa. O acidente resultou em mais de mil mortes e milhares de pessoas feridas, muitas permanentemente.

PUBLICIDADE

Estopim para o nascimento do movimento global Fashion Revolution, que promove debates sobre questões de trabalho na rede produtiva da moda, o desabamento do Rana Plaza foi também responsável pela assinatura de dois importantes acordos relativos à segurança predial como uma forma de prevenir outros acidentes parecidos na cidade, que exportou em 2018 36,6 bilhões de dólares (cerca de 160,97 bilhões de reais) em peças de roupas.

Ou teremos justiça socioambiental ou não teremos justiça

O desabamento do Rana Plaza completa oito anos neste 24 de abril em meio ao caos da pandemia do novo coronavírus. Bangladesh foi um dos países mais duramente afetados economicamente pela crise sanitária com o fechamento do varejo global – frente a queda das vendas resultantes do isolamento social nos diversos países do mundo, as marcas de moda cancelaram pedidos, muitos deles já prontos, e deixaram seus fornecedores no escuro e milhares de trabalhadores sem renda de forma abrupta. De forma bastante parecida com a crise do clima, a pandemia tem sinalizado como são os países do Sul global, especialmente as populações mais pobres, os que mais sofrem e sofrerão com as diversas crises.

Em Bangladesh, especificamente, podemos observar o caminho completo de empobrecimento gerado pelos desastres naturais intensificados pelas mudanças climáticas – do campo à fábrica – e como os países do Norte, via corporações transnacionais, têm se favorecido desse contingente de migrantes. Nesse sentido, olhar para o aniversário do Rana Plaza deve ser também uma demanda de responsabilização da indústria global acerca dos seus mais de 2 bilhões de toneladas de gases de efeito estufa emitidos em 2018, o que significa 4% do total global de emissões – ou ainda o total de todas as emissões da França, Alemanha e Reino Unido combinadas.

Por fim, e a mensagem mais importante de todas, o aniversário do Rana Plaza também deve servir para esquecermos qualquer ideia de eleição de prioridades: não existe justiça social sem justiça ambiental. Qualquer ação destinada a escolher entre uma causa ou outra está fadada ao fracasso. Temos pouco tempo para virar essa chave e entender, de uma vez por todas, o significado da palavra socioambiental.

Marina Colerato é jornalista, diretora executiva do Modefica, organização de mídia e pesquisa que atua por justiça socioambiental e climática por meio de uma perspectiva ecofeminista. É co-fundadora da Futuramoda, agência de comunicação e design, além de mestranda em Ciências Sociais pela PUC/SP.




Tenha acesso a conteúdos exclusivos
ASSINE A ELLE