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acessórios

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Apesar de estar em alta agora, enfeitar tranças com acessórios não é novidade, mesmo. Segundo a pesquisadora de estéticas e tradições africanas Nathalia Grilo, o marco zero desse hábito tem como localização o Kemet, território hoje conhecido como Egito. Naquela época, o uso de miçangas, pedrarias, amuletos, lapis lazuli e ouro nas madeixas trançadas já era bastante comum. "Há um grande vínculo simbólico ao adornar as tranças porque, tanto em Kemet como em outros povos sul-saarianos, o cabelo é entendido como um transmissor de informações e protetor da cabeça, o elemento mais importante do corpo. É um elemento civilizatório", explica a curadora independente baiana radicada no Rio de Janeiro.

Esse poder ancestral, inclusive, parece ter sido recuperado nesta última temporada por algumas das belezas desfiladas na São Paulo Fashion Week (Naya Violeta, Az Marias, Projeto Ponto Firme) e na Casa de Criadores (Monica dos Anjos). Por ali, a maior parte dos adereços carregavam um significado ainda maior: eram búzios que, segundo Grilo, são símbolos africanos de riqueza e prosperidade, uma vez que foram as primeiras moedas de diversas regiões do continente. A questão é, por que o visual à la Patrice Rushen está tão em alta agora?

patrice-rushen Patrice Rushen, nos anos 1980, com as tranças repletas de acessórios.Foto: Getty Images

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Segundo a pesquisadora de tendências Nina Grando, essa movimentação parece ser uma resposta à vacinação da geração Z em pleno verão estadunidense. Ou seja, há algo como uma aspiração à leveza no ar, ainda que a pandemia, de fato, não tenha chegado ao fim. Para Grando, trata-se de um resgate do estilo dos anos 2000, "meio The O.C., meio Acquamarine, sabe? Já ouviu falar das Coconut Girls, do TikTok? Elas combinam esse sereismo com a estética das VSCO Girls e estão fazendo o maior sucesso!"

A atualização da trend, contudo, fica a cargo da escolha de materiais. "A maior parte da geração Z se preocupa muito com o meio-ambiente. Adereços feitos de vidro ou de matéria-prima reciclável saem à frente. Conchinhas, que são orgânicas, por exemplo, são uma boa escolha", sugere Grando. "Acho que, cada vez mais, a gente está percebendo que o ouro é muito nosso", diz Grilo que acredita num comeback da estética ostentação. "Tenho visto muitas trancinhas com pedrarias e cristais, também", indica.

"Gosto de pensar nos blocos afro, nas escolas de samba e nos bailes funk como espaços de resgate da beleza preta", Nathalia Grilo, pesquisadora de estéticas e tradições africanas

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Indo mais a fundo na retomada histórica, Grilo também lembra que, no Brasil dos anos 1960, os blocos afro (sobretudo os de Salvador, como Ilê Aiyê) ajudaram os adornos de cabelo a serem valorizados dentro de um país cujo longo processo escravagista soterrou com suas iniciativas de embranquecimento da população. "Gosto de pensar nos blocos afro, nas escolas de samba e nos bailes funk como espaços de resgate da beleza preta."

O Lounge Juba Trançadeiras, em São Paulo, tem uma média de 150 clientes por mês. Entre eles, figuram expoentes da cultura como Emicida, Drik Barbosa e Evandro Fioti. De todo o público, por volta de 60% desejam adornar o penteado. É o que afirma a trancista e idealizadora do salão Regiane Alexandre, de 35 anos. Ela conta que, por lá, encontram-se disponíveis argolas, búzios, miçangas coloridas e até opções feitas de madeira. Segundo Alexandre, os acessórios mais populares são os anéis e os fios, que aparecem em versões douradas, prateadas e coloridas. No entanto, o que mais tem acontecido são as combinações entre os materiais, gerando um mix exclusivo para cada cliente. Fora isso, pérolas para enfeitar o baby hair também estão super em alta! O preço por cada adereço pode variar entre R$ 5 e R$ 10.



Já em Belo Horizonte, a recém-aberta Casa de Nagô BH encontrou um público mais discreto. Com uma média de 40 clientes por mês, a grande maioria opta por anéis para adornar o cabelo, mas os pingentes, argolas, pedras, búzios e miçangas, que saem mais são os de tons pastel. "O público que enfeita as tranças é o mesmo que ousa em cores e tamanhos; o que eu percebo é que são pessoas que têm maior liberdade de circulação e atuação no ambiente de trabalho", reflete a trancista e idealizadora do salão, Rafa Xavier. "Mas, muitas pessoas estão em trabalhos que não são tão receptivos com cabelos fora do padrão, logo, são pessoas que geralmente trançam com tons fechados, seja castanho ou loiro escuro, e não se sentem confortáveis para colocar acessórios nas tranças." Vale lembrar que refletimos sobre as bases racistas e LGBTQfóbicas por trás dessa ideia das corporações a respeito do que seria um "cabelo profissional" nesta reportagem.

De todo modo, vale lembrar da motivação de Nathalia Grilo em suas pesquisas em situações como essas: um resgate simbólico. E ele não pode ser concretizado sem uma transformação na estrutura da nossa sociedade. O fim da discriminação capilar no ambiente de trabalho é uma delas. Se puder, dê a mão às propostas mais corajosas da geração Z e, uma miçanga ou cristal de cada vez, a gente vai fazendo do mundo um lugar menos violento e muito mais bonito.

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