Moda

Jovens grifes anunciam um admirável mundo novo

Reconhecidas pelos principais prêmios internacionais da moda, novas marcas falam sobre os valores que permeiam seus negócios e debatem o futuro da indústria.

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Quais serão os caminhos da moda quando voltarmos a navegar por um mundo incógnito pós-pandemia? Quais serão as escolhas – nossas e das marcas – depois do trauma de tantas perdas humanas, emocionais e financeiras? As respostas para questões tão centrais na indústria neste momento ainda não estão escritas – nem mesmo nas bibliografias dos melhores MBAs. Enquanto as grandes empresas da área certamente terão menos velocidade para alterar o rumo de suas complexas cadeias, as jovens grifes que resistirem à crise poderão se transformar em laboratórios de inovação para o resto do mercado. Primeiro, pelo tamanho, mais favorável a testes, rupturas, mudanças de curto prazo. Segundo, porque muitas delas já vinham experimentando novos modelos de negócios antes mesmo da covid-19 deixar o planeta de ponta à cabeça

Na última semana, ELLE Brasil conversou longamente – via Skype, Zoom, Facetime – com cinco marcas que tiveram suas ideias reconhecidas nos principais prêmios internacionais para jovens talentos, como o Prêmio LVMH, plataforma criada em 2014 pelo conglomerado de luxo, e o Hyères Festival, que acontece desde 1986 na França e tem apoio de empresas tradicionais como a Chanel. São grifes que estão sendo acompanhadas de perto pela indústria por suas maneiras inovadoras de olhar para a moda: coleções 100% produzidas na África, roupas que vestem corpos do 34 ao 50, narrativas longe do eurocentrismo, peças confeccionadas apenas com materiais já existentes no mercado. "Como jovens estilistas e cidadãos, temos a missão de trabalhar e produzir de uma maneira diferente", resume Balthazar Delepierre, da marca Ester Manas. Com o novo coronavírus escancarando a necessidade de transformações na moda, mais que remendar o presente, é hora de se buscar novas maneiras de costurar o futuro.

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Moda é colaboração

Vestido Sindiso Khumalo.

Foto: Jonathan Kope

A nova safra de estilistas africanos, da qual fazem parte Thebe Magugu (vencedor do LVMH Prize de 2019) e Sindiso Khumalo (uma das ganhadoras da premiação este ano), tomou para si o desafio de mostrar ao mundo que é viável concentrar todas as etapas da produção de suas coleções no continente. "Pode não ser o lugar mais fácil, mas, para mim, é o mais gratificante. Espero que nossa experiência sirva de exemplo para grandes corporações. Ter transparência na cadeia é muito mais fácil quando você está próximo a ela", diz Sindiso, em entrevista por telefone de sua casa, na Cidade do Cabo, em um intervalo das atividades escolares dos dois filhos.

A marca que leva seu nome está na ativa há três anos – os primeiros passos foram dados há sete, mas ela engravidou ao longo do caminho e decidiu postergar os planos. "A maternidade me ajudou muito a pensar nos rumos da marca, a ter um ponto de vista mais forte sobre o que eu queria comunicar. Fiquei muito mais preocupada com a sustentabilidade e com o impacto social que meu trabalho poderia ter. Comecei a me perguntar sobre o mundo que gostaria de deixar para os meus filhos." Hoje, Sindiso utiliza em suas coleções matérias-primas naturais, como cânhamo, algodão e linho, e só trabalha com mulheres, muitas delas também mães. "Quis investir na força feminina africana, o que significa também investir no futuro dos seus filhos."


"Não acredito na ideia de um estilista principal, mas em uma comunidade que trabalha junto." – Sindiso Khumalo

A estilista desenvolve ao lado de ONGs projetos capazes de levar melhores condições de vida a artesãs e mulheres em situação de risco. Além de parcerias no próprio país, Sindiso produz matérias-primas com um grupo de tecelãs em Burkina Faso. "Não acredito na ideia de um estilista principal, mas em uma comunidade que trabalha junto", explica. Seu processo de criação gira em torno destas colaborações: ela descobre primeiro as técnicas e habilidades do grupo com o qual está atuando. "O ponto de partida é essa pesquisa. A partir daí penso em detalhes, bordados, tingimentos. É bem diferente da lógica tradicional, na qual a marca idealiza primeiro a coleção e em seguida encomenda materiais", compara Sindiso, que se formou em arquitetura e trabalhou no premiado escritório de David Adjaye, em Londres. A transição de área teve início com um mestrado em design têxtil no Central Saint Martins College of Art and Design, na capital inglesa.

De volta ao seu país, ela decidiu abordar narrativas muito particulares em suas coleções – histórias de sua família ou de mulheres que tiveram conquistas simbólicas, como a ativista Charlotte Maxeke, a primeira negra sul-africana a se formar numa universidade, em 1901. "Se você é da África do Sul, sabe que sua liberdade envolveu muita luta. Estamos construindo a nova história do país e precisamos falar sobre isso."

Retrato da estilista Sindiso Khumalo.

Sindiso Khumalo.

Foto: Divulgação

Novos materiais para quê?

Vestidos Chopova Lowena

Foto: Cortesia Chopova Lowena

"Na faculdade, comecei a me perguntar se a indústria precisava de mais roupas, de mais estilistas", conta com honestidade Emma Chopova, que há três anos fundou em Londres a marca Chopova Lowena ao lado de Laura Lowena, com quem estudou na Central Saint Martins, na capital inglesa. A frase pode parecer contraditória, mas é típica de uma geração que busca encontrar novas formas de atuar na moda. "Somos obcecadas por sustentabilidade, trabalhos manuais e peças especiais. Ficamos pensando no tipo de produto que faríamos, sem que nos sentíssemos desconfortáveis."

Nascida na Bulgária e criada nos Estados Unidos, Emma encontrou a resposta em suas próprias raízes. Ao lado de Laura (que é de um vilarejo em Somerset, no sudoeste da Inglaterra), começou a produzir saias com tecidos originalmente usados nos trajes folclóricos de seu país – esquecidos no fundo dos baús das famílias a partir dos anos 1990, com o fim da Guerra Fria e do regime comunista. Mas as peças não tinham nada de tradicionais: plissadas e feitas com um rico patchwork de materiais, carregavam também um cinto adornado com mosquetões de escalada – o tipo de roupa que a eterna punk Vivienne Westwood usaria em uma festa típica, caso fosse convidada.

Laura Lowena e Emma Chopova.

Fotos: Cortesia Chopova Lowena

A originalidade das saias imediatamente chamou a atenção de multimarcas como a londrina Matches, que comprou a primeira coleção da dupla logo após a sua formatura na Saint Martins. E o reconhecimento do talento de Emma e Laura não parou por aí. Além de ser uma das marcas vencedoras do LVMH Prize este ano (por causa da pandemia, os oito finalistas dividiram o prêmio), a Chopova Lowena está presente em 33 pontos de venda, que incluem o Dover Street Market e o e-commerce Farfetch. Absolutamente todos os tecidos são reciclados ou encontrados em "estoques mortos". "Não queremos produzir novos materiais, apenas trabalhar com o que já existe no mercado."

"Queremos apenas trabalhar com o que já existe no mercado." - Emma Chopova

Para o negócio ganhar escala, elas fazem uma busca ativa de materiais – um trabalho que envolve visitas frequentes a Sófia e contatos com colecionadores via redes sociais. A confecção das peças é toda à mão, consome tempo, e foi difícil encontrar fornecedores para a execução. O problema também foi resolvido na Bulgária. "Começamos com um ateliê e, a partir dele, chegamos a outros ateliês pequenos e costureiras que trabalhavam de casa. Atualmente, contamos com uma rede de cerca de cem mulheres a cada temporada", diz Emma. "Há 20, 30 anos, muitas peças de luxo eram produzidas no país. Depois disso, boa parte das fábricas fechou, e suas funcionárias foram demitidas. É uma mão de obra é espetacular." Ao fim da entrevista, volto à questão inicial da nossa conversa e pergunto por que ela decidiu investir em uma área que acreditava estar saturada de profissionais. "O escapismo, a beleza e a emoção da moda ainda encantam a minha geração", responde a estilista, cujas criações lúdicas e cheias de história sintetizam bem esta motivação.

Luxo sem tamanho

"Eu visto 44 e, desde a faculdade, me sentia incomodada por trabalhar com manequins que eram muito mais magros que eu. Por isso, decidi investir em uma moda para diferentes corpos", diz a francesa Ester Manas, 27 anos, que há dois fundou a marca que leva seu nome ao lado do namorado, o belga Balthazar Delepierre, de 26. Os dois se conheceram na La Cambre, universidade com foco na área criativa, em Bruxelas, e hoje produzem roupas que vestem do tamanho 34 ao 50. Isso não quer dizer apenas peças oversized: há toda uma engenharia por trás do trabalho da dupla, com itens adaptáveis e expansíveis. Apostando nessa ideia, foram finalistas, em 2018, do renomado festival de Hyères, na França – e venceram o Galeries Lafayette Prize, um dos mais importantes do evento. Graças à premiação, criaram para a loja de departamentos francesa uma coleção-cápsula seguindo o conceito "um-tamanho-veste-todas". Repletas de plissados, dobraduras, cintos e botões que permitem regulagens, as peças eram ajustáveis a diferentes shapes.

Com um estilo streetwear sofisticado, a marca ainda é exceção – basta entrar nos principais e-commerces de moda do mundo para ver que raramente há roupas além do tamanho 44, se é que o 44 está disponível. Felizmente, a Ester Manas vem sendo rapidamente reconhecida pela indústria: foi selecionada pelo H&M Design Awards de 2018 e semifinalista do LVMH Prize deste ano. Entre seus pontos de venda hoje está a francesa Printemps. "As roupas da marca são feitas para durar: podem enfrentar as possíveis oscilações do corpo ao longo da vida, inclusive a gravidez.", acredita Ester, que fez diversas provas e ouviu dezenas de mulheres para criar sua metodologia.

Ester Manas.

Foto: Cortesia Ester Manas

"Decidi criar uma moda que vestisse diferentes corpos." – Ester Manas
Retrato dos estilistas Balthazar Delepierre e Ester Manas.

Balthazar Delepierre e Ester Manas.

Foto: Cortesia Ester Manas

A abrangência de tamanhos estava presente desde o business plan traçado pela dupla no nascimento da empresa, assim como princípios sustentáveis que vem buscando. Cerca de 80% dos tecidos que a Ester Manas utiliza hoje são provenientes de "estoques mortos" – materiais que foram produzidos para outras grifes e não foram usados. Todas as peças são fabricadas em Bruxelas, sem grandes deslocamentos do estúdio da marca. "Para nós, o novo significado de luxo é transparência, pagamentos justos para todos os envolvidos na cadeia e inclusão", conclui Ester.

Narrativa própria

Look Ahluwaila.

Foto: Dominika Scheibinger

Aos 28 anos, a estilista inglesa Priya Ahluwalia é também ótima narradora de histórias – e prefere se voltar para aquelas que envolvem sua herança cultural. Filha de um nigeriano e neta de indianos pelo lado materno, ela olha para suas raízes e retratos antigos de família para criar as coleções da marca masculina que fundou há apenas dois anos, a Ahluwalia. "Quando era adolescente, não via estilistas parecidos comigo, vindos de um contexto similar, e também eram poucas as mulheres no comando das marcas. Nos anos 90 e 2000, existiram coleções inspiradas em diferentes partes do mundo, mas feitas por homens brancos. Sem dúvida, muitas delas eram lindas, mas eram fantasias. Agora chegou a hora de contarmos nossas próprias histórias, a partir do nosso ponto de vista", diz.

Com um discurso de transformação, suas criações utilizam apenas materiais reciclados, vintage ou tecidos sustentáveis. Só no ano passado, Priya ganhou o H&M Design Award (com prêmio no valor de 50.000 euros), fez um desfile em parceria com a Adidas com a bênção de Pharrell Williams e conquistou 12 pontos de venda importantes, como as multimarcas londrinas Browns e Matches. Este ano, foi uma das vencedoras do LVMH Prize. "O tipo de matéria-prima que uso exige muita pesquisa. Seria mais prático seguir o caminho tradicional, mas esta foi a minha escolha. E os pontos de venda têm que entender que uma peça nunca será igual à outra, muitas são one-of-a-kind", conta Priya, que investe em um estilo streetwear muito autoral.

"Chegou a hora de contarmos nossas histórias." Priya Ahluwalia
Retrato da estilista Priya Ahluwaila.

A estilista Priya Ahluwaila.

Foto: Divulgação.

A construção de sua marca começou com uma viagem que fez, em 2017, aos dois países aonde estão suas raízes. Na Índia, visitou Panipat, conhecida como a capital global da reciclagem, com montanhas de itens descartados pelo mundo. Em Lagos, cidade mais populosa da Nigéria, se deparou com a venda de peças obscuras no mercado de segunda mão, como uma camiseta da maratona de Londres de 2012. Ali, refletiu sobre a jornada das roupas pelo planeta e como o consumo exacerbado impactava países onde há grandes questões sociais. Os registros fotográficos da imersão foram reunidos no livro Sweet Lassi – e os aprendizados definiram as práticas do trabalho de Priya. Seu conselho para a indústria da moda? "Tradição é bom, mas não tenham medo de mudanças."

Moda sem pressa

Modelo desfilando na cole\u00e7\u00e3o inverno 2020 da marca Bode.

Bode, inverno 2020.

Foto: Getty Images

Em junho passado, a vencedora da categoria marca emergente no CFDA Fashion Awards, o Oscar da moda nos Estados Unidos, não representava os clichés de sucesso americanos. Fundada há quatro anos por Emily Adams Bode, a Bode elegeu como pilar a preservação do feito à mão. "Nosso negócio busca reinterpretar técnicas e práticas históricas, como antigos bordados. Minha intenção é criar peças que passem de uma geração para outra", conta Emily, 30 anos, que recebeu durante a última semana de moda de Londres, em fevereiro passado, o Karl Lagerfeld Award for Innovation, parte do tradicional prêmio Woolmark.

Emily faz uma moda sem pressa, com roupas que mais parecem obras de arte, repletas de detalhes aplicados, acolchoados ou pintados manualmente. Ela começou criando itens one-of-a-kind sob encomenda, todos confeccionados em Nova York com tecidos vintage de diferentes lugares e períodos – raridades do fim do século 18 a meados do século 20. Com olhar de colecionadora, ela garimpa inclusive cortinas e toalhas de mesa com essa finalidade. Até hoje, esse segmento representa 40% das vendas da Bode. As demais peças são confeccionadas em fábricas e cooperativas nos Estados Unidos e na Índia, apoiando artesãos e a sobrevivência de técnicas que poderiam se perder com o tempo. "Na Índia, trabalhamos com pequenas empresas familiares ou cooperativas de mulheres. Nossa prioridade é ter uma relação de transparêcia com todas elas", diz a estilista, que cria com os homens em mente, mas também tem uma clientela fiel de mulheres, fora uma linha infantil.

"Há muita pressão sobre os estilistas, para que eles façam cada vez mais coleções por ano." – Emily Bode

Apesar de ter apresentado as duas últimas coleções na semana de moda masculina de Paris e já somar (ao menos antes de a pandemia começar) pontos de vendas em 14 países, Emily quer seguir em seu ritmo próprio. E acredita que desacelerar seria algo saudável para toda a indústria. "Ainda há muito estresse na moda. Historicamente, há muita pressão sobre os estilistas, para que eles façam cada vez mais coleções por ano. Mas acho que estamos em um momento de mudança, com mais marcas oferecendo produtos de nicho e desenvolvendo sua sensibilidade ao longo de algumas estações, em vez de novas coleções."

Retrato da estilista Emily Adam Bode.

Emily Adam Bode.

Foto: Cortesia Bode.



Ao longo de quase dois meses, ELLE Brasil conversou com mais de 40 profissionais diretamente afetados pela crise da covid-19. O resultado é uma série de reportagens com relatos profundos de uma indústria desesperada por esforços coletivos.


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