Beleza

A beleza ancestral da Kurandé Cosméticos

A empresa fundada por Felipe Garcia e Cláudio Marques fala de cura e mediação histórica ao mesmo tempo em que atesta a potência criativa da periferia do Rio de Janeiro.

Kurandé Cosméticos Naturais
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Em Ideias para adiar o fim do mundo (2ª Edição, 2020, Companhia das Letras), o líder indígena e ambientalista Ailton Krenak faz importantes provocações para a sociedade: "A humanidade está sendo descolada de uma maneira tão absoluta desse organismo que é a terra. Os únicos núcleos que ainda consideram que precisam ficar agarrados nessa terra são aqueles que ficaram meio esquecidos pelas bordas do planeta, nas margens dos rios, nas beiras dos oceanos, na África, na Ásia ou na América Latina. São caiçaras, índios, quilombolas, aborígenes – a sub-humanidade. Porque tem uma humanidade, vamos dizer, bacana. E tem uma camada mais bruta, rústica, orgânica, uma sub-humanidade, uma gente que fica agarrada na terra", escreveu.

O trecho do livro é uma boa introdução para entendermos o trabalho de Felipe Garcia e Cláudio Marques na Kurandé Cosméticos Naturais. A marca fundada pela dupla foca no mercado de beleza e em produtos fitoterápicos, mas a sua mensagem vai muito além disso. Sob o slogan "Do Complexo do Alemão para o mundo!", a empresa fundada no Rio de Janeiro tem como missão a promoção e o fortalecimento da autoestima de pessoas negras e indígenas. Ao promover o autocuidado dessa população historicamente afetada pelo racismo, eles se inscrevem no legado de luta e realeza da ancestralidade que carregam e, com isso, abrem caminhos para transcender a dor.

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Kurandé Cosméticos Naturais

A sankofa, ideograma presente no adinkra (conjunto de símbolos ideográficos dos povos acã, grupo étnico presente em Gana e Costa do Marfim), também reflete o espírito deste projeto idealizado pelo jovem duo de empreendedores (Felipe tem 23 anos de idade, é fitoterapeuta e estudante de Ciências Biológicas da UFRJ enquanto Cláudio tem 26 anos, é terapeuta holístico e estudante de História da Arte também na UFRJ). O símbolo é representado por um pássaro olhando para sua própria cauda. A imagem remonta a importância da consciência do passado para a ressignificação do presente e construção do futuro. Vale lembrar que, além de tudo, os sócios são pesquisadores. O primeiro dedica-se aos campos da Botânica, da Etnobotânica e da Saúde Coletiva da População Negra e o segundo às áreas do Afroempreendedorismo, Linguagens Estéticas dos Cultos de Matrizes Africanas e Tratamentos Holísticos.

"O objetivo é se tornar uma empresa referência em sustentabilidade, cosmetologia natural e empreendedorismo de favela. Mais especificamente, a ideia é criar uma rede de SPAs dentro das zonas periféricas do Brasil"

À ELLE Brasil, Cláudio revela que foi depois de muitas conversas nostálgicas dele com seu parceiro de negócios que surgiu a ideia de criar a Kurandé. Juntos, eles viajavam no tempo lembrando das habilidades manuais das matriarcas de ambas as famílias. Dona Rita, mãe de Cláudio, permeou a infância de seu filho com xaropes, chás e remédios caseiros à base de ervas. A bisavó de Felipe, por sua vez, era parteira e curandeira. Passou a vida atendendo à população de Japeri, no estado do Rio de Janeiro. A partir dessas memórias, os dois começaram, então, a correr atrás da materialização do que ainda era só um sonho. Começaram fazendo cosméticos naturais para dar uma complementada na renda até que, no dia 20 de julho de 2019, participaram de uma feira pela primeira vez, já sob o codinome Kurandé. E a resposta foi um sucesso: venderam todos os produtos que levaram para lá e descolaram uma série de encomendas. Depois disso, investiram na comunicação via redes sociais e não pararam de crescer desde então. Confira abaixo o nosso bate-papo com a dupla que respondeu em conjunto às perguntas da reportagem.

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A política da marca é pautada pela ancestralidade e sustentabilidade. Como isso acontece dentro da empresa?

A ancestralidade permeia tudo: desde o nome dos produtos até a própria marca em si que é construída sobre os saberes ancestrais. Alguma de nossas receitas atravessam gerações. São a junção de conhecimentos de nossas bisavós, avós e mães. É o pilar de construção da nossa marca. Além disso, quando falamos da nossa ancestralidade, também estamos falando de um profundo respeito às riquezas da natureza. Isso aparece na possibilidade de reuso de alguns produtos, mas pensamos em sustentabilidade em cada passo do desenvolvimento dos nossos cosméticos. A ideia é reduzir ao máximo a interferência que nossos resíduos possam causar ao ecossistema. O alinhamento entre ancestralidade e sustentabilidade é o que dá o tom da marca. Não à toa, nossas embalagens são reutilizáveis, modernas e nós não usamos ingredientes que possam agredir a pele.

Kurandé Cosméticos Naturais

Como a Kurandé trabalha a questão da produção local com foco global?

Ao produzir no Complexo do Alemão não estamos apenas quebrando estereótipos sociais, mas estamos, também e principalmente, trazendo um novo conceito de visibilidade periférica. Quando falamos de produção, estamos falando em gerar uma renda diferenciada, que trabalha não apenas o lado financeiro, mas que também visa a autoestima da população local e o consumo consciente e sustentável. É assim que construímos novos olhares sobre a diversidade na favela. Para nós da família Kurandé, produzir no complexão é conversar constantemente com nossa localidade, compreendendo que galgar novos espaços se torna uma ferramenta social para contribuir com a melhoria das condições ao nosso redor.

Como têm sido os negócios durante a quarentena?

Nosso modelo de negócios sofreu uma mudança gigantesca com a pandemia. No começo, não tínhamos uma presença digital consolidada. Estávamos somente no Instagram. Nosso maior desafio na quarentena foi o de digitalizar a empresa de modo a conseguir transmitir todos os nossos valores, mostrando para o mundo a beleza e a funcionalidade dos nossos produtos. A ideia era trazer a experiência física que vivíamos nas feiras e eventos para as plataformas digitais. Além disso, tivemos que operacionalizar todo o nosso processo de logística pensando em sustentabilidade e logística reversa nesse novo contexto. Em resumo, tivemos que nos readaptar. Mas, investimos na nossa capacitação e conseguimos tornar a empresa viável.

Quais são os seus planos para o futuro?

O objetivo é se tornar uma empresa referência em sustentabilidade, cosmetologia natural e empreendedorismo de favela. Mais especificamente, a ideia é criar uma rede de SPAs dentro das zonas periféricas do Brasil. Queremos oferecer não só os tratamentos, pensados e idealizados pelas formas ancestrais, mas também queremos nos tornar um centro de aprendizagem que, no futuro, vai trazer capacitação e gerar renda dentro das comunidades.


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