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Linha, agulha, tecido, saudade, lembranças dolorosas, felizes, histórias da maternidade. Desde agosto do ano passado, o projeto de bordado Retalhos de Memórias reúne em encontros virtuais quinzenais 13 mulheres da favela de Manguinhos, zona norte do Rio de Janeiro. Em comum entre elas, muito mais do que a vontade de aprender este ou aquele ponto, o fato de que encontraram ali um espaço de conforto para desabafar. Todas são vítimas da violência do Estado.

As reuniões são capitaneadas pelas Mães de Manguinhos – grupo formado em 2014 por mães que tiveram seus filhos mortos por policiais na favela – e acompanhadas por duas psicólogas do NAPAVE (Núcleo de Atendimento Psicossocial a Afetados pela Violência do Estado). Ontem (6.5), horas depois de uma operação da Polícia Civil matar 25 pessoas no bairro vizinho de Jacarezinho, elas se dirigiram para lá, relatando em uma live no Instagram o terror vivido pelos moradores.

"A ideia é fazer também uma formação política, elas terem o entendimento do por que nós somos vítimas. Então, a gente discute várias coisas. A violência policial, o encarceramento em massa. Tem mulheres que não perderam seus filhos, mas eles foram encarcerados. Algumas não são mães, mas são parentes. Essa conversa vem no meio do bordado. É um espaço para ouvir e falar também. A gente costuma dizer que é uma cura mútua", conta Ana Paula Oliveira, 44 anos, uma das fundadoras do projeto.

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O próximo dia 14 marca os 7 anos do grupo – o mesmo tempo que Ana espera por justiça no caso de seu filho. Em 2014, Johnatha, aos 19 anos, foi morto por um policial da UPP (Unidade de Polícia Pacificadora) com um tiro nas costas quando voltava da casa da namorada.

Coincidências dolorosas e a disposição para a luta uniram seu caminho ao de Fatima Pinho. Testemunha do assassinato de Johnatha, Fatima também lidava com o luto: em outubro de 2013 havia perdido o filho Paulo Roberto, aos 18 anos. Em uma abordagem policial, foi agredido até a morte. No tecido que Fatima está bordando lê-se "Nego vive". Nego é o apelido do filho. "Somos quatro Mães de Manguinhos, mas o bordado acolhe mais mulheres e essa passa a ser nossa ligação. Ter um contato, conversar, distrair e falar um pouco do que a gente viveu", diz Fatima.

Quem apresentou as duas foi outra integrante do grupo, Patricia Oliveira, 41 anos, irmã de Ana Paula. "Eu sofri bastante com a perda do meu sobrinho e via o sofrimento da Ana Paula, conseguia perceber que o ambiente familiar já não era o suficiente para que ela conseguisse extravasar a dor, a revolta. Aí encontrei Fatima, uma das testemunhas principais do caso do Johnatha, e pudemos começar uma ligação. Ela também era uma mulher sofrendo sozinha a perda do filho. Comecei a ir para as redes sociais. Vi que ia ter um ato e fomos juntas. Quando deram o microfone na mão dessas mães, com tanto sofrimento, com tanta vontade de fazer justiça, elas se encontraram na luta", relembra. Patricia embarcou também. "Eu não era engajada, mas comecei com elas." "Lágrimas de sangue", diz, inspiraram seu bordado. "Quando a gente está bordando, mesmo ouvindo um relato triste, a gente está focando em algo bonito, prazeroso. Isso, às vezes, é distante da nossa realidade no dia a dia. Nossos encontros nos trazem isso."

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Nora de Fatima, Ana Paula Epifânio Lopes, 27 anos, foi uma das acolhidas pelo Retalhos de Memórias. Depois de acompanhar de perto o caso do cunhado Paulo Roberto, viu um de seus irmãos, Rafael, 25 anos, cumprir dois anos de prisão por um crime que não havia cometido, e outro, Rodrigo, 31 anos, ser baleado pela UPP em Jacarezinho. "Foi em 2014. Ele era mototáxi, a polícia mandou parar, ele não ouviu, deram um tiro de fuzil na perna dele. Na época, ele sobreviveu, e lembro que a Marielle (Marielle Franco, vereadora assassinada em 2018) entrou em contato comigo oferecendo ajuda, porque o estavam acusando de ser assaltante. Eles atiram na pessoa e a pessoa precisa provar que é inocente. Há um mês, Rodrigo morreu depois de levar um tiro no abdome. Então, o grupo tem sido importante. Meu marido fica 'gente, é muita mulher falando junto'. Mas é um lugar onde você pode entrar e chorar. Todas vão compreender sua dor."

Durante as entrevistas por videoconferência, as Mães de Manguinhos mostraram seus bordados à reportagem.


"Estou cansada, mas tenho que seguir", escreveu Eliene Maria Vieira em um dos quatro tecidos que já bordou. A quarta integrante das Mães de Manguinhos chegou ao grupo em 2016. Saindo para trabalhar, seu filho (cujo nome ela prefere não revelar), de 19 anos, foi alvejado em uma operação da polícia às 5h. "Eu fui acordada, não morava aqui, vim correndo. Levei ele para o hospital. Chegando lá, ele ficou custodiado porque tinha sido atingido por bala. E ali começou a minha peleja. Me vi no chão. Ele ficou internado entre a vida e a morte, foi dada voz de prisão, e mesmo sem ter tido nada a ver, nunca ter tido passagem, foi sentenciado a 10 anos e 7 meses de prisão", conta.

O acolhimento do grupo naquele momento foi fundamental para que parasse de se culpar. "Eu tinha dado falso testemunho de crime, falei que ele tinha sido baleado na rua e não em uma operação, porque eu estava com medo de ele ser morto pela polícia. Isso constou ali. Perdi mais de 10 kg na época. Conhecer as meninas me fez entender que tudo isso é um processo genocida que já vem de anos. Desde quando os escravos foram sequestrados da África e vieram para cá. Aí passei a fazer parte da luta. E através da luta eu entendi os processos mesmo, na questão judicial." Conseguiu reverter a situação e hoje o filho está livre. "Foi praticamente inocentado. Mas quem devolve quase três anos de prisão? Quem devolve o tiro de fuzil que ele tomou? Se eu falar para você que hoje ele é um jovem normal, ele não é. Uma vez que baixa dentro do sistema, ninguém sai normal." Eliene, que até então havia trabalhado em grandes empresas privadas, hoje se dedica aos direitos humanos, prioritariamente contra o encarceramento em massa. "Toda vez que tem operação é na cabeça do meu filho que a polícia bota o fuzil, porque ele é jovem, negro, favelado, então, é o alvo. Por que em vez de investirem tanto dinheiro em poder bélico, caveirão aéreo, caveirão terrestre, construindo presídio, construindo socioeducativo, não constroem escola? Se você não sabe ler, não sabe seus direitos, não tem como brigar, vira massa de manobra. E essa é mais uma forma de genocídio."

"Antes de entrar para a luta, mesmo como moradora de favela, eu sempre fui aquela que saía de manhã para trabalhar, chegava em casa, fazia comida, cuidava dos filhos, botava na escola. Eu não tinha noção do que acontecia. Quando davam tiros, eu trancava a minha porta e ficava dentro de casa", relata Eliene. "Por ser uma mulher branca, mesmo tendo filhos negros, quando eles eram crianças, a abordagem era diferente. Eu tinha minha vida na bolha, até meu filho crescer e virar alvo", diz. "Antigamente, a gente tinha muito medo de que eles assassinassem os homens. O Sergio Cabral disse que a mulher favelada é fábrica de bandido (em 2007, Cabral, então governador do Estado do Rio, declarou que a favela da Rocinha era uma 'fábrica de produzir marginais', ao defender o aborto como medida para conter a violênica). Falavam que as crianças da favela não tinham pai. Não tinham porque eles matavam. Começaram assassinando os homens, agora os jovens, mas eles não estão satisfeitos com isso e começaram a assassinar as crianças. Sempre fui mãe solo. Eu tenho três filhos. Não tenho irmã perto, minha mãe já faleceu. Com meu pai, só convivi quando era criança. Sou praticamente sozinha e quando as meninas me acolhem, eu me sinto em família."

"Começaram assassinando os homens, agora os jovens, mas eles não estão satisfeitos com isso e começaram a assassinar as crianças." Eliene Maria Vieira

O projeto, viabilizado por um edital, tem uma limitação de participantes, já que o grupo disponibiliza, além do material, internet e estrutura para quem não tem, mas Eliene está sempre a postos para qualquer mãe com saudade do filho. "Para atender, a gente não tem limites de território. A internet nos proporcionou isso. Tem mães que ligam para a gente de madrugada. Aí é levantar, fazer um café, como se a gente estivesse juntas mesmo, e conversar. Elas querem relembrar 'quando ele caiu e ralou o joelho', 'quando caiu o primeiro dente', essas coisas assim, de mãe. Recordar dói, mas faz bem. Elas se sentem vivas", diz.

Recordar os últimos momentos com o filho é o que faz há um ano e sete meses Izabel Cristina Nascimento de Souza, 40 anos. Após pouco mais de um ano preso, Marcos Vinicios havia saído há 15 dias da prisão e morreu, no dia do aniversário dela, com uma tuberculose adquirida e não tratada quando estava encarcerado. "Tem dias que é difícil, mas eu me sinto bem quando estou do lado delas (no projeto). Ali, a gente se abraça. Foi a melhor coisa que me aconteceu. Porque tem pessoas que falam assim 'tem quanto tempo que seu filho faleceu? Então, já passou, né?', mas só a gente é que sabe", diz, exibindo orgulhosa seu bordado onde se lê, entre desenhos de corações, "Saudade dói muito. Vinicios".

Acolhida pelo projeto, Izabel é exemplo da transformação que os encontros proporcionam. Quando aceitou o convite, lembra Ana Paula Oliveira, a amiga achava que talvez sua história não se encaixasse na proposta do grupo, já que o filho não havia sido morto pela polícia. "Mas ele também foi uma vítima da violência. Eu falei pra ela: 'Seu filho entrou com saúde [na prisão] e o Estado o devolveu praticamente morto'. Passamos a conversar sobre isso e aí ela começou a ter esse entendimento de que ele tinha que ter tido um tratamento, acesso a medicamentos, não foi o que aconteceu. Agora, que ela possa ser uma multiplicadora também".

"Tem mães que ligam para a gente de madrugada. Elas querem relembrar 'quando ele caiu e ralou o joelho', 'quando caiu o primeiro dente', essas coisas assim, de mãe. Recordar dói, mas faz bem." Eliene Maria Vieira

No encerramento de Retalhos de Memórias, previsto para este mês, a ideia é juntar todos os bordados em um grande tecido, que será levado aos atos quando voltarem a acontecer. Mas a ideia é continuar bordando. "A gente está sempre nesse papel de cuidar, né? Cuidar do outro, da casa. Internalizar isso, que a gente também precisa ser ouvida, também é uma forma de ser cuidada. Ter um espaço onde a gente pode falar sobre tudo. Esse entendimento ainda é muito difícil. Mas é fortalecedor ver isso acontecer. A gente fala muito da saudade, das coisas que nós vivemos, das nossas dores, do amor pelos nossos filhos. Quando a gente consegue transpor isso para um pedaço de pano, fica uma coisa mais concreta. É nossa emoção, nosso sentimento se materializando nesse pedaço de tecido. Foi uma euforia quando começaram a sair os primeiros. Todo mundo queria mostrar e se emocionava", diz Ana Paula Oliveira. Nesta semana, às vésperas do Dia das Mães e do emblemático 14 de maio que levou Johnatha, ela terminou seu primeiro bordado, com a frase "Filho, te amo".

Entre os dias 10 e 14, as Mães de Manguinhos farão nas redes sociais lives e bate-papos sobre suas lutas nesses sete anos. "A gente estava outro dia gravando um vídeo no memorial (espaço na favela onde há placas com os nomes de todos os mortos), com a nossa bandeira, que tem a foto de todos os meninos. Passou um jovem de bicicleta, veio na nossa direção e abriu um sorriso. Ele falou 'meu irmão tá aí na bandeira'. O irmão dele, Mateus, foi uma das primeiras vítimas dos policiais da UPP aqui em Manguinhos. Foi assassinado em 2013 e, desde então, a gente procurava notícias da família, mas não encontrava. Foi muito importante para a gente, porque o sorriso que ele abriu foi de satisfação, 'meu irmão tá sendo cuidado, não foi esquecido'. Nossa luta é por eles que estão na bandeira, pela memória deles, para que as pessoas não esqueçam, porque enquanto a gente respirar a gente não vai deixar que esqueçam. Mas a nossa luta é principalmente por todos nós que estamos aqui na favela, queremos viver. Acho que a gente está no caminho certo, a gente tem conseguido transformar nossa dor em força", encerra, Ana Paula. Enquanto se despede comentando a correria por conta da intensa programação, faz lembrar Manuel Bandeira em Acalanto para as mães que perderam o seu menino: "A dor passará/ Como antigamente/ Quando ele chegava/ Dorme… Ele te nina/ Como se hoje fosses/ A sua menina".


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Nasce um novo ciclo da técnica, que já teve enorme alcance popular, como manifestação estética dentro da cultura funk nas periferias.


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