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O que parecia impossível está prestes a acontecer: neste domingo, 7 de agosto, o artista mais jovial e sedutor do Brasil completa 80 anos. Caetano Veloso comemorará a data redonda endereçando um presente para o exército admirador de sua eterna juventude, uma apresentação ao vivo via internet (na plataforma de streaming Globoplay) e televisão (no canal Multishow e com trecho exibido pelo Fantástico), às 20h30, ao lado dos filhos, Moreno, Zeca e Tom, e da irmã mais nova, Maria Bethânia.

Aparentemente inesgotável, a fonte da juventude mantém-se viva e vivaz, não apenas em Caetano, mas em uma série de oitentões e pré-oitentões (majoritariamente do sexo masculino) que segue ativa nos palcos da MPB, a exemplo de Chico Buarque, Erasmo Carlos, Gal Costa, Gilberto Gil, Jorge Ben Jor, Marcos Valle, Martinho da Vila, Milton Nascimento, Ney Matogrosso, Paulinho da Viola, Roberto Carlos, Tom Zé e Wanderléa, entre outros.

Sendo o aniversariante da vez também o mais cerebral entre todos eles, é natural que um dos modos de homenageá-lo seja por meio do lançamento de uma bateria de livros que revisam e vasculham sua obra, a começar por um assinado por Caetano em pessoa. Letras (Companhia das Letras), organizado pelo poeta Eucanaã Ferraz, cumpre o desafio de reunir pela primeira vez a totalidade dos textos musicais compostos pelo autor, contabilizados em 390 canções desde 1965 até o momento presente. Não estão incluídas composições de que o autor participou criando apenas a melodia nem interpretações de temas de outros autores, também numerosas em 57 anos de obra gravada.

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Fotos: Divulgação


Mas a homenagem literária mais afetuosa e generosa se chama Lado C - A trajetória Musical de Caetano Veloso até a reinvenção com a bandaCê (Máquina de Livros), assinada pelo jornalista Luiz Felipe Carneiro e pelo pesquisador Tito Guedes, autor de Querem acabar comigo - Da jovem guarda ao trono, a trajetória de Roberto Carlos na visão da crítica musical. Como numa homenagem ao mito de jovialidade do muso, os dois autores fogem do lugar-comum e se dedicam a mergulhar na produção mais recente de Caetano, já no século 21. Munido de farta contextualização histórica e visitas a diversas outras fases musicais do artista, Lado C centra fogo particularmente na trilogia dita roqueira de Caetano, desenvolvida nos álbuns (2006), Zii e Zie (2009) e Abraçaço (2012), todos sob direção musical do filho Moreno e de Pedro Sá e com acompanhamento do power trio formado por Sá, na guitarra, Ricardo Dias Gomes, no baixo e nos teclados, e Marcelo Callado, na bateria. Afinal batizado de bandaCê (com essa grafia), o trio conduziu Caetano à elaboração de “transrocks" influenciados por Lou Reed, Black Sabbath, The Clash, Pixies e The Strokes, dos “transambas" de Zii e Zie e de funks cariocas, raps paulistas e pagodes baianos, igualmente trans, em Abraçaço.

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Com depoimentos dos músicos e do próprio Caetano, o livro destrincha a produção do artista em seus últimos cinco álbuns de material inédito, desde Noites do Norte (2000) até o recente Meu coco (2021), coproduzido pelo ainda mais jovem Lucas Nunes, integrante das bandas Dônica e Bala Desejo. Lado C desnuda, mais que uma nova reinvenção de Caetano junto a um público igualmente rejuvenescido, uma revolução individual vivida pelo artista que entrava na casa dos 60 anos no início da fase .

As rupturas desse período foram musicais, mas não apenas. Em 2004, Caetano separou-se de Paula Lavigne, com quem foi casado desde 1986. Simultaneamente, o músico interrompia a ligação com o maestro, violoncelista, produtor musical e arranjador Jaques Morelenbaum, que vinha de trabalhos ao lado do mestre bossa-novista Tom Jobim e passou a acompanhar Caetano em 1992, após tocar violoncelo em algumas faixas do disco Circuladô (1991). A erudição de Morelenbaum compôs uma fase mais solene e sisuda do artista, marcada pelos projetos Fina estampa (1994), de cancioneiro latino-americano em espanhol, e A foreign sound (2004), em inglês.


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Sobre , disse Caetano, em 2006, no material de divulgação do álbum: “Ele me livra um pouco de mim mesmo para que eu me aproxime mais de ser quem sou”. Dono de depoimentos saborosos em Lado C, Jaques Morelenbaum interpreta no livro a separação musical: “O Caetano se separou da Paula e do seu diretor musical ao mesmo tempo, e foi viver uma segunda juventude ao lado de namoradas, de argentinas e de uma banda de garagem formada por meninos bonitos”.

Mesmo envolta em atmosfera frequentemente depressiva (em faixas como “Minhas lágrimas”, no primeiro volume, ou “Estou triste”, no terceiro), a trilogia veio ao mundo grávida de sexo e de ira, o que certamente ajuda a explicar seu impacto junto a gerações bem mais novas, à medida que as ondas de raiva e ódio se avolumavam pela internet dos anos 2000, 2010 e 2020.

Adentrando na terceira idade em , Caetano espalhou erotismo em “Outro" (“Feliz e mau como um pau duro”), “Deusa urbana” (“Mucosa roxa, peito cor de rola”), “Musa híbrida” (“Teu buço louro/ Meu canto mestiçoso”) e “Porquê?” (“Estou-me a vir”, anunciando a chegada de um orgasmo). Em sentido diverso e complementar, exorcizou rancores em “Rocks" (“Você foi mor rata comigo”), “Odeio" (“Odeio você”, repete um refrão favorito das plateias renovadas) e outras. Na confluência das vertentes erótica e mórbida, “Homem” (“Eu sou homem/ Pele solta sobre o músculo/ Eu sou homem/ Pelo grosso no nariz”) explicitou um subtexto latente em , o da investigação temerosa sobre o processo de envelhecimento: “Não tenho inveja da adiposidade/ Nem da menstruação/ Só tenho inveja da longevidade/ E dos orgasmos múltiplos”. A experimentação se expandiu nos dois álbuns seguintes, com novas explorações sexuais e/ou provocadoras, por exemplo em “Amor mais que discreto” (2007), de pendor gay, “Tarado ni você” (2009), ou “A bossa nova é foda” (2012).

Caetano Veloso - Homemwww.youtube.com


Em 2011, o elixir rejuvenescedor da trilogia expandiu-se para um quarto elemento, o álbum Recanto, de Gal Costa, composto e produzido por Caetano com outro power trio (guitarra e violão de Pedro Baby, baixo de Bruno di Lullo, bateria e programações eletrônicas de Domenico Lancellotti), com canções experimentais como “Autotune autoerótico” e “Sexo e dinheiro” e mais um tratado sincero sobre o envelhecimento, “Tudo dói”. “Esse disco me gera até uma ansiedade. É quase como se ele estivesse me dizendo: ‘Acorda, mulher!’”, descreveu Gal, segundo os autores de Lado C.

Outro traço forte de transformação do Caetano do século 21 aparece em “Um comunista”, canção de Abraçaço inspirada na saga do guerrilheiro Carlos Marighella. Esse é decifrado em outro livro recém-lançado, Lançar mundos no mundo: Caetano Veloso e o Brasil (Fósforo), assinado pelo arquiteto e ensaísta Guilherme Wisnik. Reedição ampliada de um trabalho originalmente lançado na série Folha Explica (Publifolha, 2005), o livro agora rebatizado percorre habilidosamente toda a produção musical de Caetano, e também avança com apetite especial na produção recente do compositor, em especial no capítulo final, “Careta, quem é você? - A potência do Brasil, 2006-22”.

Wisnik destaca a afinidade de Caetano com o ideário neoliberal dos anos 1990, sob Fernando Henrique Cardoso (“o compositor era visto por muitos como um ideólogo do governo no mundo artístico”). E retorna à reação da mãe do artista, em 2009, a declarações do filho sobre o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em termos como “analfabeto”, “cafona” e “grosseiro”. “Dona Canô prontamente respondeu na imprensa, como quem passa um pito no filho falastrão: ‘Vou me desculpar (…) não é possível que ele chamasse Lula de analfabeto, aliás, ele nem teria o direito de falar assim. Ele é apenas um cantor’”, documenta Wisnik. Por fim, retrata a perda relativa do medo do comunismo, presente não só na canção “Um comunista”, mas também em entrevista de Caetano a Pedro Bial na Globo, já em 2020. “Afastando-se elegante e incisivamente de Bial, referiu-se autocriticamente à própria posição anterior, dizendo não ser mais ‘liberaloide’ como era”, escreve Wisnik, não sem aventar a hipótese de “uma certa malandragem (…) de quem quer estar atualizado e afinado à opinião dos jovens” por trás da guinada.



Como mostra Lado C, a trilogia não apenas começou, mas também terminou com acontecimentos de impacto. Dona Canô morreu em 25 de dezembro de 2013, aos 105 anos. Antes, no calor das Jornadas de Junho, desenvolveu-se a polêmica em torno do lobby encampado por Caetano, Chico, Milton, Roberto, Erasmo e Djavan, para que livros biográficos dependessem de autorização prévia das personalidades públicas focalizadas. Fato raro, a opinião pública ficou majoritariamente contra os heróis da MPB, fazendo com que Caetano voltasse atrás em sua posição. A exigência caiu no STF em junho de 2015, o mesmo mês dos últimos shows de Abraçaço e do encerramento da fase , depois de nove anos. Ainda nesse ano, Caetano retomou o casamento com Paula Lavigne (que nunca deixou de ser sua empresária), 12 anos após a separação. No multigeracional Meu coco, também examinado nos dois novos livros, convivem Morelenbaum, Pedro Sá e Lucas Nunes. Wisnik encerra seu Lançar mundos no mundo prevendo caminhos promissores para o Brasil pós-Meu coco e pós-pandemia, no embalo de canções como “Não vou deixar”.

O inimaginável aconteceu, e o Peter Pan da MPB já é nosso avô.

Um quarto livro a comemorar os 80 anos de Caetano percorre caminhos mais leves e despretensiosos. Outras palavras - Seis vezes Caetano (Record), do jornalista Tom Cardoso, coleta frases, depoimentos e escritos do (e sobre o) compositor ao longo das décadas, estabelecendo nexos por vezes pitorescos. Retoma, por exemplo, os contatos desencontrados de Caetano, desde antes de se tornar celebridade, com um de seus ídolos literários, a escritora Clarice Lispector. “Assombra-me que ela tenha tido uma reação de starlet mídia-freak: atribui a Dedé, minha namorada na época, um ataque de ciúme que não se deu absolutamente”, escreveria Caetano muitos anos depois da morte de Clarice.

Outras Palavras se desenrola entre episódios divertidos e semifofoqueiros, envolvendo João Gilberto, Bethânia, Waly Salomão, Chico Buarque, Fagner, Fernando Collor, Marcelo D2, Luana Piovani, Elis Regina, Roberto Carlos, Fidel Castro, Roberto Marinho… Em comparação com os outros livros, Outras Palavras serve por vezes como alívio cômico, em geral alimentando o folclore já vasto em torno do mais novo oitentão brasileiro. Em parte desprezando o mito cruel de uma juventude que nunca terminasse, Caetano Veloso responde aos novos tempos cantando “Não vou deixar” para o neto: “Eu grito e repito, eu não vou!/ o menino me ouviu e já comentou/ o vovô tá nervoso, o vovô/ nervoso, teimoso, manhoso”. O inimaginável aconteceu, e o Peter Pan da MPB já é nosso avô.

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