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Parece que todos nós estamos ansiosos para ver o ano findar. 2020 já deu, né? Queremos mesmo é virar a página e deixar a pandemia para trás, em qualquer lugar do passado, esquecida. Eu confesso que estou igualmente ansiosa para a virada do ano, mesmo sabendo que jogar o calendário deste ano no lixo não vai, na prática, significar grandes mudanças. Talvez estejamos tão exaustas que este simples ato simbólico nos pareça suficiente para renovar os ânimos.

Há outra coisa que eu devo confessar, porém: não consigo parar de pensar que a pandemia está se desenhando, cada vez mais, como uma lição com a qual nada aprendemos. A ansiedade para deixá-la no passado é compreensível e compartilhada, mas ela trouxe à tona muitas coisas que não podemos nos dar ao luxo de esquecer como, por exemplo, o quão longe estamos de um modelo econômico e social que preze pela vida das pessoas.

Para quem está familiarizado de alguma forma com a crise climática, observar as consequências da pandemia é como ter uma leve amostra do porvir. Quando observamos como as lideranças políticas, empresariais e até parte da sociedade estão lidando com a crise da Covid-19, e olhamos para a inação frente ao aquecimento global e ao colapso do clima, nós não precisamos ser futuristas para saber que estamos em maus lençóis e absolutamente ferrados.

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Não importa quantas vezes você leia a palavra "sustentável" em anúncios de marcas "amigas do planeta", não há nada de sustentável num modelo econômico dependente do excesso – de produção, consumo e descarte de coisas inúteis – e que não consegue chegar num denominador comum para enfrentar a maior ameaça à vida na Terra; ameaça criada e exponenciada por esse próprio modelo. A moda, inclusive e como sempre, é um excelente exemplo neste debate.

"Não importa quantas vezes você leia a palavra 'sustentável' em anúncios de marcas 'amigas do planeta', não há nada de sustentável num modelo econômico dependente do excesso."

Mais de uma vez durante esse 2020 doido me perguntaram: "o que a moda aprendeu com a pandemia?". Para ser honesta, eu não sei o que as pessoas diversas que formam esse rolê chamado moda aprenderam, mas sei o que eu gostaria que todas e todos tivessem aprendido: que a promessa de uma indústria criativa e próspera nos moldes neoliberais é uma falácia. A indústria da moda é (parafraseando Darcy Ribeiro) um "moinho de gastar gentes", tanto no campo material quanto simbólico. E é absolutamente desnecessária, pelo menos como está posta desde o seu início.

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Durante o Copenhagen Fashion Summit 2020, o evento de moda e sustentabilidade mais importante do mundo, houve muita conversa sobre fornecedores que ficaram no escuro. Sem poder despachar pedidos e sem receber os pagamentos devidos, as pessoas da base da rede produtiva ficaram sem o mínimo. Os trabalhadores têxteis da Índia e Bangladesh foram duramente afetados. No Brasil, não foi muito diferente e, em São Paulo, a comunidade migrante foi uma das que mais sofreu com a paralisação abrupta.

Se estamos destruindo o planeta em nome da economia e do emprego, eu espero que tenha ficado claro para quem ainda tinha alguma dúvida que estamos fazendo isso errado. Apenas uma pequeníssima parcela da população está se beneficiando e tem garantias com esse modus operandi: os bilionários comprando bunkers na Nova Zelândia para se proteger do fim do mundo. O resto de nós está se virando, dentro das suas possibilidades e privilégios, como pode.

A indústria global da moda produziu cerca de 2,1 bilhões de toneladas de gases de efeito estufa em 2018, o equivalente ao total de todas as emissões da França, Alemanha e Reino Unido combinadas.

Como ficaremos quando as consequências das mudanças climáticas se espalharem por todos os lados – e não se concentrarem só nos países insulares ou nas zonas rurais – como a pandemia? Segundo o relatório Fashion on Climate, a indústria global da moda produziu cerca de 2,1 bilhões de toneladas de gases de efeito estufa (GEE) em 2018, o equivalente a 4% do total global – ou o total de todas as emissões da França, Alemanha e Reino Unido combinadas. Se nada for feito – e pouco está sendo feito – esse número deve chegar a 2,7 bilhões até 2030, quando deveríamos diminuir as emissões em, ao menos, 7% ao ano segundo o Acordo de Paris. Bom, nós já sabemos quem são os ganhadores e os perdedores quando o caos se instala.

Eu sei, eu sei. Talvez não fosse isso que você gostaria de ler numa coluna de final de ano. Porém, precisamos ficar absolutamente desesperançosos. Os danos da destruição ambiental são socializados enquanto os lucros privatizados – e, como podemos ver claramente durante a pandemia, a indústria da moda opera na mesma lógica. Interferir nesse processo está ficando cada vez mais difícil com o pouco que temos de democracia em crise pelo 13º ano consecutivo. Passamos muito tempo sendo iludidos pela espera da esperança. Agora, só nos resta a coragem da desesperança. Lênin, Agamben e Žižek, cada um em seu tempo, perceberam que a desesperança é uma arma poderosa contra o poder hegemônico. Deixar o ódio pelas injustiças emergir e fazer alguma coisa com ele.

A desesperança pode nos mover para encontrar as respostas para as perguntas mais inquietantes da nossa indústria: como podemos libertar a criatividade da lógica esmagadora do mercado? Como podemos transformar nosso ofício em algo que constrói e não destrói? Como podemos garantir dignidade para todas as pessoas que trabalham na moda? Como podemos nos preparar, coletivamente, para as consequências já dadas da crise do clima, reconhecendo que algumas pessoas na nossa indústria vão sofrer mais que outras, e, ao mesmo tempo, trabalhar para construir uma lógica de produção e consumo realmente sustentáveis?

"Se quisermos tirar algo de bom do caos que se abateu sobre nós em 2020, e seguirá em 2021, precisamos estar dispostos a sentar na cadeira das conversas difíceis, deixar de lado as ações esparadrapo e mergulhar na raiz dos problemas."

São perguntas complexas para as quais encontraremos as respostas se procurarmos para além da moda. Elas exigem também um senso de responsabilidade e coletividade que é raro na sociedade atual, porém são imprescindíveis para a transformação. Se quisermos tirar algo de bom do caos que se abateu sobre nós em 2020, e seguirá em 2021, precisamos estar dispostos a sentar na cadeira das conversas difíceis, deixar de lado as ações esparadrapo e mergulhar na raiz dos problemas. Sim, precisaremos de muita radicalidade, um mar de desesperança e muita coragem para encararmos a realidade sem filtros e, ao mesmo tempo, tentar suplantá-la.

Marina Colerato é bacharel em Design de Moda pela Belas Artes, pós-graduanda em Gestão de Projetos pela FGV, pesquisadora independente de economia política,mudanças climáticas e questões de gênero. É editora chefe do site Modefica e é co-fundadora da agência de design e comunicação Futuramoda. Organiza o Buen Vivir Book Club, clube de leitura focado em pós-capitalismo e ecologia a partir de uma perspectiva latino-americana.



Moda, é bom lembrar, não é só roupa. Arte, arquitetura, design, beleza, os lugares que vamos e a forma como nos portamos ou falamos estão sujeitas à moda — e igualmente por meio deles buscamos expressar nosso verdadeiro eu. Mas, como você talvez já tenha notado, não temos conseguido muito bem.

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