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E se... a gente descolonizasse a sustentabilidade na moda?

Sustentabilidade é sobretudo sobre outras formas de habitar o mundo. A imagem de CEOs europeus em salas com ar condicionado discutindo sobre "energia limpa" está longe de contemplar a sustentabilidade como um todo.

Foto Getty Images
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"O Brasil está tão atrasado em se tratando de sustentabilidade". Eu não sei quantas vezes já ouvi isso nos últimos seis anos, mas posso dizer que foram muitas. Os exemplos que pipocam para ilustrar como os países do Norte global, principalmente os da Europa Ocidental, são "avançados" quando falamos do tom de verde normalmente giram em torno de reciclagem de lixo, consciência ambiental da população e tecnologias sustentáveis. Mas quando olhamos de perto e estressamos esse debate, fica claro que há muito mais mito do que verdade nessa história. O papo sobre sustentabilidade em geral – e na moda especificamente – tem uma visão tão colonizada quanto nossa percepção sobre beleza, estética, cultura, bem-estar, etc.

Começo colocando os três mitos sob escrutínio de forma simplificada. Primeiramente, podemos destacar que países do Norte têm uma longa história de transferência de ônus dos resíduos do seu hiperconsumo. Em 2015, o Reino Unido, sozinho, era responsável por exportar anualmente 351 milhões de quilos de roupas usadas (o equivalente a 2,9 bilhões de camisetas) para países como Polônia, Gana, Paquistão, Ucrânia e Benin. A mesma lógica se aplica ao lixo plástico, por exemplo. Oriundo dos Estados Unidos, Austrália e alguns países da Europa, o lixo do Norte tem soterrado comunidades na África, Ásia e América Central. Há uma série de razões para isso acontecer, mas duas se destacam: empresas não estão interessadas em se responsabilizar, então poluir outros países é mais fácil do que lidar com o próprio lixo. Ocidental.

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O fast fashion é, afinal, uma criação europeia que transformou completamente as dinâmicas da indústria da moda e, consequentemente, do consumo de moda, tornando-o cada vez mais insustentável.

Quando se trata de consciência, é preciso lembrar que o consumo de roupas está projetado para crescer em 102 milhões de toneladas em volume até 2030, segundo o relatório Pulse of The Fashion Industry de 2019. Embora parte desse crescimento esteja relacionada ao aumento da classe média em países como Índia e China, na Europa e Estados Unidos ele tem sido impulsionado pelo fast fashion e o aumento na velocidade do consumo e descarte de peças de roupas nos últimos 15 anos. O fast fashion é, afinal, uma criação europeia que transformou completamente as dinâmicas da indústria da moda e, consequentemente, do consumo de moda, tornando-o cada vez mais insustentável.

Tecnologias verdes são a cereja do bolo do debate e normalmente são utilizadas como forma de permitir a continuidade do hiperconsumo dos países do Norte por meio do uso mais eficiente de recursos. Mas existe um paradoxo, conhecido como Paradoxo de Jevons, responsável por apontar que o desenvolvimento tecnológico que aumenta a eficiência no uso de determinado recurso tende a, paradoxalmente, aumentar a taxa de uso deste recurso. Em outras palavras: uma tecnologia "sustentável" para aumentar eficiência do uso de energia vai, paradoxalmente, aumentar o uso de energia em si. Você pode pensar em um cachorro correndo atrás do próprio rabo sem sair do lugar. Tecnologias sustentáveis têm, com algumas exceções, sido o rabo do cachorro. Ademais, e muito importante ressaltar, para que lojas de roupas na Europa sejam equipadas com "tecnologias sustentáveis" uma boa dose de matérias-primas, como lítio, precisa ser minerada nos países do Sul. E a mineração é tudo menos "verde" ou "sustentável".

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Os fazeres e os saberes do Sul para sustentabilidade

Mas se as promessas de tecnologia verde, reciclagem e consciência ambiental vindas da Europa não serão capazes de nos salvar, o que será? Primeiramente, é preciso reconhecer que a indústria da moda é global e, majoritariamente, dependente dos países do Sul para produção de matérias-primas e confecção das roupas. Seguindo princípios coloniais, são o Brasil, a Índia, a China e outros países "subdesenvolvidos" que servem de alicerce para a indústria com commodities e mão de obra barata. São nesses países que os danos do alto uso de agrotóxicos na produção de algodão ou o descarte incorreto de químicos no tingimento de têxteis, por exemplo, ficam e são socializados. A estratégia de "limpar" a Europa às custas do Sul global foi amplamente difundida e aplicada desde o Consenso de Washington, portanto é no mínimo ingênuo acreditar que sem romper com o colonialismo, inclusive na mentalidade dominante sobre sustentabilidade, conseguiremos algum tipo de avanço na agenda socioambiental.

Romper com o colonialismo é um processo que exige, entre outras coisas, reconhecer e valorizar os modos de vida e saberes locais, muito mais conectados à sustentabilidade do que imaginamos. Eu não consigo pensar em nada mais sustentável do que a produção brasileira de algodão agroecológico responsável por, sobretudo, garantir soberania alimentar e qualidade de vida no campo por meio de um processo de produção integrado à terra e a demandas realistas (e não forjadas) de consumo. Tampouco poderia deixar de citar Ailton Krenak quando ele contrapõe ao capitalismo global e ao consumismo as cosmovisões dos povos originários, responsáveis por preservar 80% da biodiversidade do planeta e segurar as últimas barreiras que nos protegem do colapso climático. Tecnologias sociais, como aquelas nascidas e criadas no seio da necessidade de sobreviver e viver, são ferramentas importantes para pensar outros modos de existir e fazer negócio.

Romper com o colonialismo é um processo que exige, entre outras coisas, reconhecer e valorizar os modos de vida e saberes locais, muito mais conectados à sustentabilidade do que imaginamos.

Sustentabilidade é sobretudo sobre outras (e diversas) formas de habitar o mundo. A imagem de CEOs europeus em salas com ar condicionado discutindo sobre "energia limpa" para garantir redução dos gases de efeito estufa nos seus relatórios de sustentabilidade corporativa está longe de contemplar a sustentabilidade como um todo. Mais do que isso, tem se mostrado cada vez mais ineficaz para lidar com os problemas socioambientais vigentes, principalmente com a crise do clima. Descolonizar a moda não é um voltar ao passado nostálgico e perfeitamente intocado, pelo contrário. É caminhar para frente rumo à valorização de saberes sistematicamente negados, mas que podem garantir qualidade de vida próspera na Terra para todos e transformar nossa relação com a moda, com as pessoas, com as coisas e com o planeta.

Marina Colerato é bacharel em Design de Moda pela Belas Artes, pós-graduanda em Gestão de Projetos pela FGV, pesquisadora independente de economia política,mudanças climáticas e questões de gênero. É editora chefe do site Modefica e é co-fundadora da agência de design e comunicação Futuramoda. Organiza o Buen Vivir Book Club, clube de leitura focado em pós-capitalismo e ecologia a partir de uma perspectiva latino-americana.


Moda, é bom lembrar, não é só roupa. Arte, arquitetura, design, beleza, os lugares que vamos e a forma como nos portamos ou falamos estão sujeitas à moda — e igualmente por meio deles buscamos expressar nosso verdadeiro eu. Mas, como você talvez já tenha notado, não temos conseguido muito bem.


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