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Um divórcio anunciado em looks

Em sua coluna, o editor de moda e fã confesso de Kim Kardashian, Lucas Boccalão, analisa como o relacionamento com Kanye West influenciou o estilo da celebridade e o que pode mudar daqui para frente.

Foto: Getty Images
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Deu no Page Six: Kim Kardashian e Kanye West, aka Kimye, estão supostamente se divorciando. Foi na madrugada desta quarta-feira que a notícia ganhou o mundo e, pela manhã, vários outros veículos já tinham suas próprias fontes sobre a separação. Boatos já davam conta de complicações nas relações ao longo de todo 2020 e até antes disso. Mas dilemas matrimoniais não vêm ao caso. O que interessa a esta coluna é o que acontecerá com o estilo da mulher mais fotografada do mundo, uma vez livre da influência do então (e possível ex) marido.


É que existem duas Kim, ou melhor, duas imagens de Kim: a pré-Kanye e a pós-Kanye. A primeira vez que a vimos foi no início dos anos 2000, quando trabalhava com a amiga Paris Hilton. E, como pedia a moda da época e sua entourage, os looks eram bastante flashy: brilhos mil, cintura baixa, cores espalhafatosas e um exagero glam bem característico daqueles tempos pré-Instagram, pré-smartphone.

Kim e Kanye se conheceram naquela época, mas nem confiança. Só ficaram amigos mesmo em 2008. O namoro foi oficializado em 2011, quando começou o processo de transformação. Em um dos episódios da sétima temporada do reality show Keeping Up With The Kardashians, o rapper aparece com a stylist Renelou Pandora, responsável pelos looks de seus clipes, jogando quase todo armário de Kim fora. Em seguida, chegam araras e mais araras com alguns dos itens mais desejados (e sofisticados) do momento: saias lápis e tops estruturados da Lanvin por Alber Elbaz, camisas, jaquetas e blazers da Céline ainda comandada por Phoebe Philo, pencas de looks dos amigos Riccardo Tisci, então na Givenchy, e vestidos poderosos da Balmain de Olivier Rousteing.

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O que muita gente não sabe é que o extreme makeover de Kim tinha uma musa inspiradora, nos bastidores por pouco tempo: Christine Centenera. A atual diretora de moda da Vogue Austrália já prestava consultoria para a marca homônima de Kanye (que desfilou apenas duas estações em Paris) antes da Yeezy e tomou as rédeas dessa missão. Na época, foi especulado que ela teria recebido um milhão de dólares para ficar responsável pelos looks da maior estrela de reality show do mundo. Fato ou não, é inegável a influencia de sua estética na marca de Kanye e, principalmente, na imagem da Kardashian.

Foto: Getty Images

Christine Centenera.


Christine tem um estilo cool, com influências minimalistas, cartela geralmente monocromática e um olhar sofisticado para a mistura de alfaiataria rigorosa com peças sexy e roupas esportivas. Essa combinação resume a moda da última década e a consultora, sem dúvida, faz parte da turma que carregou o streetwear para o mercado de luxo junto a Kanye e Virgil Abloh. Além de amiga de ambos, Centenera é a stylist fixa de Virgil na Vuitton e assina todos os desfiles e campanhas.

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De volta a Kim, as duas viraram grandes amigas e Christine representa o primeiro momento da revolução estética da rainha dos paparazzis. Até a sua beleza virou uma interpretação dos looks da stylist. O corte médio repicado foi reproduzido, saíram os cílios postiços e apliques de cabelo e a maquiagem ficou mais natural, com boca sempre nude e olhinho preto esfumado. Muita saia mídi, bota over the knee, sandálias de salto agulha e amarração. A febre das chockers e colares de placa de metal são dessa época também. Não podemos esquecer dos corsets e variação da peça usados por cima de camisas, camisetas, blazers e vestidos, uma verdadeira obsessão de mulheres pelo mundo naquela época, até hoje ainda presente nas ruas e passarelas.

Depois de Christine veio a fase Yeezy. Kanye criava suas campanhas a partir de fotos de sua esposa com looks totais da marca no melhor estilo street style. Como visto na série de reality show, Kim, junto de sua assistente, ia para algum lugar do mundo, chamavam paparazzi e fotografavam dezenas de looks por dia pelas ruas. Ela se trocava dentro de carros, banheiros públicos e todos seguiam clicando.


A subversão das fotos de paparazzi, aparentemente espontâneas, nada mais era do que a edição mais inteligente de um editorial da "vida real", que de real mesmo não tinha nada. Poucas horas depois, as imagens já estavam em todos os blogs, sites e perfis de Instagram dedicados apenas aos looks dela, responsáveis por influenciar mulheres do mundo inteiro e criar desejo pelas peças que seu marido lançaria em parceria com a Adidas, dias depois.

Foi quando se consolidou o look moletom, legging e salto alto. Body com calça de moletom ou nylon e tênis (tudo Yeezy, claro!). As bermudas ciclistas, os óculos espelhados, a cartelas monocromática, os tons lavados e os coletes utilitários à la Helmut Lang que são vistos nas araras da Zara e milhões de lojas pelo mundo até hoje vieram daí.

Foto de Kim Kardashian. Kim Kardashian com look exclusivo feito por Thierry Mugler.Foto: Getty Images

Mais dona de si e com o olhar treinado, Kim começou a explorar a moda vintage e elegeu seu ícone máximo: Cher. Da diva, veio o cabelo ultra longo, a fase das saias até o chão com top cropped para o tapete vermelho, os brincões e uns toques 70's aqui e ali. Pouco tempo depois, já com o mundo da moda inteiro aos seus pés e em busca de mais exclusividade, desenvolveu relações próximas com os estilistas ícones dos anos 1980 e 90, como Vivienne Westwood e Thierry Mugler. Agora, em vez de apenas usar peças vintage dos dois, tinham looks exclusivos criados por eles (Mugler, depois de 20 anos sem desenhar para sua marca homônima, fez seu look do baile do MET de 2019).


Agora, com o plano de se formar advogada e trabalhar pela reforma das leis prisionais estadunidenses, o estilo de Kim é uma grande mistura de toda essa jornada. Mais coberta, mas não menos sexy, ela visita a Casa Branca com costumes de blazers oversized e calças amplas e deixa suas experimentações para as festas e ocasiões especiais. Sua última ousadia fashion foi o polêmico look de alta-costura desenhado por Daniel Roseberry, diretor criativo da Schiaparelli. O busto de couro com saia verde, usado na noite de Natal (diz que Kimye passaram as festas de fim de ano separados), dividiu opiniões e gerou vários memes comparando-o à fantasia do incrível Hulk. Eu, Lucas Boccalão, fã confesso, preciso admitir que achei um horror.


Gostos à parte, o que fica claro é que, com seu casamento já não muito bem, Kim vinha dando sinais de independência ou rompimento com o próprio closet. Suas preferências mais evidentes, ainda que algo influenciadas pelos anos passados com o marido, indicam uma possível ruptura e autonomia de estilo. E uma que, com certeza, será observada bem de perto por todo mundo.



Seria o fim do streetwear na moda? Apesar das falas e previsões apocalípticas, é praticamente impossível que o lifestyle vá embora tão cedo – ainda que ele venha se transformando nos últimos anos.

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