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Na noite do segundo domingo de maio, fotos de pedestres clicadas por Bob Wolfenson em diferentes cidades do mundo, extraídas da exposição Nósoutros (2017), foram exibidas em larga escala na fachada de um prédio, na avenida São João com a Duque de Caxias, em contraponto ao vazio do centro da cidade. A performance, em plena quarentena, foi concebida em família: o fotógrafo contou com as mãos e ideias das filhas, Helena e Isabel, além uma equipe de colaboradores.

Os meses que antecederam este período de isolamento também não foram fáceis para Bob. Foi "choque sobre choque", nas palavras dele. Em agosto passado, ele perdeu uma grande amiga, a escritora Fernanda Young. Em fevereiro, um temporal provocou uma inundação que atingiu pela segunda vez, em 15 anos, seu estúdio em São Paulo. As águas afetaram 80% do seu arquivo físico, dos anos 70 até o início dos anos 2000.

Na primeira enchente, em 2005, ele teve que deixar o espaço de barco. Desta vez, o fotógrafo teve o socorro valioso da equipe do Instituto Moreira Salles, que provou ser possível recuperar os negativos danificados, um trabalho que lhe custará tempo e milhares de reais. Mas Bob também viu um novo sentido para as fotos que estavam engavetadas com a ação das águas. "As sobras e restos me interessam. Não sou eu quem vai ficar no porto chorando", escreveu, lembrando Cazuza e Jards Macalé, em seu perfil Instagram, onde compartilhou em diversos posts todo o episódio. Em junho, lança um livro com as imagens naufragadas, Sub/Emerso (Editora Ipsis), dentro do projeto Quarentena Books, com lucros doados aos mais vulneráveis nesta pandemia.


Às vésperas do isolamento, Bob, 64 anos, engavetou um projeto maior, quando se preparava para despachá-lo para a gráfica: o primeiro de quatro fascículos de fotos que comemoram seus 50 anos carreira, que completará em outubro. Moda, retratos, observações e nus, um caderno a cada trimestre, eles se tornariam – e, quem sabe, ainda se tornarão – um livro no fim do ano.

Em casa, de bermuda e camiseta e com uma pausa para atender a porta, ele falou por Zoom sobre a enchente em seu estúdio, o impacto da pandemia na fotografia e na moda, sua relação intensa com o Instagram, o sentimento de emancipação e os planos para tirar o pé do acelerador que esta quarentena provocou nele.

Como tem sido sua quarentena? Como você tem procurado manter sua saúde mental?

Sou muito ativo, muito ansioso. Foi difícil conter isso entre quatro paredes. Agora estou acostumado, vi que sou bem adaptável. E pude refletir sobre coisas que eram muito difíceis de eu pensar, como o dia em que eu parar, como vou fazer com o estúdio [Bob também subloca o espaço para outros fotógrafos]. Até agora não tomei nenhuma decisão. Mas vejo muita gente vivendo no interior, produzindo fora dos centros. Me deu uma impressão de que, se quiser, posso me recolher, numa boa.

E como tem sido sua rotina?

Interessante. Acordo, faço ginástica, resolvo um monte de coisas – é incrível o número de demandas. E a ainda tem as ocupações da casa: cozinhar, lavar a louça, limpar a casa, limpar a casa do cachorro. Eu gosto de cozinhar, não gostava. Fui aprendendo, minha mulher [Mariza] foi me ensinando. Aprendi a fazer arroz, feijão.

Você fotografou nesse período?

Fiz umas fotos [encomendadas] via WhatsApp. Logo no início da quarentena, saí de carro para fotografar pela cidade, quando ela estava bem vazia. Depois, achei politicamente incorreto e me recolhi.

Neste período de isolamento, há fotógrafos que, como você, clicaram pelo WhatsApp, outros que registraram os vizinhos, à distância. Como você tem observado essa produção? Pode nascer uma estética deste período?

Neste primeiro momento, há um certo deslumbramento estético. Todo mundo está fazendo isso, que é a novidade e o possível. Mas acho que isso vai se esgotar. Não preciso ser superoriginal, mas eu mesmo já não tenho mais vontade de fazer porque outros fizeram. Não vamos ficar em quarentena a vida inteira, as coisas vão voltar.

Como foi avaliar agora, com algum distanciamento, o episódio da inundação em seu estúdio, há três meses?

Realmente, foram dois tsunamis, um em seguida do outro. Acho este [a pandemia] até pior que o outro. Foi um desastre, uma loucura. Em um primeiro momento [da enchente], fiquei muito chocado, falando "rasga isso". Depois, pensei: "Mas isso é bonito, interessante". Aí, eu já tinha jogado fora muita coisa.

Imagem icônica de Caetano Veloso, pós-inundação no estúdio da Vila Leopoldina, que estará no livro Sub/Emerso.

Foto Bob Wolfenson

Retrato de Fernanda Torres, p\u00f3s-inunda\u00e7\u00e3o no est\u00fadio da Vila Leopoldina, que estar\u00e1 no livro SubEmerso.

Retrato de Fernanda Torres.

Foto Bob Wolfenson

Você se arrependeu?

Muito. Foi muita coisa, faria diferença, mas foi o que foi. Escrevi um texto sobre isso [para a Folha de S. Paulo], criou uma outra dimensão para o trabalho. Aquilo foi um choque, uma porrada, renasceram coisas que estavam mortas, engavetadas, perdidas.

Como foi revisitar essas fotos? Mudou sua perspectiva sobre coisas que você não gostava, por exemplo?

Havia coisas de que eu não gostava, não sei nem por que estavam guardadas. Mas a ação das águas fez com que elas ficassem interessantes, legais. Ganharam novas interferências, novos sentidos. Tive que reproduzir algumas imagens que foram lavadas para este livro que vou lançar [Bob fez fotos das fotos]. E elas melhoraram, o que é ruim para o trabalho [risos]. Elas ficaram mais cuidadas do que deveriam parecer.

E como foi o trabalho de recuperação do Instituto Moreira Salles?

A fundação do IMS nasceu com a ideia de preservação de acervos, este é seu DNA. Depois, foram ampliando e viraram o que são hoje. Quando o Sergio Burgi [coordenador do acervo de fotografia do IMS] ficou sabendo, me ligou: "Bob, podemos te ajudar". No mesmo dia, começou a chegar gente do Rio, de um monte de lugar, contrataram umas pessoas de São Paulo. Falaram para mim: "Compra um freezer" [a técnica do congelamento de negativos pausa a deterioração do material]. Trouxe no lombo, tinha que ser rápido, não podia esperar a entrega. No dia seguinte: "Compra outro". Eles contaram que nunca tinham vivido uma experiência dessa. Foi uma expertise e a maior tragédia que viram acontecer em um acervo.

Eles conseguiram aplicar tudo o que estudam.

Exatamente. A gente foi congelando os negativos no primeiro dia, no segundo, no quarto. Quanto mais tempo demorava para irem ao congelador, mais deteriorado estaria o acervo. A gente não conseguiu dar conta de tudo, mesmo com a equipe deles. Depois, pegaram pacotes de amostras do primeiro, do terceiro e do último dia e levaram ao Rio, para lavar e preservar. Fui para lá 15 dias depois. "Está tudo intacto, você perdeu 1%", disseram. Eu e o Sergio fizemos um cálculo: vou precisar de três pessoas trabalhando por cerca de um ano, cerca de R$ 200 mil.

É algo que você pretende fazer?

Sim, preciso fazer de qualquer jeito.

Suas reações foram diferentes nas duas enchentes?

São dois momentos muitos distintos da vida. Na primeira, em 2005, a sorte foi que eu estava lá. Consegui salvar mais coisas porque coloquei para o alto, mas o que foi atingido perdi lá mesmo, não teve esse trabalho de recuperação. Perdi coisas importantíssimas. Quando fiz uma exposição em 2018, falava: "Me lembro desta foto...". A assistente checava o arquivo e dizia: "Esta foi perdida na enchente". Em 2005, a notícia da inundação saiu no jornal também, teve uma solidariedade muito grande, mas essa agora foi multiplicada por mil, por conta do Instagram. E suscitou essa exposição do trabalho, de poder mostrar [as imagens danificadas]. Na primeira, eu era mais jovem, mais entusiasmado, tinha a vida pela frente, estava chegando em um estúdio muito grande para a minha condição. Foi um desafio e eu estava na crista do entusiasmo. Desta vez, andava pensando em sair de lá.

É um momento questionador seu. Você se pergunta se vale a pena ter esta estrutura, se é hora de desacelerar…

Exatamente. O ano de 2019 já foi muito difícil, morreu uma grande amiga [Fernanda Young]. De oito meses para cá, foi choque sobre choque.

Fernanda Young de vestido preto e tran\u00e7a presa no alto da cabe\u00e7a

A amiga Fernanda Young, em um dos vários retratos feitos por Bob: escritora teria completado 50 anos em maio.

Foto Bob Wolfenson

É também um momento de profunda discussão na moda, em que se questiona o calendário de desfiles, o papel das revistas, uma busca pelo que é essencial. Você tem acompanhado isso?

Tenho. A moda nunca me interessou como tendência, mas como possibilidade narrativa. Esse talvez seja um defeito meu, em relação a outros fotógrafos que sabem quem é a modelo tal, qual a roupa que veste melhor. Sempre vi a moda como uma possibilidade maravilhosa de poder me expressar criativamente, um trabalho que tem estrutura, possibilidades para inventar coisas. Sei o que está acontecendo, conheço as pessoas, elas me mandam inbox: 'Você viu o bafo?' [risos]. Conheço os jargões, participo disso, não estou querendo dizer que não sou um insider. Eu acho que as coisas no início vão ficar na simplicidade, mas o ser humano é o ser humano, tem ambição, preconceito, quer mostrar riqueza. Durante a Segunda Guerra, a revista de moda parou e voltou depois, com toda a miséria do mundo, todas as agruras de um conflito, a dor, com tudo o que a guerra suscita de pensamentos do que é essencial, importante. Como disse o Pondé [filósofo], já houve inúmeras pandemias e o ser humano é o ser humano. Então, não acredito numa purificação da quarentena que todo mundo está preconizando. Mas tem uma parte da sociedade que está se mobilizando, que era isenta à vida dos outros.

Você é assíduo no Instagram, que parece ter acentuado o revisionismo que você faz do seu trabalho.

Sim. Acho um luxo você ter seu canal e poder escrever, o que faço bastante. A fotografia teve muita disseminação com os telefones. Hoje, desperto um interesse muito maior por conta de mídia social. Nos anos 90 e começo dos anos 2000, cheguei a fazer 50, 60 páginas de revistas por mês. Isso tinha um alcance muito menor que um post meu no Instagram. Lembro que quando surgiu, falei para a minha filha, que usava bastante Instagram: "Helena, isso é uma merda". Uma coisa bem preconceituosa, de um fotógrafo que se sentiu ameaçado. Comecei a experimentar, fui fazendo e isso se tornou uma ferramenta importante para mim, até do ponto de vista de uma certa monetização daqui pra frente. Posso vender meus livros no meu perfil.

Você vai retomar o projeto que comemora seus 50 anos de carreira após a quarentena?

Acho que sim. Vender através do meu Instagram é uma coisa que vou fazer bastante. Agora, ninguém vai ter dinheiro para bancar a fotografia, preciso encontrar formas de monetizar. Esse trabalho específico [os fascículos] é muito caro para produzir, não daria lucro nenhum, seria só uma marcação dos meus 50 anos. Mas acho que dá para fazer muita coisa física para vender online, montar uma logística de entrega. Acho que isso vai ser o futuro.

Você está trilhando um caminho de independência, de emancipação.

Foi bom você ter falado nisso. Este é um sentimento da quarentena, de emancipação, mesmo. Realmente, posso fazer as coisas sozinho. Quer dizer, preciso contratar freelancers, assistente para um trabalho. Poderia alugar um estúdio, se o meu não fosse uma fonte de renda. Hoje em dia posso fazer tudo.


Indignado com a onda de governos autoritários e com a disseminação de preconceitos, o escritor português marca seu posicionamento, condena a covardia e mantém a esperança em dias melhores.


Ao longo de quase dois meses, ELLE Brasil conversou com mais de 40 profissionais diretamente afetados pela crise da covid-19. O resultado é uma série de reportagens com relatos profundos de uma indústria desesperada por esforços coletivos.


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