Moda

Já fez o download do seu look hoje?

Os games ficam fashionistas e a moda encontra uma sobrevida no digital, principalmente em tempos de pouco contato. E, sim, hoje em dia já existe marca fazendo roupa sem costureiro, mas com expert em realidade aumentada e virtual.

Kerry Murphy/The Fabricant
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Design 3D existe e é aperfeiçoado há décadas. Mais do que uma novidade, o que acontece, agora, é um reconhecimento das possibilidades da ferramenta e dos profissionais que a dominam. Isso rola em parte porque a quarentena acendeu o interesse por jogos de simulação social, como o Animal Crossing e o The Sims. Eles não só permitem a vida que gostaríamos de ter como também emulam a que estávamos acostumados. Os gráficos são realistas, os avatares interagem entre si e, inclusive, expressam identidades por meio de roupas. É aí que a moda entra. Trata-se de um território grande para grifes desbravarem: uma forma de marcas oferecerem parte da experiência do luxo e também de espalharem os seus nomes, fazerem o marketing girar. E, assim, os games andam cada vez mais fashionistas.


No Animal Crossing, por exemplo, você pode pescar, coletar nabo, balançar uma árvore para ver o que cai e fazer tudo isso de suéter Dior, boné Burberry e óculos Balenciaga. O closet pode ter Gucci, Prada, Raf Simons, Rick Owens e até etiquetas novas como Ludovic de Saint Sernin e Vaquera. O avatar no The Sims pode ser construído à moda do jogador, e ter da aparência visual às relações sociais (profissionais e até sexuais) customizadas pelo gamer. Com o auxílio de conteúdos personalizados, feitos geralmente por Simfluencers, as criaturas digitais vestem um Dior vintage ou um look de passarela Richard Quinn. E, se ao longo de duas décadas, as peças digitais de grifes no The Sims só rolava na clandestinidade, hoje elas são impulsionadas pelo próprio game e pelas próprias marcas. E é desta maneira que surgem parcerias como a com a Moschino, em 2019.

Para a moda, este tipo de colaboração é mais do que interessante, já que a indústria de jogos eletrônicos e online anda muitíssimo bem. De acordo com o Financial Post, o jogo Kim Kardashian: Hollywood, lançado em 2014 e com licença para existir até 2023, tem um rendimento financeiro que só cresce. Roberto Cavalli, Balmain e Karl Lagerfeld já firmaram parcerias com ele. A marca nova-iorquina Area se juntou à plataforma ID Sims para recriar seus looks de verão 2020 no The Sims. Marc Jacobs e Valentino fizeram parecido, montando packs de roupas digitais para serem baixados e usados no Animal Crossing. Já a designer Sandy Liang viu filas virtuais de até duas horas se formarem por usuários do jogo interessados em suas pecinhas feitas de pixel.

Esse tipo de colaboração é uma via de mão dupla. O jogo Fortnite, por exemplo, vende edições limitadas e exclusivamente digitais de tênis Jordan, da Nike. Estas peças, por sua vez, despertam o desejo pela marca esportiva entre os gamers. Nicolas Ghesquière, da Louis Vuitton, desenhou para o jogo League Of Legends as roupas das avatares Senna e Qiyanna. Em contrapartida, o LOL apareceu em uma coleção cápsula da maison, em uma das várias saídas de sucesso do estilista para rejuvenescer a marca centenária.

Não falta gente disposta a abrir o bolso e investir no seu eu-digital. Isso acontece porque a moda no virtual é tão importante quanto no real – negativa e positivamente falando. Ela preserva a ideia de status, como no caso do aplicativo Zwift, de ciclismo, onde se pode comprar peças de marcas reais e, com elas, se distinguir dos demais jogadores. Só que a moda digital também possibilita diversão, expressão e, em alguns momentos, até mais rebeldia do que a real. Valerie Steele, curadora-chefe do museu do Fashion Institute of Technology, disse à ELLE norte-americana que vê aí uma alternativa livre e em oposição à moda física. "Como seria se você não ligasse para o que as pessoas pensam da roupa que está usando?", ela questiona.

STREETWEAR OU COUTURE EM PIXELS

Marcas de roupas digitais, que produzem peças que só existem em telas, são uma realidade e não estão limitadas aos games. Feitas sem costureiros, mas por especialistas em design 3D, estas roupas são modeladas em softwares e aplicadas nas fotografias dos clientes. Quem vê o Instagram da R-o-h-b-a-u imagina que esta é só mais uma label de streetwear na rede. E seria, se o agasalho espelhado, best seller da casa, fosse possível na rua. Mas a peça, feita com Assaf Reeb, um designer formado pela renomada Central Saint Martins, é uma renderização. Ou seja, trata-se de uma imagem.

A escandinava Carlings esgotou no ano passado uma coleção inteira de roupas virtuais, com itens custando entre 10 e 30 euros, incluindo uma puffer jacket, uma calça metalizada e um trench coat texturizado. Hoje, a grife tem à venda uma camiseta física, mas interativa: sua estampa muda na tela do smartphone, com o auxílio de filtros do Instagram e do Facebook.

A holandesa The Fabricant é 100% digital e já atraiu os olhares de empresas como Puma e Tommy Hilfiger. Dona da plataforma Leela, ela abre gratuitamente a experiência online para quem quiser testar, basta um simples cadastro. "Crie a sua persona virtual, o seu eu não físico que expressará a sua identidade digital", o site anuncia. E vai além: "Seja o seu próprio espelho". A marca ganhou fama depois que vendeu, no ano passado, o vestido Iridescence, por $ 9 500 – algo que hoje sairia por mais de 50 mil reais. Ele só existe virtualmente, foi visto como uma peça de couture digital e assinado em parceria com a francesa Johanna Jaskowska, conhecida por criar filtros futuristas no Instagram, como o Beauty 3000.

Johanna Jaskowska com o vestido digital Iridescence da marca The Fabricant.

Kerry Murphy/The Fabricant

Jaskowska é uma artista visual com interesse nesta fusão entre real e virtual, por meio de filtros que proporcionam este tipo de realidade aumentada. Com isso, ela explora como a tecnologia altera o que nós consideramos belo. E está aí um ponto interessante deste movimento: por mais que o resultado pareça frio, distante e pouco humano, os criativos que mergulham nestas ferramentas têm um consenso de atrelar as suas pesquisas à questões sociais, caminhos sustentáveis e até abordagens identitárias e filosóficas.

No Brasil, o trabalho do pernambucano Rodrigo de Carvalho se destaca com a modelagem 3D em clipes que ele também dirige, como o da cantora Jup do Bairro para a música "All You Need Is Love". Vitória Cribb (a.k.a @louquai), que nasceu no Rio de Janeiro, também é uma referência na animação gráfica e já levou as camadas de suas criações para o Tate, em Londres. Ela faz parte da comunidade global de animadores 3D, a @digi.gxl, criada pela inglesa Cat Taylor. Designer digital autodidata, Taylor recria em IVL (in virtual life) roupas IRL (in real life) da Balenciaga, Vetements, Off-White, e já colaborou para a Nike e para a varejista Selfridges. Na @digi.gxl, procura dar luz ao trabalho de mulheres em um mercado geralmente dominado por homens.

ALÉM DE EXPERIMENTAÇÃO, UMA SOBREVIDA PARA A MODA

Interrompidas as interações, as marcas que davam ou não bola para este tipo de tecnologia se viram forçadas a pensarem o quanto do fluxo de suas operações pode ser feito digitalmente. E isto tem implicações não só na imagem, mas também na produção, divulgação, exposição e venda daqui por diante. Ou seja, não é mais sobre o futuro, é sobre o agora. Abaixo, algumas características:

Produção virtual: Protótipos 3D e foto realistas podem ser feitos em variedade, de forma remota e sem a necessidade de amostragens e prototipagens. Esta é uma saída que promete menos tempo, menos custo e menos resíduo. A equipe de inovação da Kering, grupo que detém Balenciaga, Gucci e Alexander McQueen, já formalizou suas bases educacionais para inserir o design digital na empresa. No final do ano passado, Daniel Grieder, CEO da Tommy Hilfiger, anunciou que o design 3D entrará na criação, desenvolvimento e samples da marca a partir do verão 2022. O case deve ser acompanhado pela Calvin Klein, que pertence ao mesmo grupo, a PVH Corp. No Brasil, esta não é uma realidade só de gigantes. Foi com este tipo de técnica que os estilistas Leandro Benites, da Ben, e Raphael Nascimento, da Another Place, conseguiram desenhar um macacão juntos e lançar a colaboração durante a quarentena.

Avatar e macac\u00e3o em design 3D da parceria entre as marcas Ben e Another Place.

Peça criada digitalmente para a parceria real entre Another Place e Ben.

Another Place e Ben

Detalhe de macac\u00e3o em design 3D da parceria entre as marcas Ben e Another Place.

Detalhe do macacão Another Place + Ben.

Another Place e Ben

Influenciadores literalmente digitais: Modelos fictícias, as CGI (imagens geradas por computador, em português), como Lil Miquela, Shudu e a novíssima Mara, criada pela Amaro, não causam mais tanto estranhamento. Estas, porém, não são as únicas formas de divulgação possíveis com a ferramenta. Diversas empresas estão criando manequins aleatórios, gerados por inteligência artificial, com imagens reunidas de diversas pessoas. Outra alternativa é a possibilidade do cliente não precisar mais da figura de um modelo e usar o upload da própria imagem. Mas antes de medidas tão drásticas, no sentido de limar uma classe profissional, renderizações podem ser feitas em modelos profissionais. Trata-se de algo como vestir a distância e a técnica já é aplicada por Asos, Adidas e Bloomingdales. Fica ainda a sugestão para os influenciadores digitais humanos: se o seu meio de comunicação é digital, a roupa que você usa também pode ser.

Desfile live: O British Fashion Council lança em junho uma plataforma digital para que os designers decidam como se apresentar durante a pandemia. Tentativas de lives já acontecem em diversos meios, mas, como lembra Vanessa Friedman, do The New York Times, os desfiles existem há décadas, exatamente porque funcionam muito bem assim. Esta é uma oportunidade, então, não só de replicar o evento digitalmente, mas de repensá-lo por completo. De acordo com o site The Business of Fashion a batalha pelo território de hospedagem dos desfiles online já começa e é encabeçada pelo Instagram, numa iniciativa liderada por Eva Chen, do núcleo de parcerias de moda da rede social. O app revelou também que adaptações como a implementação de ferramentas de compras no livestream estão por vir. Então, sim, não estamos longe de um see now and buy live.

Vitrine black mirror: Análises com o recurso 3D na empresa de venda online Shopify mostraram dados positivos do mecanismo em despertar desejo de compra. Você pode girar a peça digital, ver de ângulos diferentes e, com a realidade aumentada, projetar no seu ambiente em escala real. Isso, usando apenas a câmera do smartphone e sobrepondo o conteúdo virtual no mundo físico. Redes como Pinterest, Youtube, Facebook e Instagram estão cada vez mais habilitados para este tipo de funcionalidade. Vários e-commerce já investem pesado no caminho, como a Farfetch, a novíssima The Yes e a veterana Selfridges. Nesta última, por meio da plataforma The New Order, onde artistas digitais são convidados a romper com a ideia de vitrine estática e de scroll banal para produtos no site de compras.

Entre imagem estritamente futurista e ferramenta que facilita o business, essas tecnologias devem ficar cada vez mais presentes. É muito provável que você já tenha usado um filtro do Instagram como maquiagem. De repente, o blush de verdade ficou de lado uma vez que a versão virtual dava conta do recado. E isso é um exemplo de realidade aumentada acontecendo bem aí nas suas mãos. No universo da beleza, os filtros já são um assunto que interferem agora. Mas seremos afetados também por filtros de roupas digitais? Dados levantados pelo Financial Times sobre o impacto da pandemia na moda evidenciam pontos interessantes: a crise é generalizada, sim, mas alguns produtos sentem mais do que outros. Sites de revenda de tênis, por exemplo, viram uma queda no valor de seus itens por volta de 20%. Ou seja, itens de moda que não são vistos na rede social, no call de trabalho, no zoom de happy hour tendem a ser os primeiros dispensados. E ganha exatamente aqueles que aparecem em nossos perfis. E, afinal, o que tem ditado mais o caminho da moda senão aquilo que mostramos pelas janelas das redes sociais?


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