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Design biofílico propõe uma nova conexão com a natureza

Ambientes repletos de verde, passarelas entre árvores, construções autossustentáveis: descubra como esse conceito pode mudar (para muito melhor) a nossa forma de viver.

Divulgação / Stefano Boeri
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Depois de uma caminhada de 300 mil anos sobre a Terra, o Homo sapiens cismou que ele era uma coisa e a natureza, outra. Isolado em cidades erguidas em ferro, asfalto e concreto, passou a ver o mundo natural como algo distante. Mas as últimas décadas abalaram esse estranho divórcio com um chamado urgente. Uma sequência de desastres ecológicos, com poluição, desmatamento e aquecimento global a todo galope, veio para lembrar que somos, sim, parte dela e, como tal, corremos os mesmos riscos. A pandemia foi o empurrão que faltava para entrarmos no modo reflexivo. É preciso encontrar uma outra forma de viver para resolver um problema de proporções planetárias. E o melhor caminho é o da volta, da reconexão com o meio ambiente – justamente o que propõe o design biofílico.


A expressão vem do grego e significa amor a tudo que é vivo. Simples e bonito assim. A ideia central é reconectar o ser humano à natureza usando a arquitetura e o design de interiores como pontes. O conceito não é novo, mas ganhou os holofotes em vista do cenário atual. Uma série de teóricos estuda o assunto há tempos, como o biólogo Edward O. Wilson, da Universidade de Harvard, e o professor de ecologia social de Yale, Stephen Kellert, que comprovaram a importância de estarmos ligados à natureza para mantermos a saúde e o bem estar.

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Viver rodeado por vasos de plantas, jardins, hortas, paredões e telhados verdes é um dos aspectos desse movimento. Mas não só. Envolve também o uso de elementos como madeira, pedra, bambu e a presença de água, além de luz e ventilação naturais nas construções. O resultado é a melhora imediata na qualidade de vida. No caso dos escritórios, com aumento da criatividade e da produtividade como bônus.

A geração millennial, muito digital, mas mais atenta ao que consome e engajada na preservação do meio ambiente, é responsável por grande parte dessa virada. "Existe uma ânsia por essa reconexão porque estamos inseridos de forma extremamente virtual no planeta. A tecnologia vai continuar fazendo parte do nosso dia a dia, mas precisamos de um contraponto, de um equilíbrio", diz Liliah Angelini, do portal de tendências WGSN, que aponta o design biofílico como uma das 12 macrotendências que devem dominar o mundo pós-pandemia.

Viver na floresta

Conhecido pelo seu encantamento por tecnologia, o arquiteto Guto Requena embarcou com tudo na biofilia. "Entre 2019 e 2020, entregamos 40 mil metros quadrados de escritórios, todos repletos de plantas", conta. E não parou por aí. Até o final do ano, ele coloca de pé um projeto pessoal, seu novo apartamento, no centro de São Paulo, todo pensado dentro do design biofílico. "Como não tenho terraço, vou transformá-lo inteiro em uma grande área verde. A ideia é morar dentro de uma floresta", revela, animado. As plantas, inclusive frutíferas, contarão com um sistema high tech, que manda um tweet avisando quando as verdinhas precisam de água ou nutrientes. O projeto de iluminação vai seguir o sistema circadiano, que obedece ao ciclo da luz solar, e uma das paredes terá cobogós feitos de casca de sururu, criados em parceria pelo arquiteto Marcelo Rosenbaum e o designer Rodrigo Ambrosio. "Falar da biofilia é voltar a olhar para a natureza e para nós mesmos. E a tecnologia não precisa ser excluída. Pode ser um instrumento para ajudar nessa aproximação", diz Guto.

Guto requena sentado numa ampla varanda, com muito verde

Projeto Youse, prédio comercial projetado pelo arquiteto Guto Requena: "A tecnologia não precisa ser excluída".

Foto Leonardo Finotti / Estúdio Guto Requena

Raposas e javalis

O design biofílico já vem mudando a paisagem de várias cidades ao redor do mundo. Um dos grandes responsáveis é o incensado arquiteto italiano Stefano Boeri. É dele o projeto do Bosco Verticale (em destaque no início desta reportagem): duas torres residenciais cobertas de verde, erguidas em Milão, que se tornaram referência no assunto. Agora, ele leva a mesma ideia em proporções maiores para outras paragens. É o caso da impressionante Liuzhou Forest City, na China, uma cidade sustentável, rodeada por mais de 40 mil árvores e 1 milhão de plantas de 100 espécies diferentes, que devem filtrar 10 mil toneladas de CO2 por ano.

Imagem digitalizada do projeto de uma cidade com constru\u00e7\u00f5es repletas de verde por todo lado

Liuzhou Forest City, na China: projeto de cidade sustentável do italiano Stefano Boeri prevê mais de 40 mil árvores e 1 milhão de plantas de 100 espécies diferentes.

Imagem Divulgação

Para Boeri, que defende a reocupação do campo, a construção de cidades inteligentes do ponto de vista ambiental pode mudar nossa relação com outras espécies. "Vimos raposas em Roma e javalis em Florença [durante o lockdown], como não acontecia há 20 anos. Há muito invadimos o habitat dessas espécies que foram obrigadas a mudar os hábitos para conviver conosco. Esse desequilíbrio desastroso tem que ser repensado", disse recentemente em entrevista à ELLE Decor italiana.

Até 2030, segundo a ONU, 60% da população mundial viverá em cidades, o que torna o design biofílico fundamental também nos espaços públicos. "Resolvemos tudo de forma artificial, quando seria mais fácil prestar atenção nas soluções que a natureza levou bilhões de anos para desenvolver", diz o professor Paulo Pellegrino, um dos coordenadores do LABVERDE, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP (FAU/USP). "O convívio com a água, por exemplo, poderia ser um momento de celebração, em que as pessoas acompanhassem as cheias e as vazantes. Mas tentamos escondê-la de todas as formas, com retificações dos rios, canalizações, manilhas, bocas de lobo", completa.

Bibliotecas flutuantes

O israelense baseado em Nova York, Dror Benshetrit montou o SuperNature, uma espécie de laboratório de pesquisa, que busca novos caminhos para construir "com a natureza e como a natureza". "Queremos mudar a maneira como criamos, permitindo que comunidades, economia e ecologia cresçam umas apoiando as outras", diz Dror. De sua prancheta, já saíram desenhos fantásticos, como o parque Parkorman, em Istambul, na Turquia, com passarelas em espiral no alto das árvores, e um de seus favoritos, a ilha de Havvada, também em Istambul, com seis colinas residenciais que abraçam o centro de uma nova cidade. Tudo coberto por vegetação, autossustentável, movido a energia solar e erguido do zero.

Criancas pulam numa rede de protecao instalada entre passarelas de sinuosas montadas no alto da copa das arvores.

Parque Parkoman: projeto de Dror Benshetrit em Istambul prevê passarelas sinuosas passando por entre a copa das árvores.

Divulgação

No Brasil, Marko Brajovic é um dos profissionais que mais tem experimentado esse caminho. "Hoje, 80% dos nossos projetos são biofílicos. Mas espero chegar a 100% em breve", diz o arquiteto, que usa a metodologia da biomimética em suas criações. Há 15 anos, ele faz imersões na Amazônia para entender processos da natureza que possam ser reproduzidos depois. Desse tipo de observação nasceu sua Casa Arca, em Paraty, inspirada nas habitações do povo Asurini, do Xingu, e a biblioteca flutuante no Lago Mamori, na Amazônia, feita com materiais locais e reciclados, que vai oferecer 200 livros ligados à ecologia para crianças ribeirinhas. "O ser humano é natureza e todo entorno é natureza. É inevitável ter uma relação visceral com o meio ambiente para entender quem somos e para quem e por que projetamos. É uma questão ética", diz Marko, que pensa em seus projetos como verdadeiros portais de conexão com a natureza. Resta aos sapiens honrar o nome e retomar esse caminho de volta.

Interior de uma biblioteca flutuante com teto e paredes feitos de madeira e fibras, e formato arredondado.

A biblioteca flutuante desenhada por Marko Brajovic, na Amazônia, feita com materiais locais e reciclados, vai oferecer 200 livros com temas ligados à ecologia para crianças da região.

Divulgação

BONITO DE SE VER, GOSTOSO DE TOCAR

A biofilia também leva inspiração ao design brasileiro.

A ligação com a terra e as matérias primas naturais está ganhando novo significado nas mãos de designers brasileiros. A arquiteta Vivian Coser, por exemplo, se inspirou nas formas orgânicas dos jardins de Burle Marx para desenhar a coleção de mesas Botanique, feitas com pedras nacionais. "É design biofílico com DNA brasileiro", diz Vivian, que criou em seu escritório um selo, o Edea Concept, só para identificar os projetos concebidos dentro dos princípios da biofilia.

Dois outros nomes talentosos mergulharam na relação entre o ser humano e a natureza em seus trabalhos. Giacomo Tomazzi, com a coleção Terra, de vasos, mesas e luminárias de barro moldado à mão, e Nicole Tomazi, com a linha Genius Loci, de mesas, gabinetes e luminárias, trançados em palha de arroz, numa referência ao formato das casas de João de Barro. O ponto comum: o desenvolvimento do trabalho a quatro mãos com artesãos. "A maneira como a gente mora, vive, se veste é muito desconectada. Mas temos esse registro 'bicho', que é acessado quando vemos algo que nos lembra a natureza. É isso que toca as pessoas", diz Nicole. "Tudo que remete à natureza relaxa o olhar. Traz conforto, bem estar, aconchego e uma certa nostalgia", completa Giacomo. "A biofilia é isso. Emociona porque vai na essência do ser humano, permite o convívio com a imperfeição. E a beleza está na imperfeição."

Foto Marcelo Donadussi

Nicole Tomazi se inspirou no formato das casas de joão de barro para criar a linha Genius Loci, feita de palha de arroz.




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