Lifestyle

Massimo Bottura ao alcance de todos

Alexa, a filha que convenceu o mais aclamado chef mundial a abrir a cozinha de casa, fala sobre os desdobramentos do projeto Kitchen Quarantine.

Foto Pier Marco Tacca / Getty Images
PUBLICIDADE

No universo gourmet, comer na Osteria Francescana é equivalente a escalar o Everest para um alpinista. É um feito conseguir uma reserva para provar o menu degustação de 12 etapas, a 290 euros. O pequeno restaurante, uma construção geminada com paredes pintadas de salmão no Centro Histórico de Modena, conta com apenas 12 concorridíssimas mesas – o próximo período disponível para reservas é em fevereiro de 2021. Ou seja, é para poucos. E aqui entra em cena a filha de Massimo Bottura, chef e criador da Osteria. Durante a quarentena, Alexa Bottura, de 23 anos, conseguiu convencer o pai a abrir a cozinha de casa e revelou um chef longe de qualquer formalidade. "Trazer meu pai fazendo receitas comuns, do dia a dia, aproveitando o que tem na geladeira, despertou curiosidade nas pessoas.", diz à ELLE Brasil.

O projeto capitaneado por Alexa, chamado Kitchen Quarantine, é uma websérie com receitas ensinadas pelo superchef e disponibilizada no canal no YouTube de Massimo Bottura. A previsão é de que ela tenha mais de 60 episódios – o nono vídeo foi postado dia 21 de julho e começa com Massimo, sua mulher, a americana Lara Gilmore, e Charlie, o irmão de 19 anos de Alexa, dançando ao som de Jumpin' Jack Flash, dos Rolling Stones. A receita é de uma carne fatiada servida com pancetta, abobrinha e batatas.

PUBLICIDADE

Kitchen Quarantine é um desdobramento da sequência de lives de mesmo nome, que começaram quase sem querer no Instagram do chef, logo no início da quarentena, anunciada na Itália em 8 de março. Alexa conta que começou a ficar preocupada com o pai em casa por tanto tempo. "Ele é muito ativo", diz. "Eu cresci vendo-o fazer um monte de coisas, cuidando dos restaurantes, viajando. Tinha mês que ele viajava quatro vezes da Itália para os Estados Unidos." Além de dois restaurantes e um hotel em Modena, Massimo tem outros dois restaurantes, em parceria com a Gucci, em Florença e Beverly Hills. A ideia de propor uma atividade para o pai, porém, só veio depois de uma videochamada entre Alexa e um grupo de amigos no final do primeiro dia de quarentena, em 9 de março. Um amigo perguntou sobre o pai famoso e ela foi mostrá-lo na cozinha enquanto preparava o jantar. "Ele começou a fazer perguntas sobre algumas receitas e meu pai começou a interagir", diz. "Depois disso, pensei que seria interessante mostrar meu pai cozinhando por meio de lives em uma plataforma maior, como o Instagram."

PUBLICIDADE

Alexa filma o pai com o celular: zero formalidade.Arquivo de família

Massimo não aceitou de pronto a ideia. Apesar de já ser um chef-celebridade há tempos, com bom traquejo frente às câmeras, ele nunca havia usado o recurso das lives. Além disso, estava com medo de como as pessoas receberiam a iniciativa e temia que pudesse fazer alguma receita que não desse certo. "O que é quase proibido na Itália (errar uma receita)", diz Alexa. Foi necessário um dia de arrumação na coleção de vinil para que o cozinheiro fosse convencido do projeto proposto pela filha. "Ele imaginou que levaria um mês para organizar os discos, mas levou um dia. Aí, ele chegou para mim e disse que talvez devesse reconsiderar minha ideia, pois viu que sobraria tempo demais em casa."

A estreia do Kitchen Quarantine como série de lives aconteceu em uma sexta-feira, com a receita de um curry tailandês com legumes. Deu tão certo que Alexa e Massimo resolveram fazer a live diariamente enquanto durasse o lockdown – mais de 60 dias, no final das contas. Esse material reeditado é que abastece agora o canal no YouTube.

Se no Brasil nos acostumamos a assistir às lives cheias de virtuosismos e superproduzidas, as da família Bottura foram o contrário: "Acredito que o Kitchen Quarantine deu tão certo justamente porque as pessoas, mais do que assistir ao meu pai cozinhando, também puderam ver uma família normal, sem filtros, vivendo em quarentena." Nos vídeos, Massimo ensina receitas no almoço aproveitando as sobras do jantar, beberica seu vinho, alterna frases em inglês e italiano, lambe a colher que usava para mexer a calda de chocolate na panela e só não coloca de volta porque toma uma bronca da filha – mas protesta: "Sono a casa mia e faccio quel cazzo che mi pare!" (algo como: estou na minha casa e faço o cazzo que quiser!). A receita da calda, por sinal, foi um dos maiores hits das lives, e pode ser conferida no fim desta reportagem.

Além de virar um sucesso de público, Kitchen Quarantine ganhou o Webby Special Achievement Award 2020, um prêmio concedido pela Academia Internacional de Artes e Ciências Digitais, que há 24 anos organiza o Webby Awards para premiar os melhores projetos de redes sociais. "Este é um prêmio incrível, geralmente concedido a projetos que exigem grandes investimentos. Chegamos com um smartphone e o desejo de fazê-lo", disse Massimo Bottura em entrevista ao site do guia italiano Gambero Rosso.


A família na cozinha: da esq. para a dir., Charlie, Alexa, Massimo e Lara.Arquivo de família


Mais do que o prêmio e todo a visibilidade que a série angariou, para Alexa o maior aprendizado foi reaprender a conviver em família. "Pode parecer estúpido, mas reabituar-se a viver com a própria família é difícil", diz. "Morei quatro anos nos Estados Unidos para fazer faculdade. Voltei no ano passado, mas minha vida seguiu sendo trabalhar, sair com meus amigos, viajar." O espaço com a família era pequeno. "Agora eu não só precisei aprender a conviver, como pude passar um tempo riquíssimo ao lado deles."

O lockdown no país foi encerrado e a vida aos poucos retorna ao normal. "Voltar a trabalhar foi duro, porque comer no refeitório da empresa... não dá", diz Alexa, brincando. Ela trabalha na área de marketing da Maserati, mas vai continuar a tocar o Kitchen Quarantine, que não deve parar na websérie. Alexa adiantou que a ideia é preparar um livro com as receitas e as impressões da convivência familiar em isolamento. "Um encontro da comida com a questão emocional e afetiva, que é exatamente como foi a nossa quarentena e, acredito, a de tanta gente". As lives, o livro e o atual projeto no YouTube são, acima de tudo, um programa familiar. "Não convivi tanto com o Massimo chef internacional. Pela primeira vez, vi o meu pai nesse papel e entendi por que ele é um profissional renomado", diz Alexa. Em essência, esse é o papel da comida: aproximar as pessoas – inclusive as que já estão próximas. "Descobri que meu pai é realmente bom. Está aprovado."

A calda de chocolate da infância de Massimo Bottura


Ingredientes

3 colheres (sopa) cheias de cacau em pó
2 gemas
1 colher (sopa) de manteiga
1 colher (sopa) rasa de açúcar
leite o quanto baste
1 colher (sopa) de xarope de bordo
2 colheres (sopa) de pasta de amêndoas

Modo de preparo

1. Em uma panela em banho-maria, em fogo baixo (60 ºC graus ou menos, se possível), adicione o cacau, as gema, a manteiga, o açúcar e o xarope de bordo.

2. Conforme os ingredientes forem derretendo, acrescente, aos poucos, o leite. Continue misturando sem parar de mexer, até obter uma calda com uma consistência bem cremosa.

3. Para finalizar, acrescente a pasta de amêndoas e pronto! A calda pode servir como cobertura para bolos e tortas, acompanhar pães e biscoitos doces ou como a sua imaginação permitir.



E quem não precisa, né, gente? Mas há alternativas melhores – e muito mais gostosas – do que bolacha recheada e outros ultraprocessados. Confira 12 receitas fáceis e ligeirinhas para matar aquela vontade de comer um doce em grande estilo.


Tenha acesso a conteúdos exclusivos
ASSINE A ELLE