Cultura

Mahmundi só para seus ouvidos

A cantora, que comanda sua própria rádio nas madrugadas da quarentena, lança Mundo Novo esta semana e divide as músicas que escutou enquanto criava o álbum em uma playlist feita especialmente para ELLE.

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Meia-noite, madrugada de sábado. Mahmundi se divide entre dois computadores, um mixer e uma latinha de energético. Nas próximas duas horas, a cantora, compositora e produtora carioca faz as vezes de locutora e apresenta ao vivo, em seu perfil no Instagram, a Mahmundi FM. "Fiquei pensando o que poderia fazer para me conectar com meus fãs que não fosse uma live", diz à ELLE. "Gosto muito de rádio, minha vida é muito sobre o desejo de fazer músicas de FM."


Madrugada adentro, ela toca faixas que podem ir de Fiona Apple a Sandy & Junior, passando por Gal Costa. "Não tem nada cool aqui, tipo 'as músicas que você não conhece'. E os fãs trazem coisas muito legais." Entre as faixas, ela toca áudios enviados por seguidores do país inteiro sobre temas que ela propõe, como a última saída antes da pandemia e descobertas da quarentena. "A rádio é muito sobre as respostas deles e os nossos comentários." Também aparecem por ali amigos da cena musical, como Tássia Reis, Liniker e Tulipa Ruiz ("Putz, eu ia dormir, mas agora acho que vou beber", comentou a cantora em uma das transmissões). Mahmundi faz piada, mas também pede para todo mundo ficar em casa neste período de isolamento. Ela já recebeu um áudio do hospital, de uma garota que acompanhava a mãe, internada na UTI. "Ficou aquele silêncio, ao vivo, mas ela disse: 'Tô ouvindo sua rádio aqui, vai dar tudo certo'", lembra. "Não tem script, nunca sei o que vai aparecer. Essas duas horas passam muito rápido e eles ficam me seduzindo para ficar até às 3h."

"Não tem nada cool aqui [na Mahmundi FM], tipo 'as músicas que voce não conhece. E os fãs trazem coisas muito legais."

Não que a cantora estivesse ociosa no resto do tempo. Além de comandar a rádio, a carioca se preparava nas últimas semanas para o lançamento – nesta sexta, dia 29 – de seu terceiro álbum, Mundo Novo, batizado assim antes da pandemia. "Foi uma coincidência muito doida. De fato, fui entendendo que era um mundo novo e corri para lançarmos o disco neste período em que as pessoas estão em casa, com tempo para escutar." O título, conta, é uma referência à sua vida no ano passado, quando discutia na terapia um novo cenário que se desenhava para ela. "As letras são sobre mim, até as que eu escolhi interpretar dizem muito sobre esse processo." Entre as regravações estão "No coração da escuridão", de Jorge Mautner e Dadi, já gravada por Caetano Veloso. Como em seus dois primeiros álbuns, ela assina composições, duas delas em parceria com o amigo e cantor carioca Castello Branco.

Sucessor de Para Dias Ruins (2018), Mundo Novo marca uma transição musical de Mahmundi, conhecida pelas referências oitentistas, que lhe renderam comparações com Marina, quando surgiu na cena independente carioca, no início da década. "Tinha vontade de avançar do mundo dos sintetizadores para o dos instrumentos. Sabia que não ia conseguir fazer isso sozinha. Envolvi mais pessoas e foi maravilhoso", conta. "Queria que o disco tivesse um formato de grupo. Essa estética de banda era uma coisa que me interessava muito. Ouvi muito Legião Urbana, Cássia Eller, Patti Smith."


Trânsito do mundo

Com o novo disco, a rádio e "uma janela maravilhosa", com uma bela vista para a zona oeste paulistana, ela atravessa a quarentena com tranquilidade, mas preocupada com os outros. "Meu irmão é policial, minha tia é agente comunitária de saúde e continuam trabalhando. A gente fica na nossa bolha, nos nossos privilégios, criticando o presidente, mas as pessoas me interessam mais. Estou falando com você e tem uma obra aqui do meu lado. É com essas pessoas que tento me comunicar. Elas têm uma força de saber que isso vai passar, de entender isso como um trânsito do mundo."

Mahmundi, 33 anos, cresceu em Marechal Hermes, zona norte do Rio, entre duas comunidades. "Vivi minha infância e juventude com a violência muito perto, com a polícia vendo se você está com droga, patrulha policial atrás de mim. Essas histórias fazem parte da minha vida." E lembra das dificuldades que poderia estar enfrentando, se ainda estive lá, com o coronavírus, e sem trabalhos neste momento de crise, como a técnica de som que foi anos atrás. "Comparando com tudo isso que eu poderia estar vivendo, me sinto bem."

"Vivi minha infância e juventude com a violência muito perto, com a polícia vendo se você está com droga, patrulha policial atrás de mim."

Desde Marechal Hermes, Mahmundi já fez "muita coisa": trabalhou em uma rede de fast food, tocou bateria na banda da igreja, montou palco na praia, foi técnica de som do Circo Voador. Também tentou uma carreira como técnica de som para o cinema, queria fazer trilha para filmes, mas esbarrou nas dificuldades financeiras, do alto custo de aluguel de equipamentos que o trabalho requer. Conseguiu migrar para a música e produzir, "sempre autodidata", seu primeiro trabalho, o EP O Efeito das Cores (2012), com um computador emprestado.

Mahmundi aproveita a quarentena para se reconectar com arte: "Ando estudando artistas que eu não tinha acesso". Na lista de suas descobertas estão Anna Bella Geiger, Iole de Freitas e Sophie Calle. "Fico desesperada para os livros que comprei chegarem." E sua FM deve seguir além do período de isolamento. "Está crescendo. Isso vai tomar um rumo além do que eu gostaria", ri. "Seguindo meu mapa astral, minha vida é sobre encontro, minha felicidade está naquilo que eu faço pelos outros. A rádio tem muito dessa soma, tem sido finais de semanas maravilhosos."

A playlist de Mahmundi

A cantor preparou para a ELLE uma playlist com as músicas que a embalaram enquanto produzia seu novo álbum. Escute aqui:



Impossível prever como a pandemia e o isolamento forçado vão influenciar a produção artística nos próximos anos. Mas vale olhar para trás e ver como episódios dramáticos inspiraram obras e movimentos em diversos períodos.


Vivian Whiteman publica quinzenalmente uma sequência de cartas que começa na quarentena e não tem prazo para acabar. Uma correspondência sem destino certo sobre hábitos, modas, sentimentos, notícias e memórias de um tempo em transformação.

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