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Ilustração: Mariana Baptista
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A moda sempre esteve presente na literatura. De Machado de Assis, em Dom Casmurro, aos best sellers Sexy and the city e O Diabo veste Prada. Do gênero chik-lit e os contemporâneos Garota, mulher, outras, de Bernardine Evaristo, Muitas roupas aqui, de Salma Soria, e Água de Barrela, de Eliana Alves Cruz, a moda nas ficções contribui para criação do imaginário cenográfico, estético e para a própria narrativa. No entanto, longe de ser ao acaso, uma observação mais atenta mostra como a descrição de roupas e costumes estão condicionados a contextos sociais, culturais e econômicos.

De maneira geral, a moda na literatura cumpre um papel ilustrativo e ajuda a construir características emocionais e psicológicas dos personagens por meio da roupa. Apesar disso, como não é apenas estética, mas um fenômeno de representação social, não é difícil encontrarmos autores, ou mesmo gêneros literários, que extrapolam esse limite e dão à moda função muito mais relevante dentro das narrativas.

É o caso de Machado de Assis. O autor do século 19 usa a roupa como o figurino é usado no teatro, “contribuindo para que o leitor compreenda a narrativa e como atributo para o jogo irônico da obra”, como afirma a escritora e doutora em estudos literários Geanneti Tavares Salomon. Para ela, autora do livro Moda e Ironia em Dom Casmurro (2010), o autor, além de usar a indumentária como estratégia literária, ainda faz um registro histórico da época. “Em Dom Casmurro, Capitu aparece usando saia de crinolina no mesmo período em que encontramos notícias reportando a chegada do item às lojas do Rio de Janeiro", comenta Geanneti.

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“Através da roupa, descrevo, sem precisar ser explícita, a cultura, o passado e os corpos dos meus personagens”. – Bernardine Evaristo.

Esse tipo de registro acontece também em obras mais recentes. No gênero literário chick-lit ou “literatura de mulherzinha'', temos o retrato de uma geração de mulheres contemporâneas e fica até difícil afirmar se a vida imita a arte, ou a arte imita a vida. Criado na Inglaterra e popularizado nos Estados Unidos, o gênero é geralmente escrito por mulheres, e seus livros apresentam histórias de jovens entre 20 e 30 e poucos anos, que, de maneira bem-humorada e algumas vezes autodepreciativa, lidam com problemas cotidianos, enquanto idealizam bens de consumo, padrões inalcançáveis de beleza e relacionamentos amorosos.

No subgênero Glamour-lit, no qual as protagonista têm carreiras ligadas ao mundo da moda, cinema ou televisão, títulos como Os delírios de consumo de Becky Bloom (2001), de Sophie Kinsella, O Diabo veste Prada (2003), de Lauren Weisberger, e Sexy and the City (1996), de Candance Bushnell, foram primeiro sucesso absoluto de vendas e, posteriormente, adaptados para o cinema e televisão, tornando-se referência de comportamento e estilo para milhões de mulheres no início dos anos 2000 e 2010.

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O gênero segue uma fórmula antiga na literatura estadunidense: preservar o glamour e luxo da alta-costura parisiense, sugerindo que esse luxo está ao alcance de todos por meio da produção em massa. De acordo com o livro Fashion and fiction: self-transformation in American literature, de Lauren Cardon, desde o começo do século 20, a ficção produzida nos EUA vende o sonho americano através da moda. Para a autora, a roupa aparece nas obras literárias do país como uma chave-mestra para entrar em esferas sociais alternativas, permitindo ao indivíduo transpor barreiras de classe, raç e gênero.

A gente também veste ficção

Se a literatura chick-lit ajudou a difundir a moda como consumo e glamourização, hoje obras decoloniais começam a ser reconhecidas como espaço para diferentes discursos sobre formas de vestir. É o caso do livro Garota, Mulher, Outras, da escritora britânica Bernadine Evaristo, publicado no Brasil pela Companhia das Letras. Foi também tema do último Fashion & Fiction, realizado em março de 2020. O evento, promovido desde 2015 pelo Victoria & Albert Museum, em Londres, convidou a autora de família nigeriana para falar sobre a composição visual dos doze personagens imigrantes ou descendentes de imigrantes de países africanos e caribenhos retratados na sua obra. Durante a apresentação, que pode ser assistida (em inglês) no Youtube, Bernadine diz que criar o visual e definir as roupas de suas personagens contribui para que elas ganhem materialidade. “Através da roupa, descrevo, sem precisar ser explícita, a cultura, o passado e os corpos dos meus personagens”.

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No Brasil, Salma Soria, a autora dos livros Vestindo a roupa ouvindo a máquina (2020) e Muitas roupas aqui (2021), publicados pela editora Penalux, encabeça um importante, mas ainda tímido, movimento sobre ficção de moda decolonial. A escritora propõe que, assim como ela, as pessoas escrevam literatura sobre moda a partir de seus atravessamentos sociais, fugindo de uma narração industrial. “Precisamos nos reconhecer na literatura. Não dá para termos como referência Emily em Paris”, afirma.

Nascida em São Gonçalo, cidade metropolitana do Rio de Janeiro, filha de pai alfaiate e neta de costureira, Salma cresceu ao lado de uma máquina de costura e teve sua vida transformada no ano 2000. Aos 13 anos, a autora escreveu uma carta de oito páginas para Paulo Borges, diretor da São Paulo Fashion Week – na época ainda Morumbi Fashion – contando que seu maior sonho era ser editora de moda. Paulo convidou Salma para assistir aos desfiles e assinar uma coluna no site oficial do evento. “Eu era uma espécie de repórter teen”, relembra ela, que apesar de apaixonada pelo trabalho, sentia um certo estranhamento com o ambiente. “Ia para São Paulo, vivia a alta moda e, depois, voltava para São Gonçalo, ciente do abismo entre esses espaços.”

Na literatura, a moda é mais um elemento da narrativa, a personagem pode dizer uma coisa e o que ela veste pode reafirmar sua fala ou dizer outra completamente diferente.” – Eliana Alves Cruz

Espaço que frequentou até os 18 anos, quando engravidou. “Tive filho muito cedo e parei tudo para cuidar dele. Foi quando acreditei que minha carreira na moda tinha acabado.” Mas não foi bem assim. Apesar dos desvios, Salma nunca deixou de escrever e trabalhar com moda. Fez faculdade na área, foi vendedora de loja, trabalhou no mercado de luxo e teve sua própria marca de saias, quando, munida de todas essas experiências, resolveu expressar em palavras seu olhar sobre o meio.

“Durante todos esses anos eu escrevia e escondia. As pessoas acham que a moda não é relevante." Por isso mesmo, um de seus maiores desafios foi explicar que seu trabalho retrata a moda por um viés diferente do que o público está acostumado. "Definitivamente, a moda de ficção que eu faço não é um passeio em Nova York. Observo a relação das pessoas com a roupa para além da prática comercial e gosto de narrar essas histórias. A moda não pode ser resumida ao consumo. Nós vivemos numa realidade tão desigual que me incomoda dedicarmos um espaço tão grande para falarmos só sobre esse tipo de moda. A gente também veste ficção”, conclui.

"Meu corpo também é um livro"

Outra autora decolonial que acredita na roupa como ferramenta narrativa é a escritora e jornalista Eliana Alves Cruz. “As roupas falam não apenas sobre a nossa cultura, mas revelam o lugar que ocupamos no mundo, falam também do espírito. O ato de vestir e despir pode contar sobre o desnudar das máscaras sociais ou o contrário”, comenta. “Sei que posso passar mensagens também pela minha imagem. Meu corpo também é um livro. Quando uso uma roupa feita de um tecido que é uma capulana moçambicana, estou referenciando uma estética, trazendo um outro conjunto cultural. Na literatura, a moda é mais um elemento da narrativa, a personagem pode dizer uma coisa e o que ela veste pode reafirmar sua fala ou dizer outra completamente diferente.”

Em Água de Barella (2018), publicado pela editora Malê, Eliana conta as histórias das mulheres de sua família. Ao descrever os bastidores de cuidado com as roupas, a escritora revela a estrutura de branqueamento social presente no país. O título faz referência ao procedimento para o branqueamento de roupas utilizado por gerações de mulheres negras para garantir o sustento e a existência de seus filhos e netos em situações de miséria e escravidão. “A vida inteira esse ofício de lavadeira me cercou e fascinou. Uma das memórias imagéticas mais fortes sobre a minha avó materna, é ela estendendo lençóis extremamente brancos em um gramado, ao lado da sua casa na zona oeste do Rio de Janeiro. Ver aquelas mãos pretas, que lavavam, amarravam trouxas de roupas tão bem passadas, para entregá-las nas casas abastadas, me fez fazer essa conexão imediata entre quem lavava a sujeira escondida em bairros distantes e quem usava a roupa limpa na elite.”

Quem lê moda no Brasil? Ou apenas quem lê?

Embora o cenário de publicações decoloniais no Brasil e no mundo seja otimista, os dados de leitura no nosso país ainda deixam dúvidas sobre o impacto da literatura na vida dos brasileiros. Divulgada em setembro de 2020, a última edição da pesquisa Retratos da leitura no Brasil, realizada pelo Instituto Pró-Livro em parceria com o Itaú Cultural, revelou que apenas pouco mais da metade da população brasileira (52%) tem hábitos de leitura e que, nos últimos quatro anos, o país perdeu mais de 4,6 milhões de leitores.

Ainda assim, nem todos os dados são desanimadores. Curiosamente, a queda no número de leitores foi puxada pelos mais ricos (- 12% na classe A, contra apenas - 5% das classes C e D). Sendo esta a primeira edição que o estudo adotou um recorte de raça em sua metodologia, o resultado também parece satisfatório ao mostrar que a diferença entre o número de leitores de pessoas brancas (55%) pretas (48%) e pardas (52%) não é tão alta assim.

São dados que revelam a conquista de um povo que o livro de Eliana também retrata de maneira exemplar. O acesso à educação foi um direito básico vetado por lei aos escravizados e que, para ser alcançado, precisou ser estabelecido como um projeto de vida de pessoas negras por gerações. Em 1920, por exemplo, apesar do país ter uma das produções editoriais e literárias mais intensas e volumosas do mundo, cerca de 72% da população não sabia ler nem escrever.

Por isso, fica claro, no livro e na história, que a educação é a forma adotada para a mudança de um destino socialmente pré-determinado a duras penas e muito esforço e sacrifício. Algo que só veio se concretizar de forma massiva com as políticas de cotas e projetos de bolsas estudantis implementados a partir de 2003.

"O Água de Barrela é como um bordado, uma costura de diversos fatores comuns à toda a negritude na diáspora africana. A ausência das crianças negras nas escolas provocou uma lacuna trágica no país. Tudo isso está no livro, quando as protagonistas precisam estabelecer estratégias para que tivéssemos acesso à educação de forma digna. Este livro estar em estantes de bibliotecas escolares é um troféu para sete gerações.”, finaliza.

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