Moda

Brechó na bike

Rafael Anic, do 3V, garimpa as jaquetas mais cool do Instagram em mochilões pelo mundo.

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Rafael Anic nunca foi do tipo fashionista. Antes de montar o 3V, brechó de jaquetas vintage que em menos de um ano já é sucesso no Instagram, ele dedicava seu tempo a mochilões pelo mundo. "Sou escoteiro, minha pira sempre foi ao ar livre", diz ele. Foi só em 2017 que as coisas mudaram de rumo. Na época, sua irmã, Luara, sugeriu que ele começasse a trazer roupas de segunda mão para vender no Brasil e bancar os custos das viagens. "Estava na Croácia. Nunca fui do mundo da moda e das roupas, mas gostei da ideia e comecei a pesquisar", relembra.

Com uma passagem promocional, Rafa seguiu para Portugal e iniciou o garimpo. "Passei pela Sérvia, França, Espanha, Hungria e em cada parada ia atrás de tudo ligado à revenda de roupas". Seguindo a intuição, decidiu apostar primeiro nas jaquetas, por ter uma familiaridade maior com a peça. "Sempre partiu de um gosto pessoal meu e não de ficar buscando marcas específicas", conta ele que, apesar do pouco conhecimento fashion, sabia que grifes como Columbia, Adidas e North Face eram bons nomes para o start. E acertou. "As jaquetas venderam em minutos. Daí, fui orquestrando mais, porém sem experiência nenhuma, só com o conhecimento de corres."

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Cartazes feitos por Rafael Anic para colaborações durante sua viagem de bicicleta pela América Latina.Foto Cortesia/Rafael Anic

Expert em roteiros low budget, rapidamente planejou os próximos passos, sempre associando o garimpo vintage a rolês ao ar livre. "Voltei da Europa no fim de 2018 e, em maio de 2019, saí de bicicleta da minha casa, em São Paulo, e fui até a Bolívia." Foram cinco meses de bike pela América Latina, passando pelos lugares mais inóspitos, como o Salar de Uyuni, onde chegou a dormir por uma noite, sem saber que corria o risco de ser atropelado por caminhões de tráfico clandestinos que andavam sem farol pelo deserto de sal durante a madrugada. "Dormíamos em ginásios, nos canos debaixo da estrada, acampamos em ruínas e rodoviárias", conta ele, que ainda precisou de esforço e foco dobrado para carregar todo o garimpo vintage no bagageiro da bicicleta.

Mas nem tudo foi perrengue e graças à generosidade das pessoas na estrada, houve momentos de conforto. "Muita gente nos cedeu cama para dormir, nos deixaram acampar em terrenos, deram banho e comida", diz. O sentimento de empatia não só ficou na memória, mas também influenciou o brechó de certa forma. "Hoje penso mais em dar acesso a pessoas que gostam dessas roupas, mas não têm como bancar o preço original das marcas", conta ele. Seus produtos não passam de R$ 300. "Às vezes, conseguir vestir algo foda é uma realização e, para mim, isso é o que faz mais sentido nesse negócio."

Rafael Anic

Foto Cortesia/Rafael Anic

Outro aspecto que conduz o business é o reaproveitamento. "Nesse processo percebi o quanto tudo é descartável", revela Rafael. "Encontrei peças novinhas, que provavelmente haviam sido descartadas por alguém que já estava comprando outras", reflete ele, que também notou um pouco de descaso com a causa ambiental entre os donos de brechós. "Dentro dos grupos que participo no Whatsapp, por exemplo, foca-se mais nos garimpos em si e em achar marcas vendáveis, do que na conscientização".

No caso do 3V, conscientização vem em primeiro lugar e já começa pelo nome, uma homenagem à tia avó, Teresinha de Jesus. "Quando ela emprestava tupperware para a gente, sempre falava que era 3V: vai e volta voando", lembra. "Isso tinha tudo a ver com o conceito da loja, da roupa descartada que vai e volta pra ser ressignificada." Nômade de raiz, Rafael também não se apega à vida online e adota uma atitude low profile em relação às redes sociais. "Não tenho interesse em associar meu perfil pessoal ao brechó, mas respondo todo mundo, gosto da informalidade e de ter uma relação humana. Às vezes, até aconselho alguns a não comprar".

Com a pandemia, as viagens tiveram que ser adiadas, mas Rafa ainda tem estoque garantido para os próximos meses. "Como trago de baciada, ainda tenho bastante coisa e espero poder viajar em breve". Portugal está novamente nos planos, assim como como Paquistão e Ucrânia.



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