Fotos: Divulgação
PUBLICIDADE

A ideia inicial era fazer apenas um grande resumo com os principais destaques dos desfiles masculinos que acontecem nesta semana em Paris. Acontece que os primeiros dias de apresentações foram tão bons que a gente não se aguentou. Principalmente depois da grande homenagem da equipe de criação da Louis Vuitton a Virgil Abloh, diretor artístico da linha até sua morte, em novembro passado.

Esta foi a primeira coleção feita sem contribuição do designer. Ainda assim, sua presença e influência eram visíveis. O desfile começa com uma apresentação da banda da Universidade de Agricultura e Mecânica da Flória, uma faculdade pública historicamente atrelada à comunidade negra local. Os músicos marcharam por uma passarela amarela elevada, construída no pátio do Museu do Louvre, numa alusão direta à estrada de tijolos que guiou Dorothy em Oz, referência recorrente e querida de Virgil.

Do primeiro ao último look, não faltaram referências aos pilares sobre os quais o estilista, DJ e artista construiu não só uma nova linha masculina para Louis Vuitton, mas todo um outro capítulo na história da moda. Começando pela valorização da educação – e uma que não privilegia alguns poucos estudantes. Passando pela maneira como cada peça foi criada: colaborativamente, assinada não por um, mas um grupo de estilistas, todos com experiência bem próxima ao então diretor artístico. E mais as várias referências às culturas negras, da trilha sonora ao styling até a mochila-paredão de som.

PUBLICIDADE

Louis Vuitton.


Chapéus de marinheiro, aviões de papel, bolsas em formato de caminhão, bolsos coloridos e felpudos, mangas cobertas por desenhos de crochê e mais uma série de elementos lúdicos lembram da máxima de Virgil: olhar o mundo como uma criança, livre das pressões e moldes da sociedade e vida adulta. O que explica muito do que se viu na coleção.

Nada era exatamente como se espera ou conhece. Uma jaqueta de motociclismo tem seus botões e fechamento cortados sinuosamente. Ternos são encurtados, com barras em zigue-zague, e usados sobre camisas oversized com bermudões ou calças cargo jeans ou de tecidos franjados ou reluzentes.

Já falamos aqui sobre como esta temporada de desfiles masculinos tem se desenrolado em cima de uma visão sofisticada e elaborada de básicos do guarda-roupa. O verão 2023 da Louis Vuitton não é diferente, apenas mais intenso e com significados mais profundos. E, a bem da verdade, essa é uma ideia da qual Virgil foi early adopter. Desde sua estreia na maison francesa, dar mais familiaridade a peças de luxo (ou vice-versa), foi uma de suas principais ferramentas de trabalho e criação.

Ainda que com um resultado e produto mais complicado, é um pensamento do qual o estilista belga Glenn Martens também compartilha. O diretor de criação da Y/Project fez fama subvertendo peças do dia a dia: o jeans, a camisa, a camiseta, o blazer, o trench-coat. Às vezes, a desconsideração com as bases tradicionais era tanta que a própria descrição da peça se tornava tarefa árdua.

Y/Project.


Para o verão 2023, o modus operandi é o mesmo, só um tanto mais sofisticado. Além das já conhecidas experimentações com denim e algodão, entram em cena tecidos mais finos e nobres, todos tratados de forma similar. A técnica que parece fazer com que uma regata branca flutue sobre o corpo (suspensa por um fio quase invisível) também é aplicada a vestidos-camisola assimétricos ou peças que combinam jeans e malha. Ou pelo menos parecem combinar.

É que, em continuidade à parceria com Jean Paul Gaultier, Glenn traz toda uma nova estamparia com efeito de ilusão de ótica (o tal trompe l'oeil). Na estação passada, eram imagens que simulavam uma fotografia térmica do corpo humano. Agora, são imagens de roupas abertas, lingeries e tudo mais que indique o ato de se despir.

Tem ainda o acessório mais repostado das redes sociais: um brinco no formato de uma mão com dedo do meio levantado. Gestual mais popular do que polêmico, utilizado à exaustão por um tanto de designers, artistas e movimentos culturais, mas que casa bem com a atitude da Y/Project: essa colagem e remix de tudo que é a base criativa de um tudo, sabe-se lá desde quando.

Rick Owens.


Rick Owens, por exemplo, fez seu verão 2023 todo baseado numa viagem recente ao Egito, mais especificamente ao Templo de Horus. Tudo bem que a inspiração não foi bem literal e a coleção, uma das mais leves e coloridas já apresentada pelo estilista. Não dá para dizer que é algo simples, mas as construções ou pelo menos as camadas em que elas se desenvolvem chegam menos complexas – ou pelo menos mais transparentes.

Lemaire.


Na Lemaire, simplicidade é essencial. A marca é construída a base de camisas oversized, calças amplas e vestidos afastados do corpo, quase sempre em tecidos naturais e tons neutros. Nesta temporada não é diferente, apenas a forma de apresentação. Em vez de um desfile tradicional, os convidados caminhavam por uma sala onde os modelos agiam naturalmente, não muito diferente dos convidados, conversando em pequenos grupos, debruçados na janela, sentados à mesa. Uma ideia não exatamente nova, a ruptura entre público e plateia ou, no caso, convidados e passarela, é algo que vem ganhando cada vez mais adesão nas últimas temporadas. É também algo que parece fazer cada vez mais sentido (ou parecia), num momento em que a conectividade digital finge deixar todo mundo no mesmo balaio.

Tenha acesso a conteúdos exclusivos
ASSINE A ELLE

A ELLE Brasil utiliza cookies próprios e de terceiros com fins analíticos e para personalizar o conteúdo do site e anúncios. Ao continuar a navegação no nosso site você aceita a coleta de cookies, nos termos da nossa Política de Privacidade.

Assine nossa newsletter

Doses Semanais de moda, beleza, cultura e lifestyle, além, é claro, de todas as novidades e lançamentos da ELLE no seu inbox.
Increva-se gratuitamente.