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Fotos: Camila Svenson
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Quando um estilista explica as referências de seu desfile não é raro haver muita conversa para boi dormir. E, por isso, às vezes é preferível olhar direto para a roupa do que cair no conto do vigário, no papo do criador que não necessariamente traduziu o que queria na coleção e procura vencer na lábia.

Só que quando Jorge Feitosa, 42, define o que inspira a sua mais recente apresentação na Casa de Criadores, fica difícil resistir. "Ela tinha 80 anos de idade quando se apaixonou", ele começa. E quem não se permitiria ouvir uma história como essa?

O estilista se refere à Dona Constantina, sua avó materna, a quem ele dedica o filme com os 9 looks que construiu nesta temporada. "Foi um amor romântico. Ela tinha 80 anos quando se apaixonou por um senhorzinho, um dos vereadores da cidade. Ela ia à Câmara de Vereadores só para encontrá-lo, mas sempre em vão. Ele não dava bola, porque era casado". E, bem, talvez seja importante contar que ela também era.

O caso foi o horror da família. Todos se envergonharam profundamente porque "ela parecia uma adolescente", colecionava os santinhos de candidatura do político e fugia para se declarar. Havia fuxicos na cidade sobre o que estava rolando com Dona Constantina e foi necessário até mesmo a convocação de uma reunião formal com o tal do vereador só para ele dizer que nada daquilo vingaria. Constantina, porém, seguiu apaixonada.

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"E eu lembro que, no meio disso tudo, inventaram que minha avó estava louca. Internaram ela em um hospício, um dos últimos manicômios que existia por ali", relembra Feitosa.

Com o devido cuidado para não culpar as escolhas passadas, o estilista recorreu apenas à própria memória, de quando vivenciou tudo aquilo por volta dos 20 anos de idade. A história retida às próprias lembranças é uma maneira de prender o ocorrido em um lugar seguro. Talvez, assim, seja mais fácil aceitar que, de fato, houve relação entre aquela paixão e a internação, como outros familiares poderiam negar.

"Lembro a calaram, ela e o amor dela. A lembrança que tenho é a de que minha avó ficou um bom tempo ali, ainda que me digam que tenha sido três dias. E eu recordo que ela voltou machucada, psicologicamente e fisicamente machucada. Demorou para os efeitos dos remédios passarem. E, quando voltou, já não era mais a mesma. E eu tenho para mim, quando puxo na memória, que morreu logo em seguida."

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Se a memória é o jeito que a gente tem para editar os fatos, Feitosa se dá um pouco de liberdade nessa história para interpretar o ocorrido no presente e, assim, entregar um final merecido a avó.

Voltemos à sua nova coleção. O filme Vote no Amor é dividido em três partes: romance, manicômio e redenção. Nele, a modelo Deuza Goulart, aos 77 anos de idade, empresta seus cachos rosas à interpretação de Dona Constantina. "Minha avó tem uma redenção nessa nova história, transformando tudo em amor próprio, juntando os retalhos que sobraram e se remontando. Ela renasce", explica.

Essa baita memória poderia ser esmiuçada em um estudo riquíssimo de coleção, algo muito detalhado. Há, inclusive, a produção de uma bolsa com o nome da avó, em que cabides no lugar das alças tentam lembrar o jeitinho caprichado que ela costumava se vestir. No entanto, a história parece servir a um propósito mais delicado e, sem dúvida, muito importante. Recuperando a memória, Jorge Feitosa assinala a identidade da marca, neste quinto desfile para a Casa de Criadores, que é a preservação da Feira da Sulanca.

A família inteira do estilista é formada por costureiros, inclusive a avó em questão, que fazia cobertas de retalhos. A reunião de tecidos costurados não é algo novo no trabalho de Feitosa e nem é para o mundo. Afinal, todos reconhecem um patchwork de longe.

Essa mesma técnica, porém, é aprendida e preservada na região em que ele nasceu, a cidade de Santa Cruz do Capibaribe, em Pernambuco, onde a fonte de renda para muita gente é a feira. E ela pode e deve ser valorizada enquanto tecnologia brasileira por reunir memória, improviso, preocupação sócio-ambiental, além de um estudo de formas e cores bastante plural dentro da moda.

Esses "ajuntamentos" de tecidos que podem ser lidos como algo regional é o mesmo patchwork que grifes internacionais caem de amores neste mesmo momento. O olhar limitante, porém, segue a tratar a sulanca brasileira como um mero artesanato, um lugar que vende colcha de tecido.

A técnica nas mãos desse estilista é executada com precisão em até 16 tecidos estampados que foram alinhavados em uma mesma peça, sendo uma dessas estampas desenvolvidas em parceria com a Lunelli. Os looks têm modelagens nada aprisionadas, que se diversificam com o tempo e são bem cosmopolitas.

Os desdobramentos comerciais, apresentados no meio do filme, entre uma parte e outra da história de Dona Constantina, podem ser vistos por quem assiste como deslocados do todo, mas inegavelmente mostram a técnica em roupas possíveis, práticas e urbanas. E o que mais um designer poderia mostrar senão uma consequência prática e pouco literal de um conceito que é bastante rico?

A história, às vezes, vale a pena. Neste caso, não só empresta o pano de fundo à coleção como também localiza a origem do tipo de roupa que esse estilista faz, com recortes, misturas de cores e texturas. E também serve como recado. Brincadeiras à parte com o vereador, Jorge Feitosa aproveitou a deixa pra soltar também um poeminha: "quem vota com amor não vê a dor".

Que sirva para 2022 e também como voto de confiança para o designer. A escolha pelo amor pode parecer simples, mas também é revolucionária.

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