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Uma das previsões para o mundo pós-pandemia é de que os hábitos de consumo mudarão. Se isso é verdade ou não, ninguém sabe. O que sabemos, por enquanto, é que, apesar da apreensão em relação à economia e ao futuro em geral, tem muita gente investindo em peças com mais durabilidade, compromisso sustentável e produzidas de acordo com práticas trabalhistas mais éticas.

Segundo apurado pela reportagem de ELLE, marcas autorais de joias, acessórios e bijouterias viram um aumento considerável no número de vendas durante os meses de quarentena. Entre os principais motivos para tanto estão: uma maior atenção por parte das grifes às redes sociais e um interesse genuíno de quem tem capital disponível para investir e apoiar pequenos empreendedores.

Desde o início da pandemia, fala-se muito sobre ajudar marcas pequenas, independentes e, muitas vezes, comandadas por mulheres. Além desse sentimento de comunidade, há o desejo de investir em peças que poderão ser usadas por bastante tempo, que não sairão "de moda" rapidamente. Em um cenário nada otimista como o que vivemos agora no Brasil, as prioridades se transformaram. Não sabemos em quanto tempo tudo voltará ao "normal", então a ideia é comprar peças que podem ser usadas tanto dentro quanto fora de casa, quando for seguro sair às ruas.


A modelo Paulo Queiroz posa com colar e pulseira da marca Gostou Acess\u00f3rios.

Gostou Acessórios.

Foto: Daniel Raña | Modelo: Paula Queiroz

"Outro ponto é que, e digo por experiência própria, você coloca uma blusa de pijama e um bom brinco e já fica arrumada", conta Daniela Menezes, dona da Gostou Acessórios. A marca vende brincos, colares, pulseiras e anéis produzidos manualmente e, nas últimas semanas, registrou um crescimento significativo nas vendas. "Sempre busquei consistência nas peças que vendo. Hoje, traduzo isso em itens atemporais, que carregam minimalismo na forma, contam histórias, têm design, bom acabamento e, na medida do possível, são acessíveis", explica a designer.

A Gostou Acessórios nasceu como um hobby, quando Daniela ainda era engenheira. De nove anos pra cá, ela se mudou de Aracaju para Campinas e se dedicou 100% à marca. No momento delicado em que vivemos, ela gosta de conversar com suas clientes para deixar claro que todas as peças são feitas artesanalmente, combinam entre si e complementam qualquer personalidade.

Já o designer Pedro Nart prefere olhar para o passado para entender o que está acontecendo agora no mercado. "Eu sinto que o aumento de vendas ocorreu por uma questão histórica. Se você analisar os pós-guerras e seus impactos, tanto na moda quanto na joalheria, percebe que as pessoas se envolvem muito em áreas criativas quando as crises apertam", explica ele, nome por trás da Nart Studio, joalheria especializada em peças minimalistas e com design arrojado.

Nart Studio.

Foto: Gustavo Zylbersztajn | Beleza: Helder Rodrigues e Juliana Boeno | Modelo: Chelfa Caxino

Investir em peças que podem ser usadas para sempre não significa, necessariamente, comprar ouro e diamantes – como já foi regra para as classes mais altas. Procurar acessórios que se encaixam no seu estilo, mesmo sem ser clássicos, parece a opção mais em alta no momento. "Vendo produtos que são realmente diferentes e as pessoas buscam por isso", conta, ao apontar que quase dobrou o número de vendas desde que a quarentena começou, passando de um faturamento de 18 mil (no primeiro trimestre) para mais de 30 mil (no segundo).

BONITA PRA CARAMBA (NO ZOOM)

Outro fator importante quando falamos no crescimento de demanda por joias e bijuterias é a videochamada. Seja em reuniões de trabalho ou nas festinhas online que têm crescido exponencialmente, os acessórios destacam a qualquer look. Nesse caso, quanto mais extravagante e diferentão, melhor.

As peças de cerâmica da Ímpar Ateliê, marca nascida há apenas um ano pelas mãos de Dandara Sevilha, são um bom exemplo. "Não uso moldes, então mesmo que eu faça o mesmo modelo, elas não ficam iguais. A cerâmica artesanal tem muitas variáveis, como a temperatura, a prateleira no forno… Todas as etapas são muito peculiares, por isso, o resultado é sempre único", conta. Para se destacar nas telas, o único e até o imperfeito causam melhores impressões.

Modelo posa com brincos da \u00cdmpar Ateli\u00ea.

Ímpar Ateliê

Foto: Mylena Saza | Beleza: Camila Anac | Styling e direção criativa: Maika Mano | Modelo: Elie Carvalho

Durante a quarentena, a marca de Dandara, que tinha ponto fixo na loja colaborativa Goiaba Urbana, em São Paulo, descobriu a força e o alcance da internet. Suas peças, que demoram em média 20 dias para ficarem prontas, reportaram um bom aumento nas vendas. Antes da pandemia a designer vendia um brinco a cada dois meses. Agora, são entre três e quatro.

Gla Acessórios.

Foto: Gabriela Schmdt

Quando a pandemia chegou ao Brasil e quarentenas foram decretadas, a Gla Acessórios estava no meio do processo de desenvolvimento de uma coleção de cintos e bolsas. Tudo teve que parar. Como alternativa, os designer Marcelo Jarosz e Frederico Piu focaram nos itens que poderiam fazer eles mesmo e artesanalmente. "Lançamos uma coleção Gla bem classicona [com volumes extravagantes e formas divertidas]. A gente atende um grupo bem fashionista e as clientes com as quais tivemos mais troca durante a venda falaram que precisavam muito de acessórios novos para calls, reuniões de trabalho e encontros online", explica Marcelo Jarosz. Segundo ele, o momento mais aquecido da quarentena foi nos primeiros 45 dias de isolamento social.

Still composto com colar da marca Gansho.

Gansho.

Foto: Fernanda Rebello

Para outras marcas, o começo da crise foi um momento de reflexão. É o caso da Gansho, de Fernanda Rebello. "A quarentena mudou absolutamente tudo na minha vida, pessoal e profissional. Saí da LOOL, estou deixando o ateliê que alugava junto com a Soy Vos e Ana Sano e estou quarentenando na casa da minha namorada, para onde trouxe tudo que precisava para produzir a distância", conta a designer dos acessórios com pinturas divertidas e camp.

Diferente das outras entrevistadas, Fernanda estava praticamente sem estoque quando medidas restritivas entraram em vigor. Sua nova coleção seria lançada naquele mês de março, mas ela decidiu dar um passo atrás e esperar até junho para retomar as atividades e comercializar novos produtos. "Recebi bastante pedido de encomendas de clientes antigos e novos. Acho que os aumentos nas vendas estão acontecendo porque as pessoas estão entediadas em casa e a compra serve como uma pequena autoindulgência, já que as notícias estão tão ruins o tempo todo", explica.

A Pakera Pakera viu suas vendas aumentarem em torno de 20% durante o isolamento social. Os acessórios kitsch criados por Lívia Torres são daqueles que prendem o olhar em qualquer situação, seja por suas cores ou pelo uso da palavra Pakera (um ótimo iniciador de conversas). O mesmo ocorre com a designer Jana Favoreto, que faz peças minimalistas e chamativas na mesma proporção e que teve aumento de 41% nas vendas desde março. Ambas acreditam que os projetos sociais em que se envolveram impulsionaram esses números.

Pakera Pakera.

Foto: Rafael Define

"Sempre acreditei na força do coletivo. Resolvi organizar um número de marcas para pensarmos em alternativas mais saudáveis para nossos negócios", conta Lívia, que co-fundou As Coletivas, um grupo de sete marcas que se uniram para criar ações sociais, como ajuda à mulheres em situações vulneráveis durante a pandemia. Favoreto também reverteu parte de seus lucros para ajudar o Hospital Universitário de Londrina: durante todo o mês de abril, 20% do faturamento foi doado ao hospital, que é referência no tratamento da covid-19 na região. "Além disso, acredito que quem já estava trabalhando bem o online, como é o meu caso, teve uma vantagem, já que o consumidor estava acostumado a consumir aquele produto digitalmente", diz.

Jana Favoreto.

Foto: Fernanda Pompermayer e Amanda Lavorato | Modelo: Amanda Lavorato

QUESTÃO DE VALOR

Joias, usualmente mais caras e tratadas como peças-investimento, tiveram aumentos menos expressivos durante o período de isolamento. Isso se deve tanto à insegurança econômica causados pela crise da Covid-19, quanto à resistência desse mercado no varejo online. Ainda assim, é um movimento a ser investigado.

Paola Vilas.

Foto: Lucas Sant'Ana | Modelo: Paola Vilas

Marcas como Paola Vilas, uma das joalheiras brasileiras que vem se destacando por aqui e internacionalmente, notaram crescimento nas vendas online. Em janeiro, as operações de e-commerce representavam 11% do faturamento total, agora, representam 69%. A carioca, que lançou sua marca homônima em abril de 2016, faz pequenas esculturas em forma de joias e hoje as vende em lojas como Selfridges e Net-A-Porter. Ela é a responsável pelo boom dos brincos com rostos riscados, tendência mundial que vem bombando tanto no métier de joias quanto no de bijouterias. Também famosa pelas peças com corpos e rostos femininos, conta com dois pontos físicos, um em São Paulo e outro no Rio de Janeiro.

Estratégias de descontos agressivos também foram importantes para a joalheria, permitindo a participação de um público que dificilmente compraria à preço cheio. Foi o que percebeu a designer Camila Alves, da Arqvo. "Graças aos descontos, percebi que muitos clientes estão usando minhas peças como forma de adorno para as vídeo chamadas e para presentear a distância, por ser algo que não precisa escolher tamanho", aponta.

Arqvo.

Foto: Giovanna Gebrim

A marca, que nasceu de seu TCC em 2017, tem como diferencial o uso de materiais incomuns. "Criei joias feitas com pedaços de madeira encontrados em viagens, azulejos, botões vintage e conchas. Tudo isso foi apresentado como se fosse um pequeno gabinete de curiosidades, com lupa para cada pedaço que foi exposto", relembra. A Arqvo, apesar de estar com dificuldade em encontrar os materiais com os quais está acostumada a trabalhar, apontou crescimento de cerca de 10% nas vendas.

Paula Marques trabalhou durante 18 anos como estilista de grandes marcas. Quando desejou criar algo guiado pelo seu desejo – e não por tendência –, se encontrou na joalheria. Abriu sua marca homônima em 2013 e, como fez escola no minimalismo dos anos 1990, se agarrou nos materiais, na geometria e na mistura de banhos. Por conta de sua produção pequena e artesanal, conseguiu mudar seu ateliê para a sala de sua casa. "Me permiti um tempo para equalizar. Por sorte, eu tinha uma produção chegando e vários desenvolvimentos em andamento", lembra. "Por sermos pequenos e trabalharmos em casa, seguimos, porém num ritmo bem mais lento".

A vantagem de se manter pequeno em um mundo onde buscamos, cada vez mais, proximidade e identificação, faz com que essas marcas que sempre tiveram relacionamentos estreitos com suas clientes ganhem pontos. "No início, muitas das minhas clientes antigas me procuraram, compraram peças novas, trocamos impressões sobre o momento… Recebi muito apoio e isso foi fundamental", explica Marques. "De uns tempos pra cá, notei muitas clientes novas. O interesse é crescente", finaliza.

Paula Marques.

Foto: Nathalie Bohm | Modelo: Paula Marques


Ao longo de quase dois meses, ELLE Brasil conversou com mais de 40 profissionais diretamente afetados pela crise da covid-19. O resultado é uma série de reportagens com relatos profundos de uma indústria desesperada por esforços coletivos.



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