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Pense em todos os estereótipos indígenas difundidos por aí. Amasse, rasgue, jogue fora. Conheça Katú Mirim.

Rapper, ativista, criada na periferia paulista, Katú, 33 anos, é uma das faces de um movimento que ganha cada vez mais força nas cidades brasileiras: indígenas que vivem em contexto urbano e lutam para quebrar paradigmas, ao mesmo tempo em que buscam preservar sua cultura ancestral. Alguns nasceram em aldeias e se mudaram para a cidade, como a pernambucana Chirley Pankará, 45 anos, a primeira mulher indígena a ocupar a Assembleia Legislativa de São Paulo. Outros, como Katú, adotada ainda bebê por pais brancos, só descobriram sua essência mais tarde, quando conquistaram autonomia suficiente para percorrer os caminhos em busca de suas raízes. Quem teve mais sorte contou na infância com alguém na família para transmitir a história das gerações passadas — caso da jornalista Renata Tupinambá, 30 anos, de Niterói (RJ), que tinha na avó materna sua maior referência. Renata é a idealizadora da rádio Yandê e co-criadora do Yby, o primeiro festival de música indígena contemporânea do país, do qual também é curadora.

Ter vergonha das origens quando criança, para depois crescer e se orgulhar delas, é comum. Euníce Baía, 29 anos, coordenadora de figurino do Balé da Cidade de São Paulo e criadora da marca de roupas Oka, passou por esse processo. No início dos anos 2000, a paraense Eunice ficou conhecida por interpretar a protagonista dos filmes Tainá, Uma Aventura na Amazônia, e Tainá 2, A Aventura Continua, e conta que por causa do preconceito chegou a se arrepender de ter participado das produções.

Em comum, todas essas mulheres têm uma necessidade constante de reafirmar a própria identidade em uma sociedade apegada à crença de que "índio que é índio mora na floresta".

Chirley Pankar\u00e1, de cocar, em foto PB

Chirley Pankará é a primeira mulher indígena a ocupar uma cadeira na Assembleia Legislativa de São Paulo.

Foto Carine Wallauer


Dos cerca de 817 mil indígenas do país, aproximadamente 300 mil vivem em cidades, de acordo com os dados mais recentes do IBGE (de 2010). Mesmo longe do garimpo e dos madeireiros, a vida dos indígenas no contexto urbano está longe de ser pacífica. A luta por território também ocorre nas metrópoles. Entre fevereiro e março, Chirley e Katú participaram ativamente dos protestos dos guaranis contra a construção de um condomínio de prédios numa área vizinha à aldeia da comunidade, no Jaraguá, zona norte de São Paulo. Por quase 40 dias, os manifestantes ocuparam o local para impedir a derrubada da mata nativa. Depois que a Construtora Tenda, dona do terreno, conseguiu a reintegração de posse, os guaranis passaram a ocupar a entrada da área, mas tiveram que desmontar acampamento por causa da pandemia do novo coronavírus. O impasse ambiental continua.

Tr\u00edptico de fotos de Eunice Ba\u00eda pintando o rosto com urucum

Eunice Baía: "Até a adolescência, eu tinha vergonha de ser indígena na cidade, porque sofria muito preconceito na escola".

Foto Carine Wallauer

Mas as causas nas cidades não param na demarcação de terras. Katú é fundadora do portal Visibilidade Indígena, que promove o trabalho de artistas e outras ações focadas no protagonismo indígena. Também é co-fundadora do coletivo Tibira, que busca dar acolhimento e voz a indígenas LGBTQ. Chirley, co-deputada estadual com mandato coletivo pela Bancada Ativista do PSOL, tem passado a quarentena atarefada, coordenando a campanha de doações para comunidades nas aldeias do Estado de São Paulo e nas cidades, afetadas pela perda de rendimentos nessa pandemia.

Em entrevista a ELLE, Chirley, Eunice, Katú e Renata falam sobre luta, resistência, objetificação dos corpos, fantasia de Carnaval e sobre como é ser uma mulher indígena na cidade. Confira as visões de cada uma delas:

Em qual palco você luta?

Katú "A luta começa assim que a gente nasce na periferia e sem identidade. Fui criada por pais brancos (o pai biológico de Katú era um indígena da etnia Boe Bororo), cristãos e sem nada da ancestralidade. É uma luta que está comigo há muito tempo e o resgate de memória de identidade parece não ter fim. Sempre preciso me reafirmar para as pessoas. É complicado chegar nos espaços e explicar o beabá. Gostaria só de chegar e cantar, mas a questão da identidade sempre vem primeiro. Falo também sobre a questão de gênero, de fluir entre os dois gêneros. É uma bandeira que eu levanto também, assim como a da homofobia dentro das aldeias."

Eunice "É o tempo todo com as pessoas pensando que índio tem que estar lá na floresta, fazendo artesanato. É preciso quebrar esse estereótipo. Tá ficando feio esse pensamento já."

Chirley "A luta indígena não é uma só, são muitas, mas nossos maiores problemas têm a ver com a questão do genocídio, do ecocídio, da contaminação dos nossos rios e solos, da invasão dos nossos territórios. Em todos os momentos da minha vida estou atenta a essas questões."

Renata "Não esquecer minhas raízes e me comprometer em ser uma boa ancestral para as próximas gerações com o fortalecimento da etnia Tupinambá do século 21. A maior preocupação é com a juventude e com a autonomia e independência das comunidades. Falta a mentalidade do que é ser indígena no Brasil, ainda muito voltada para o colonizador. As pessoas não enxergam as nossas pluralidades e estamos aqui para mudar isso."

"Não tenho o fenótipo do que as pessoas entendem como indígena e me julgam o tempo inteiro".

Foto Carine Wallauer

Ser indígena no contexto urbano

Eunice "Até a adolescência, eu tinha vergonha de ser indígena na cidade, porque sofria muito preconceito na escola. Faz algum tempo que luto para aceitar quem eu sou, mas é complicado manter a cultura quando se está na cidade. As pessoas sempre me perguntam por que saí da floresta para morar em São Paulo. Ainda existe o preconceito de que indígena não tem conhecimento, tanto que sou a primeira a trabalhar no Theatro Municipal. É necessário mostrar para os não-indígenas quem somos e lutar por esses espaços."

Chirley "Sofro preconceito por ser do Nordeste e por ser mulher. Já chego a um lugar tendo que resistir para existir. Aqui em São Paulo você fala que é indígena e as pessoas acham que é mentira, porque não tenho o fenótipo do que as pessoas entendem como indígena e me julgam o tempo inteiro. Quando me veem nos espaços que ocupo, o preconceito muda e chegam os olhares ameaçadores, porque mulheres na linha da frente são consideradas ousadas demais. São as tentativas de apagamento que sofremos diariamente."

Renata "O indígena na cidade parece sempre ter um papel reduzido, como se não tivesse conhecimento das coisas. Sou jornalista, roteirista, produtora, poetisa e acredito que exista um estranhamento em relação a mim porque também fujo bastante do estereótipo do indígena que as pessoas buscam. Existe uma objetificação dos nossos corpos, um fetiche. Embora cada vez mais as mulheres indígenas estejam ganhando as universidades, o mercado de trabalho ainda tem muito preconceito e nos sobra o subemprego."

Katú "As pessoas não estão acostumadas, acham que a gente tem que estar lá no meio do mato, peladinha. É um pensamento racista, mas porque temos um Estado que encampou isso na raiz, nunca chegou no convívio dessa pessoa que não era assim, por isso que a representatividade e as narrativas importam. Quando estou num espaço, a música mostra a minha resistência, se eu sou a única rapper indígena é porque tem alguma coisa errada."

Existe feminismo indígena?

Chirley "Temos força e resistência para lutar em pé de igualdade, queremos estar lado a lado com eles. Nosso feminismo é coletivo. Fui criada em casa de mulheres, minha mãe nunca se casou, nunca a vi cozinhando para marido. Ela teve quatro meninas e só depois veio o menino. Eu sou mãe de duas meninas. Então, não sei falar de machismo. Já vesti uma armadura."

Katú "Nasci no meio da periferia, meu feminismo é diferente de uma mulher aldeada. Então, quando eu entro na aldeia do meu povo, ou dos outros povos, tenho que entender a cultura deles primeiro. Não posso chegar lá e falar 'mana, por favor, vamos denunciar esse cara que ele tá abusando de você'. Tem toda uma cultura e uma questão política da aldeia que eu preciso entender para saber o que a gente pode fazer. A nossa pauta de direito ainda é pela terra: são os dois gêneros lutando pela terra, para sobreviver. Nessa construção do feminismo indígena, tem que sentar com o homem e falar: nós vamos construir isso juntos porque, no final, os dois estão passando pelas mesmas coisas. Na hora de ir pra luta, alguns homens chegam e falam que não querem que a mulher dele vá. Aí a gente chega e fala que não deixar ela ir é errado, porque isso não tem a ver com a cultura, tem a ver com o machismo que a colonização colocou na cabeça dele.

Renata "É muito difícil pensar um feminismo indígena, talvez seja o caso de pensar em vários feminismos. A luta das mulheres são todas muito inspiradoras. Dizem que a forma mais eficaz de destruir um povo é primeiro destruir suas mulheres. Isso tem a ver com um sistema de exploração muito maior. Pensar um feminismo indígena tem que ser plural, porque há muitas de nós."

Eunice "Não vejo diferença entre o feminismo indígena e o não-indígena. É como eu disse para você, a luta é uma só porque somos todas iguais."

As fotos de Renata, que estavam marcadas para o início de abril, tiveram que ser desmarcadas por causa da pandemia, Mas você pode conhecer um pouco mais sobre essa jornalista, criadora da rádio Yandê, por este áudio enviado por ela.

Katu Mirim de perfil, com a lateral da cabe\u00e7a raspada e jaqueta vermelha e preta

Katú Mirim: "Nasci no meio da periferia, meu feminismo é diferente de uma mulher aldeada. Quando entro na aldeia do meu povo, tenho que entender a cultura deles primeiro".

Foto Carine Wallauer

Fantasia de índio?

Renata "O que gera o maior constrangimento dentro disso é que essas culturas sofrem uma diminuição. Imagina uma criança indígena vendo essas representações genéricas do que seria um índio, como é ofensivo. Não existe um limite do que pode e do que não pode, mas sim a necessidade do bom senso. Liberdade de expressão não pode ser liberdade de agressão."

Chirley "Essa polêmica tem um divisor de águas que não é interessante para nós. Um cocar tem uma força espiritual muito grande e, antes de ser algo material, é imaterial. Grafismos são as nossas primeiras linguagens e têm alguns que só nós podemos usar. Tudo nosso é a resistência de um povo. E se usar de qualquer forma banaliza a luta. Historicamente tentam nos apagar e conseguimos, nos arrastando, sobreviver. Já temos tantos problemas e causar polêmica para nos dividir é complicado."

Eunice "Para mim era normal a pessoa se fantasiar do que ela quisesse, mas minha opinião tem mudado. Começou a incomodar porque a mulher se veste de índio e fica mais pelada e reforça estereótipos. Para piorar, nem são as indígenas que estão lá pulando Carnaval."

Katú "O que aconteceu com o debate é que as pessoas não entenderam. A fantasia de índio começa com o racismo e a mercantilização tem a ver com a apropriação cultural. Um indivíduo compra uma fantasia porque na loja tem um cocar com uma etiqueta, a pessoa se veste com a fantasia e começa a construir estereótipos do índio selvagem, da hipersexualização e pensa que aquela pintura constrói homenagem, mas é racismo. Tem tanta fantasia, para que usar a de um povo à margem, massacrado?"

"Mulheres na linha da frente são consideradas ousadas demais. São as tentativas de apagamento que sofremos diariamente."

Foto Carine Wallauer

O que você gostaria que os não-indígenas entendessem de uma vez por todas?

Chirley "Deixem de nos matar, respeitem os nossos direitos de viver no nosso espaço. Parem de dizer que queremos nos integrar porque isso é uma tentativa de apagamento do nosso povo, da nossa história. Podemos estar nessa sociedade em comunhão com todos. Demarcação de terra, luta e resistência. Desistir jamais."

Eunice "Que somos iguais a todos, não existe distinção de cor e raça. As pessoas são muito apegadas a isso e conviver com esses julgamentos é muito chato. Sofri muito, falavam que aqui não era meu lugar. Por causa desses preconceitos todos cheguei a me arrepender ter feito o filme porque não queria ser conhecida assim. Entendam que somos todos iguais e podemos fazer o que a gente quiser."

Katú "Nós existimos e não somos aquele indiozinho do museu. Temos diversos fenótipos, temos culturas diferentes, somos contemporâneos, estamos no presente e podemos ocupar todos os espaços sem perder a nossa cultura, nossa ancestralidade, nossa memória. Respeitem nossos direitos constitucionais e vamos construir juntos um país que seja bom para todos."

Renata "Que as pessoas compreendessem que existem populações tradicionais que são contemporâneas e que a diferença é algo que vem a somar forças para o bem de uma comunidade maior. A mensagem que buscamos passar do meio ambiente, da comunhão com a natureza, é fundamental para as próximas gerações."

Edição de moda Lucas Boccalão. Produção de moda Diego Jagun. Produção executiva Mariana Araújo. Beleza Júlia Tartari.

Katú Mirim usa jaqueta Fendi. Chirley Pankará usa vestido Antix.

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