Colunistas

Negras maneiras

Hanayrá Negreiros, em sua coluna mensal, costura e escreve sobre moda, memórias e futuros possíveis.

Acervo pessoal
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Começo este texto celebrando uma herança da minha família: a música! Durante a leitura vocês perceberão que minha família me deixou algumas heranças que transbordam a barreira do que é material, mas dentre todas elas é a música que tem mais me ajudado nestes tempos incertos. Eu tive a sorte de ter um tio/padrinho, o nosso saudoso tio Jorge, que era o responsável pelas sonoridades em casa. Ele adorava Jazz e me ensinou a escutar as melhores musicalidades negras. A ele dedico este texto e a música "Exu", cantada por Juçara Marçal no disco Afrobrasilidades em 78 RPM, do Goma-Laca, que embala a escrita destas memórias em minha estreia como colunista na ELLE Brasil.


Eu havia começado este texto há alguns meses quando nós ainda não havíamos sido acometidos por uma pandemia global. De lá para cá, tudo mudou e agora nos vemos recalculando a rota e nos adaptando às novas realidades e possibilidades de ser e estar no mundo. Por aqui, sigo pensando em quais histórias eu quero contar. Sempre fui apaixonada por fotografias, especialmente as mais antigas, e foi durante a quarentena que me deparei com algumas fotos de família que estavam esquecidas em uma gaveta qualquer. Me dei conta de que precisava organizar algumas dessas memórias e que essa seria uma boa maneira, nostálgica, diga-se de passagem, de estar um pouco mais próxima de familiares e pessoas queridas. Vale dizer que todas as imagens que ilustram este texto são do acervo de minha família e tornaram esta escrita possível.

Comecei a lembrar e a notar não só os momentos registrados nas imagens, mas também as roupas que eu e meus antepassados vestíamos. O vestir e as memórias negras sempre estiveram ali presentes, ora em momentos de festejos como na fotografia já desgastada pelo tempo, feita por volta de 1956 na casa do meu bisavô materno Zeferino, ou nos registros do aniversário de 15 anos da minha mãe e em imagens da minha infância no centro de São Paulo com os meus pais. Me lembrei do momento que ouvi pela primeira vez os dizeres africanos "se wo were fi na wo sankofa a yenkyi", que quer dizer "nunca é tarde para voltar e apanhar o que ficou atrás. Foi a partir desses conhecimentos compartilhados pelos povos Akan de Gana, que percebi Sankofa como uma filosofia condutora de caminhos para se pensar futuros possíveis, uma alternativa para pensar o que teremos pela frente. Sankofa nos conta que só podemos avançar para o futuro se pararmos no presente para rememorar o passado. Conjuga-se aqui uma outra concepção de tempo, alterando os entendimentos cartesianos por ideias cíclicas e simultâneas. Tempos negros.

Foto da fam\u00edlia de Hanayr\u00e1 em 1956.

Casa do meu bisavô Zeferino Negreiros, São Paulo, por volta de 1956.

Acervo pessoal

Por isso a memória é alçada aqui como ponto de partida para caminharmos avante.

Negra e brasileira, me chamo Hanayrá, nome que me foi dado pela minha mãe Regina, a mulher mais corajosa que já conheci. Minha mãe conta que escolheu esse nome por acreditar que eu teria caminhos auspiciosos pela frente e que então precisaria de um nome a altura para me acompanhar nessas andanças. O meu nome significa "deusa dos ventos" e revela africanidades contidas nos raios, tempestades e ventanias conduzidos por Iansã. Formada em Negócios da Moda, durante a faculdade tive dificuldades de me sentir pertencente àquele espaço que não estava acostumado a receber pessoas com o meu tom de pele e textura de cabelo. Durante muito tempo me questionei se a moda seria mesmo o meu lugar. Já durante a minha pós-graduação em Ciência da Religião, pude experimentar outros entendimentos sobre moda, estudando os laços entre indumentária e candomblé, investigando sobre o axé nas roupas. Fico feliz em olhar especialmente para a trajetória das mulheres da minha família e perceber que faço parte de um clã de mulheres negras que puderam estudar. Minha tia-avó Rosa (Maria do Rosário) era historiadora e deixou pesquisas e livros que falam sobre as afro-religiosidades do Maranhão. Novamente as histórias, memórias e as heranças negras me ajudaram a desenhar os caminhos pelos quais eu deveria seguir e conhecer mais as histórias da população negra no Brasil e consequentemente, a da minha família me fez perceber o legado que meus ancestrais haviam me deixado.

Retrato de Hanayr\u00e1.

Fui fotografada durante essa quarentena pelo meu marido Felipe.

Acervo pessoal

Da esquerda para a direita: Eu e minha mãe Regina, fotografadas pelo meu pai no final de 1991; Eu e meu pai Spyrro fotografados pela minha mãe. São Paulo, década de 1990; Minha mãe, meu pai e eu em nossa antiga casa no centro de São Paulo, na década de 1990.

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Descendo de mulheres e homens negros que, assim como eu, estiveram ligados aos caminhos do vestir: minha avó materna Maria Therezinha, que aparece aqui muito jovem com os seus 19 anos, foi costureira de profissão até se casar com o meu avô Hércio, presente nestas imagens trajando o seu belo smoking preto em uma noite de gala, em algum ano da década de 1950. Minha mãe, filha deles e que aqui aparece com os seus 15 anos, na noite da sua festa de aniversário, conta que minha avó Thereza, mesmo depois de casada e não exercendo mais a profissão por conta das imposições machistas da época, continuou costurando em casa. Atualmente a sua máquina de costura, uma Vigorelli preta, decora a sala de casa. Por sua vez, minha mãe herdou o senso estético apurado do meu avô, que era um homem muito preocupado com as roupas e com o lustre dos sapatos, e as habilidades com as linhas e agulhas da minha avó. Mamãe sempre foi uma mulher muito vaidosa, vestida de cores exuberantes e lindas joias e panos de cabeça.

Da esquerda para a direita: Minha avó Maria Therezinha Negreiros de Oliveira, por volta de 1953; Meu avô Hércio de Oliveira na década de 1950; Minha mãe Regina em seu aniversário de 15 anos.

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Maria Joana, mais conhecida como Janoca pelos mais chegados e minha avó paterna, foi lavadeira e passadeira durante sua juventude, partilhando dos cuidados com as roupas juntamente com meu avô Alcindo, Cindô para os amigos, que teve como primeiro ofício a profissão de alfaiate, costurando ternos e camisas para a sociedade maranhense do século passado. Meu pai, Jorge Luís, popularmente conhecido como Spyrro, que não costura e nem projeta roupas, se mostra sempre preocupado ao escolher as peças que vai vestir, sendo muito vaidoso e amante de joias e adornos. Ele é jogador de basquete e me lembro dele ajeitando sua mala com o uniforme e tênis para ir jogar. Costumo dizer que o vestir é uma herança de família, e é por isso que o pensar a roupa como manifestação identitária se tornou minha maneira de ler e de me comunicar com o mundo.

Da esquerda para a direita: Minha avó Janoca e minha tia Ana Luzia, no Maranhão, por volta da década de 1980; Meus avós Janoca e Cindô em 2016 fotografados por mim, em São Luís, Maranhão.

Acervo pessoal


Me sinto feliz e esperançosa em partilhar da volta da ELLE, que se mostra cada vez mais importante para pensarmos linguagem e informação de moda de outras maneiras, reformulando o que já foi posto ou tido como "normal". Fica de uma vez por todas entendido a necessidade de refletir o papel das publicações de moda na nossa atualidade, recuperando valores que incentivem o diverso e as pluralidades, transbordando o universo da roupa e do consumo. Aqui, o conceito de Sankofa mais uma vez se faz presente, se conectando com ideia de retorno, de voltar atrás, para assim conseguir projetar outros tipos de vozes, corpos, histórias e pontos de vista.

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Aqui neste espaço, vamos pensar moda como memória, história e cultura a partir de perspectivas negras e, tendo em vista o nosso atual cenário, já aviso que a caminhada daqui para frente poderá ser longa e muitas vezes tortuosa. Porém por mais duro que o futuro possa parecer, o meu desejo é que esta coluna que estreia hoje, assim como a revista que retorna a público, seja também um espaço de respiro e um lugar para refletirmos sobre afeto, resiliência e ancestralidade como possibilidades de enfrentamento contra as incertezas que estão por vir. Que os caminhos estejam sempre abertos!

Hanayrá Negreiros é mestre em Ciência da Religião pela PUC-SP, costura e escreve ideias sobre negras maneiras de vestir.



Com ajuda das artes e do pensamento crítico, a escritora Joice Berth traz em sua coluna um novo olhar para a pauta do dia.


Nesta quarentena, a cultura da alta performance também se manifesta na ilusão de que devemos manter visuais impecáveis mesmo quando sequer há público para isso. Você desencanou total do espelho? Não se culpe por isso.

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