Lifestyle

Nenhum avatar é uma ilha isolada

Show com milhões de pessoas dançando juntas, festas, encontros entre amigos: a vida social nos games está bombando. Veja como a quarentena está mudando a nossa relação com os jogos eletrônicos.

Ilustração: Gustavo Balducci
PUBLICIDADE

Festas canceladas, bares fechados, ruas desertas. Solidão, né, minha filha? Não para todo mundo. No universo paralelo dos games, a vida social anda mais agitada do que nunca. Do clássico The Sims ao último lançamento da Nintendo, os jogos de simulação social têm sido para muita gente uma válvula de escape durante esse período de isolamento forçado. Uma descompressão virtual que vem permitindo encontros em festas de aniversário, casamentos e baladas em geral — sem cancelamento.

Com o distanciamento físico, o recém-lançado Animal Crossing: New Horizons virou o hit da quarentena. Desde o dia 20 de março, pessoas de todos os lugares — incluindo celebridades como Brie Larson, Maisie Williams e Elijah Wood — passaram a compartilhar suas casas, pomares e outfits com os seguidores em suas redes sociais.

Produzido para o console Nintendo Switch, o quinto game da franquia de sucesso da centenária Nintendo não impõe nenhum tipo de regra aos jogadores: tudo o que você precisa fazer é cuidar de uma ilha deserta e transformá-la numa comunidade calorosa e receptiva para atrair residentes. No meio do caminho, você pode matar o tempo catalogando espécies, construindo itens, pescando e até mesmo investindo (no mercado de nabos, escorpiões e tarântulas). O ponto alto do jogo, no entanto, está na interação. Em New Horizons você pode visitar a ilha de outros jogadores — o que é um ótimo pretexto para se reunir com os amigos em tempo real — ou conseguir dicas de decoração e aprender fabulosas receitas DIY na casa dos vizinhos.

Imagine um lugar onde o distanciamento social não é necessário e você pode encontrar seus amigos.

Nintendo / Reprodução

A dinâmica parece e é, de fato, simples. Mas a comoção que o jogo provocou deu origem a um enorme sistema colaborativo entre os usuários. Não demorou muito para que os fãs criassem páginas e aplicativos reunindo todo o tipo de informação sobre o game. E, graças à gama quase infinita de personalização de objetos e do próprio avatar, Animal Crossing acabou viralizando como uma plataforma onde você pode se expressar por meio da moda.

@nookstreetmarket

@nookstreetmarket

@nookstreetmarket

A fotógrafa e compositora Kara Chung criou o perfil Animal Crossing Fashion Archive durante a quarentena.

@AnimalCrossingFashionArchive

No início, os jogadores começaram criando suas próprias peças e espalharam QR codes pela web para que qualquer um pudesse usar. Em seguida, foi a vez dos perfis Animal Crossing Fashion Archive e Nook Street Market se destacarem replicando grandes marcas, de Gucci a Vivienne Westwood. E não parou por aí: nas últimas semanas, as grifes Marc Jacobs, Anna Sui e Valentino anunciaram coleções oficiais para o jogo e compartilharam o código para download com o público.

Se no confinamento o look do dia parou de fazer sentido, no videogame as peças de roupa vem sendo ressignificadas há algum tempo. Em Fortnite, jogo eletrônico de sistema Battle Royale (modalidade em que os jogadores lutam até restar apenas um sobrevivente ou um time vencedor) lançado pela Epic Games em 2017, os players são obcecados por skins. Além de ajudarem a diferenciar os usuários entre si durante uma partida, essas roupas virtuais adicionam personalidade ao avatar e podem indicar se um jogador é mais ou menos experiente que outro. Algumas skins são mais exclusivas e muito cobiçadas, já que não ficam disponíveis para sempre no game.

Colado na cultura pop, Fortnite também está redefinindo o conceito de "evento" em seu universo de pixels. No dia 23 de março, 12,3 milhões de players/espectadores largaram suas armas para assistir a uma apresentação virtual do rapper Travis Scott dentro do jogo. Enquanto o artista americano promovia o disco Astroworld, o público colocava seus avatares para dançar, com direito a microfones em chamas e bate-cabeça. "Honestamente, hoje foi um dos dias mais inspiradores que já vivi. Amo cada um de vocês, caras. E eu sei que o momento está esquisito para todos nós. Mas, por um instante, ter toda essa galera curtindo em qualquer lugar do mundo foi incrível. Amo vocês com todo meu corpo!", escreveu Travis em seu perfil no Twitter logo após o show. Segundo a desenvolvedora, essa foi a maior platéia que Fortnite já reuniu em um evento.

O aumento recente no interesse pelos jogos eletrônicos é evidente para quem trabalha com streaming de games, ou seja, transmite e narra suas partidas ao vivo. Para Melany Lo Lee, 24 anos, streamer de Fortnite há mais de um ano e parceira do Facebook, as visualizações aumentaram um terço após o início da pandemia. Com mais de 200 mil inscritos no YouTube, ela nota uma mudança no comportamento dos seguidores: "Como a classificação do meu canal é livre, tem gente de todas as idades me assistindo. Muitas pessoas ainda gostam de me acompanhar sem interagir, mas percebo que a carência cresceu bastante. Existe uma necessidade de atenção maior por parte do público agora", diz. Aliás, não é só o público que está carente de proximidade: "Apesar da distância física e da saudade, sinto que rolou uma aproximação genuína entre mim e os meus amigos. Existe um esforço maior para ficarmos juntos virtualmente", conta Melany.

"Apesar da distância física e da saudade, sinto que rolou uma aproximação genuína entre mim e os meus amigos. Existe um esforço maior para ficarmos juntos virtualmente"

A adesão de um novo público aos games durante a quarentena deve acentuar uma mudança que já estava em curso. Para quem produz os jogos, a impressão é de que a sociedade começou a entender melhor a potência dessa indústria e deixou de lado o preconceito – adultos responsáveis podem, sim, amar videogames. "A nossa relação com os games mudou. A geração que nasceu quando os videogames surgiram já está produzindo os seus próprios jogos. Não dá mais para dizer que videogame é nichado, existem jogos para todo o tipo de público", afirma Ricardo Laganaro, diretor e sócio da ARVORE Immersive Experiences, uma empresa brasileira focada em jogos eletrônicos e experiências imersivas.

PUBLICIDADE

Para Laganaro, a diferença entre fazer uma videochamada pelo celular e um chat em realidade virtual é enorme. "Mesmo que seja um avatar, ali dentro eu posso me mover e interagir diretamente com a outra pessoa, dividir o mesmo espaço. Tudo isso traz uma sensação de presença muito forte e poderosa", diz ele. "O contato físico nunca será substituído, mas as pessoas estão aprendendo a utilizar essas ferramentas de uma maneira mais saudável para solucionarem os problemas do isolamento. A tecnologia não está aqui para afastar ninguém", completa.

Para quem resgatou seu lado lúdico ao tirar o antigo videogame do armário ou começou a desbravar os mundos virtuais nessa quarentena, os jogos eletrônicos estão revelando um novo jeito de interagir em sociedade. E, de quebra, trazem uma boa lembrança para este momento: sempre é possível passar de fase, até mesmo das mais difíceis.

PUBLICIDADE

Que solidão, que nada

Confira uma lista com jogos eletrônicos para espantar o tédio e interagir com outros jogadores durante a quarentena:

Minecraft
Conhecido popularmente como o Lego dos tempos digitais, Minecraft conquistou fama e se tornou um dos games mais vendidos da história — até maio de 2020 já foram mais de 200 milhões de cópias comercializadas. Nesse mundo tridimensional, os jogadores utilizam blocos para criar estruturas e ferramentas, além de cooperar ou competir contra outros players no modo online. As possibilidades de criação são praticamente ilimitadas: em meados de maio, estudantes Universidade da Califórnia, em Berkeley, uniram-se para reconstruir o campus e conseguiram celebrar a colação de grau juntos, apesar do isolamento social.

Florence
Esse jogo de 2018 foi lançado inicialmente para mobile e posteriormente ganhou versão para outras plataformas. Acompanhando de perto a história de Florence Yeoh, uma jovem de 25 anos, o jogador precisa fazer escolhas e resolver puzzles para reforçar as ações da personagem. Focado na narrativa, Florence conquistou um fã-clube enorme e foi eleito como um dos melhores jogos da década.

Death Stranding
Lançado em novembro de 2019, Death Stranding se tornou uma assustadora amostra do que poderia acontecer caso o planeta sofresse uma pandemia. No game criado pelo premiado designer de jogos japonês, Hideo Kojima, você interpreta o papel de Sam Bridges, um entregador que passa os dias arriscando a própria vida para levar pacotes com mantimentos e remédios até os sobreviventes de um mundo distópico, onde mais ninguém pode sair de casa.

Second Life
Com uma premissa ambiciosa, de ser um simulador da vida real, a primeira versão de Second Life foi um hit no começo dos anos 2000. Agora, 17 anos após o lançamento, o jogo vive um novo boom durante a pandemia de COVID-19. Com economia virtual própria e infinitas opções de interação, a nova atualização entrega ainda mais autonomia para que os usuários criem e vendam suas produções.

League of Legends
Conhecido popularmente como LoL, esse jogo eletrônico do gênero multiplayer online é um dos maiores fenômenos de audiência. Nele, os jogadores controlam campeões com habilidades únicas e lutam contra outros usuários em tempo real. League of Legends também é conhecido por seu campeonato mundial no cenário competitivo de eSport, ou esporte eletrônico. Para o League of Legends World Championship realizado em Paris, no ano passado, a Louis Vuitton desenhou o baú para acomodar o troféu do vencedor e também skins para os campeões – que posteriormente viraram uma coleção física.

Pixel Ripped 1995
Essa uma aventura nostálgica em realidade virtual que coloca você para reviver de perto a magia dos anos 90. Sequência de Pixel Ripped 1989, o game apresenta agora elementos clássicos do imaginário da época, enquanto você encorpora um garotinho de 9 anos que precisa enfrentar desafios em 16 e 32 bits.


Os games ficam fashionistas e a moda encontra uma sobrevida no digital, principalmente em tempos de pouco contato. E, sim, hoje em dia já existe marca fazendo roupa sem costureiro, mas com expert em realidade aumentada e virtual.



Em sua coluna de estreia, Erika Palomino reflete sobre infomania, relações e consumo intermediados por telas.

Tenha acesso a conteúdos exclusivos
ASSINE A ELLE