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O dilema da pílula rosa

A sociedade não parece lá muito interessada em estimular a libido feminina. Mas será que queremos encontrar a solução na farmácia?

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O mundo inteiro se empenha quando o assunto é não deixar a libido masculina morrer. Há mais de 20 anos vimos um mar de pílulas azuis tomar conta das farmácias, e até hoje é comum ouvir nas rádios propagandas que prometem milagres e ereções de volta. Vou até me corrigir e dizer que não é bem a libido em si que é protegida pelo mundo, mas sim toda uma "honra" construída em cima de uma "obrigação" da disponibilidade sexual masculina. Muitas pessoas ainda acham que o "homem de verdade" não pode broxar, querer ficar mais na dele, não estar afim etc. E o oposto se espera das mulheres: que não devem ter vontade demais ou pensar muito no assunto. Muitas de nós somos vistas como seres inapropriados se demonstramos ter uma libido minimamente existente.

Como o tema da coluna deste mês é justamente a libido e existe uma disparidade muito absurda sobre como esperam que os gêneros performem ou a sintam de fato, hoje vou responder uma pergunta que também já rondou minha cabeça: "Por que o Viagra feminino nunca foi um sucesso como a versão masculina?"

Para responder essa questão, temos que entender primeiro o que um dos remédios mais famosos do mundo faz. Originalmente, ele foi criado para tratar uma doença cardiovascular, porém os médicos que acompanhavam os testes notaram um efeito colateral curioso: a pílula era capaz de trazer uma irrigação sanguínea impressionante para o pênis, criando uma ereção rápida diante da potencialização do óxido nítrico. E, bom, a partir daí, já sabemos o que aconteceu: um sucesso certeiro e nunca antes visto na indústria! A ereção foi resolvida, mas isso significa que os homens que tomam Viagra possuem o desejo mais ativo? Não necessariamente. Sua resposta é puramente física e nada profunda. Então, iria adiantar uma pílula que aumentasse a ereção clitoriana, mas que não trouxesse junto a vontade de se estimular? Difícil imaginar, né?

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Em 2015 (tanto tempo depois), a Food and Drug Administration aprovou nos Estados Unidos um remédio que prometia ser o Viagra feminino, mas que, em vez de irrigar sangue para a região genital, atua diretamente no sistema nervoso central e na produção de neurotransmissores como dopamina e serotonina, hormônios fundamentais para a manutenção da libido. Mas tudo que vem fácil vai fácil, já diriam muitas músicas dos anos 2000. Além de não possuir efeito imediato e ser um medicamento caro e de uso contínuo, muito se contestou sobre sua real eficácia e todos seus efeitos colaterais negativos, como enjoo, fadiga, insônia e outros. Ou seja, vale apostar que uma simples pílula rosa vai reparar séculos de repressão sexual e questões bem profundas, que afetam nossa vontade de sentir prazer? Eu, sinceramente, acho que não.

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O aumento ou a diminuição da nossa libido pode ter mais de 500 fatores. Vai desde a falta de hidratação até a falta de boas referências de prazer nas relações sexuais. Atravessa nosso íntimo, nossos pensamentos, nosso dia a dia, nosso subconsciente. Ter libido é o que eu chamo de ter prazer na vida. Mas isso não sou só eu que tô dizendo: o taoísmo chama a energia sexual de Chi, que, na tradução literal, significa energia vital. Se nossa energia inteira não flui, certamente o desejo também não aparece. Você também está num país vivendo a pior pandemia de todos os tempos e sem previsão de melhora por falta de um governo eficaz? Bem-vinda ao clube de quem teve a libido afetada por isso! São tantos fatores externos que afetam nosso prazer (inclusive a sociedade, que reforça diariamente que esse prazer não é nosso por direito), que é normal ficar confusa e achar que o problema se resume ao seu interno estar "quebrado". Não, você não está quebrada. Já o mundo e a sociedade, talvez sim. A libido não está 100% ativa nesse momento? Então, tome ar e faça um mergulho profundo em si mesma. Tente traçar os passos onde o stress e a ansiedade te pegam, tente revisitar os ensinamentos que sua família e a religião te passaram sobre sexualidade e, se necessário, reconstrua isso, se cuide e procure saber como estão sua saúde e seus hormônios. E faça essas coisas se sentir vontade, mas não por pressão ou culpa. Nenhuma libido precisa ser linear e sempre ativa, ok?


Gosto muito de trazer o que eu aprendi com a educadora sexual Emily Nagoski sobre o modelo dual sexual, ou seja, sobre os "aceleradores" e "freios" sexuais que todos nós temos em uma combinação única. Ela diz no livro A revolução do prazer que: "Seu cérebro tem um 'acelerador' sexual que responde à estimulação 'sexualmente relevante' - coisas que você vê, ouve, cheira, toca, saboreia ou imagina e que o seu cérebro aprendeu a associar à excitação sexual. Assim como seu cérebro também tem 'freios' sexuais que reagem aos 'riscos em potencial' – coisas que você vê, ouve, cheira, toca, saboreia ou imagina e que o seu cérebro interpreta como boas razões para você não ficar excitada naquele momento. Essas razões vão desde DSTs e gravidez indesejada até questões do relacionamento e reputação social". Então, outro exercício interessante de mergulho em si é procurar o que acelera e o que freia sua libido. Faça listas longas e detalhadas, tente trazer tudo que vier na sua mente, mesmo as coisas que parecem ser pequenas – isso pode ser mais revelador do que imaginamos. Depois de concluir suas listas, entenda se o que você precisa é pisar com mais intensidade nos aceleradores, se afastar do que te põe o pé no freio, ou ambos.

Essas são pequenas medidas diárias bem mais eficazes que doses de um remédio qualquer. E pode ser feito por todo mundo, viu? Até por quem acha que os problemas são resolvidos apenas com pílulas e com a ereção em dia. Nosso corpo e mente carregam mistérios bem simbólicos e, muitas vezes, as respostas estão guardadas dentro da gente. Basta procurar com atenção e cuidado. Todos nós merecemos ter acesso à energia vital por completo. Essa, sim, é a verdadeira medicina do prazer!

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