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Durante as apresentações finais do prêmio LVMH de 2019, havia um pequeno elefante branco em exposição. Era uma bolsa feita a partir de duas sacolas de compras cortadas ao meio e costurada juntas, tipo Frankestein. Metade Gucci, metade Louis Vuitton, marcas concorrentes e pertencentes a grupos rivais. A peça era do designer holandês Duran Lantink, que não venceu o concurso, mas saiu vitorioso nos quesitos, visão, ousadia e deboche (Bernard Arnault, presidente do conglomerado que patrocina a premiação era um dos jurados, tá?)

Coco, membro do Sistaazhood, veste look da "Cole\u00e7\u00e3o dos Sonhos".

Coco, membro do Sistaazhood, com look da "Coleção dos Sonhos".

Foto: Jan Hoek

Duran faz moda a partir de outras modas. Suas coleções são verdadeiras colagens, em que roupas surgem a partir de itens antigos recortados e reconstruídos em algo totalmente novo. O processo não é exatamente novo, tampouco o upcycling, que consiste no reaproveitamento de tecidos e peças usadas. Mas sua visão crua e objetiva é bastante única no mercado. Em vez de apagar a história dos itens que utiliza, o designer escolhe deixar tudo aparente, principalmente etiquetas e nomes de marcas. "Quero acordar as pessoas, mostrar que é possível juntar labels e criar sem ter que produzir mais", diz ele, que é responsável pela famosa calça-vagina usada por Janelle Monáe no clipe de Pynk, em 2018.

Entre garimpar o estoque morto de multimarcas, ressignificar peças em desuso do closet de clientes e realizar projetos sociais com uma comunidade transgênero na África do Sul, Duran tirou um momentinho de sua quarentena para conversar com a ELLE Brasil. Confira:

Para começar, como você está agora e no que está trabalhando? Ou estava, já que o mundo parou...

Desde 2015 colaboro com uma comunidade de profissionais transgêneros de Cape Town [África do Sul], a Sistaazhood. Estávamos organizando um desfile juntos, quando o lockdown começou aqui na Holanda. A apresentação aconteceria em outubro, mas tive que suspender tudo. É muito triste, pois sabemos da situação extremamente difícil em que aquelas pessoas vivem, com uma alta taxa de mortalidade – só nos últimos dois anos, perdemos 10 meninas.

Como você descobriu a Sistaazhood?

Quando estava me formando na Rietveld Academy, em Amsterdã, conheci o fotógrafo Jan Hoek, meu melhor amigo hoje, e decidimos fazer um projeto juntos. Um dia, abrimos uma garrafa de vinho e começamos a pesquisar. Encontramos imagens dessas duas meninas incríveis, Coco e Lolly, com meias-arrastão na cabeça e looks neon multicoloridos. Ficamos apaixonados e descobrimos que elas viviam em Cape Town. No dia seguinte, compramos nossas passagens e fomos para lá.

Celine, membro do Sistaazhood, com look da "Cole\u00e7\u00e3o dos Sonhos" de Duran Lantink.

Celine, membro do Sistaazshood, com look da "Coleção dos Sonhos."

Foto: Jan Hoek

Como se desenrolou a colaboração?

Quando chegamos, descobrimos que as produções delas eram feitas com roupas que achavam nas ruas, em um processo muito similar ao meu, de copy/paste mesmo. Foi uma coincidência incrível, deixou tudo mais natural dali pra frente. Conhecemos as outros meninas do coletivo e perguntamos para todas elas quais eram suas aspirações, suas fantasias e, se tivessem todo o dinheiro do mundo, como gostariam de se vestir. A partir disso, criamos uma coleção dos sonhos. Elas nos diziam o que queriam e a gente ia atrás de peças para tornar aqueles desejos realidade. Pagamos todas elas pelo trabalho de modelo e revertemos 50% dos lucros para o coletivo.

Como está o projeto agora com a pandemia?

O desfile está suspenso e estamos focados em oferecer um pouco mais de estrutura para elas. Por enquanto, a verba que temos está sendo redirecionada para a segurança e auxílio social do grupo.

Foto das primeiras pe\u00e7as feitas por Duran Lantink.

Foto das primeiras peças feitas por Duran Lantink.

Foto: Acervo pessoal do estilista

Quando você começou a desconstruir roupas?

Desde muito criança, inclusive encontrei uma foto de uma amiga usando uma das primeiras peças que fiz, quando tinha uns 12 anos, na época da escola. Eu comecei a cortar os jeans Diesel do meu padrasto e fazer minissaias com eles. Mas antes disso já transformava roupas, criava peças com a minha avó, cortava as roupas da minha mãe. É algo que sempre esteve no meu DNA.

O que o seu padrasto achou do resultado?

Ele gostou, eram peças velhas, tipo uns 30 pares que ele não usava mais, então foi bom alguém dar um jeito naquilo. Já minha mãe não ficava muito feliz quando eu cortava as peças de marca dela (risos).

Sua mãe ainda fica brava com as desconstruções?

Hoje ela vê mais como um bom investimento (risos). Mas outro dia cortei uma bolsa Céline e ela não ficou muito contente.

Qual é a sua primeira memória de moda?

Ai, é tão cafona! Quando tinha 8 anos, era obcecado pelas Spice Girls. Lembro dos minivestidos com sandálias de plataforma. Aquilo era tudo para mim.

E o que te faz querer cortar uma roupa e transformá-la?

Nunca fiz nada diferente. Sempre cortei tudo, vestia Barbies, recriava os looks delas e, anos depois, acabou se tornando um caminho lógico para seguir como profissão.

Look da cole\u00e7\u00e3o ver\u00e3o 2020 de Duran Lantink.

Duran Lantink, verão 2020.

Foto: Anne Groen

Quando começou a se profissionalizar de fato?

Quando terminei meu mestrado, em 2017, e colaborei com quatro lojas holandesas que me doaram peças paradas no estoque.

O que considera quando está criando uma peça?

Quando garimpo um estoque, começo pensando em como combinar as peças que mais me interessam: um casaco que pode virar um vestido ou uma manga a ser transformada em top. Não costumo fazer uma preconcepções e, sim, olhar os itens que tenho disponíveis e pensar em como transformá-los em algo que faça sentido pra mim.

Você já se frustrou com o resultado final de uma criação?

Nossa, todo dia (risos). Sempre existe uma frustração, mas isso é bom, te impulsiona a fazer diferente na próxima vez. O legal de ressignificar roupas é que se trata de um processo contínuo. Semana passada, por exemplo, retirei as mangas de um top que apresentei na minha coleção de formatura e as coloquei em uma jaqueta. Estou sempre transformando as coisas com a esperança de curtir o resultado. Mas é um processo difícil, já cheguei a fazer 7 shapes diferentes para um único casaco e não gostar de nenhum. Até que uma hora tudo dá certo e fico feliz.

Modelo veste trench coat plastificado com manga de malha e sand\u00e1lia plataforma com sola feita de borracha vinda de t\u00eanis Nike. Look da cole\u00e7\u00e3o ver\u00e3o 2020 de Duran Lantink.

Duran Lantink, verão 2020.

Foto: Anne Groen

Look da cole\u00e7\u00e3o ver\u00e3o 2020 de Duran Lantink.

Duran Lantink, verão 2020.

Foto: Anne Groen

Look da cole\u00e7\u00e3o ver\u00e3o 2020 de Duran Lantink.

Duran Lantink, verão 2020.

Foto: Anne Groen

Como você acha que a pandemia vai impactar o comportamento de consumo das pessoas?

Estou um pouco receoso sobre isso e não quero entrar em um papo depressivo. Ao mesmo tempo que temos bastante gente falando sobre consciência, pensar no meio ambiente e mudar o sistema, tenho dúvidas se isso vai acontecer de fato. Aqui em Amsterdã, por exemplo, estamos em um semi lockdown e há filas na frente da Primark e da Zara. Não sei como será esse futuro, mas espero que hajam mudanças.

O que você tem lido, escutado ou assistido ultimamente?

Estou obcecado por ovnis. Já assisti vários filmes e documentários sobre o assunto. Não paro de pensar sobre a vida em outro planeta, acho que é uma forma de escapar da realidade atual.

"Quero acordar as pessoas. Mostrar as possibilidades de juntar marcas, criar roupas novas sem ter que produzir mais."

Como funciona seu método de trabalho?

Tenho duas frentes: uma que o cliente me traz peças do seu próprio guarda-roupa e eu recrio em cima disso; e outra com os estoques das multimarcas com quem tenho parceria [Browns e Farfetch]. Escolho as peças que mais gosto e crio uma nova coleção em cima daquilo. É um processo complexo, especialmente quando as lojas escolhem os itens doados. É muito comum eles enviarem os piores looks, porque se apegam aos bons. Para mim, é importante ter liberdade de escolha, senão a inspiração decai.

Já trabalhou diretamente com alguma grande marca?

Não, porque gosto de misturar essas labels em uma única peça e é muito difícil que essas empresas aceitem isso.

Quais são seus designers favoritos?

São tantos. Mas principalmente Walter Van Beirendonck, Miuccia Prada, Alexander Mcqueen, Leigh Bowery e John Galliano.

Como você descreveria seu público?

É um grupo amplo e diverso, vai de jovens artistas a princesas árabes, mas há sempre um denominador comum entre elas: o amor por design e por peças que durem. Eu também trabalho com o design circular, então é possível comprar uma peça e, depois de um ano, transformá-la novamente.


Você acha que eles irão influenciar seus próximos trabalhos?

Sempre acabo me influenciando. Ano passado houve muita discussão sobre raça, sexo e gêneros, e isso me levou a desenvolver uma obsessão por pessoas que querem ser animais e modificam seus corpos para isso. Em 2020, são os aliens e essa vontade de viver em outro planeta.

Calça-vagina criada por Duran Lantink em cena do clipe de "Pynk", de Janelle Monáe.

Quais foram os pontos altos da sua carreira até agora?

A capa da Billie Eilish para a Dazed, fotografada por Harmony Korine, meu diretor favorito, as calças-vagina que Janelle Monáe usou no clipe dela... Tem tanta coisa boa. Eu realmente amo o que faço, então tento tratar tudo como um ponto alto.

Qual o impacto que você gostaria que o seu trabalho tivesse no mundo?

Quero acordar as pessoas. Mostrar as possibilidades de juntar marcas, criar roupas novas sem ter que produzir mais. Isso não deveria ser uma tendência e, sim, algo essencial do design.


Em resposta a um mercado que superproduz para depois descartar, estilistas e marcas independentes estão mixando peças de várias etiquetas de luxo para criar um novo guarda-roupa consciente.


Ao longo de quase dois meses, ELLE Brasil conversou com mais de 40 profissionais diretamente afetados pela crise da covid-19. O resultado é uma série de reportagens com relatos profundos de uma indústria desesperada por esforços coletivos.


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