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Carolina Maria de Jesus, 1960. Foto de Henri Ballot. Revista O Cruzeiro, 31 de dezembro de 1960, edição 0012
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Este texto nasce do meu encontro com Carolina, sua obra e negras maneiras de vestir. Acho que todo mundo que se encontra com ela, seja através de seus escritos, de sua fala ou de sua música, fica encantado. Aliás, aqui na ELLE somos tão encantadas por ela que é possível ler pelo menos três textos que exploram a produção e dizeres de Carolina, escritos por Bárbara Poerner, Claudia Lima e Erika Palomino. Confesso que para além de suas palavras, havia bastante tempo que me interessava por suas roupas.

Porém, antes de começar, gostaria de resgatar uma tradição dessa coluna que é a música, indicando o álbum Quarto de despejo (1961) com canções e composições de Carolina para embalar a sua leitura, estimada leitora. A faixa Vedete da favela é a minha favorita e foi também uma indicação de Raquel Barreto, uma das curadoras da exposição sobre Carolina, da qual contarei mais adiante.

Capa do LP Quarto de despejo (1961), composto por 12 faixas e parte do Acervo Jos\u00e9 Ramos Tinhor\u00e3o, sob a guarda do Instituto Moreira Salles. Capa do LP Quarto de despejo (1961), composto por 12 faixas e parte do Acervo José Ramos Tinhorão, sob a guarda do Instituto Moreira Salles.Foto: Reprodução

Autora do mundialmente conhecido e traduzido livro Quarto de despejo (1960) e nascida em Sacramento (MG), Carolina Maria de Jesus acaba de ganhar uma exposição na sede paulista do Instituto Moreira Salles. Com curadoria do antropólogo Hélio Menezes e da historiadora Raquel Barreto, a mostra conta com a assistência de curadoria da historiadora da arte Luciara Ribeiro e o trabalho de pesquisa da crítica literária e doutora em letras Fernanda Miranda, além de um conselho consultivo composto por 12 mulheres com atuações destacadas em diversas áreas.

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Carolina Maria de Jesus: um Brasil para os brasileiros entrelaça diferentes linguagens e apresenta a trajetória de vida, as memórias e produções artísticas, ressaltando aspectos ainda pouco abordados da escritora mineira. O título da exposição remete a dois cadernos originais de Carolina, desde 2006 sob a guarda do IMS.

Esses e outros manuscritos refletem sobre a infância e a juventude da escritora em Minas Gerais, assim como elaboram ideias e narrativas sobre o Brasil e a situação da população negra no pós-abolição, pensados pela curadoria como os fios condutores da mostra, que é dividida em 15 núcleos temáticos. Ocupando o 8º e o 9º andar do IMS Paulista, tendo também obras presentes no 5º andar, no térreo e na avenida Paulista, a exposição reúne aproximadamente 300 itens, entre fotografias, matérias de imprensa, vídeos e outros documentos que revelam outras versões de Carolina, muitas vezes desconhecidas do grande público.

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Carolina Maria de Jesus, Um Brasil para os Brasileiros [trecho], caderno manuscrito. Data desconhecida. Carolina Maria de Jesus, Um Brasil para os Brasileiros [trecho], caderno manuscrito. Data desconhecida.Foto: Acervo Instituto Moreira Salles

Foto: Acervo UH/Folhapress

Para este texto em especial, eu gostaria de destacar o vestir de Carolina, que era uma mulher muito chique mesmo. Em conversa com a curadora Raquel Barreto, pude conhecer mais sobre esse lado da escritora que há tempos me chamava a atenção.

A mostra dedica um olhar especial para as experimentações de Carolina com a costura e com os tecidos, material que sustenta criações de Rainha Favelada. A artista multimídia, costureira e stylist, vinda da favela do Batan, em Realengo, no Rio de Janeiro, apresenta uma obra comissionada para a exposição, um vestido longo feito com técnicas manuais e que faz referências aos vestires de Carolina.

Acho que vale ressaltar um ponto importante que também norteia a curadoria da exposição como um todo: abrir outros horizontes de narrativas e visualidades sobre Carolina, que por muito tempo foi vista por olhares que a colocavam apenas no lugar da "escritora favelada", muitas vezes retratada com um semblante cabisbaixo e olhar taciturno. De fato, Carolina viveu parte de sua vida na periferia, retratou os cotidianos das bordas da cidade a partir da favela do Canindé, em São Paulo, onde morou por alguns anos, mas também era uma mulher múltipla e complexa: mãe, crítica de seu tempo, que gostava de carnaval e tantas outras coisas.

Carolina pronta para o carnaval com casaco feito com penas de galinha d\u2019 Angola que ela mesma confeccionou. 23.fev.1963. Carolina pronta para o carnaval com casaco feito com penas de galinha d' Angola que ela mesma confeccionou, em 1963.Foto: Sidney. Arquivo Público do Estado de São Paulo/Última Hora

Ainda em conversa com Raquel, a curadora contou à ELLE como Carolina era vaidosa, gostava muito de roupas elegantes e do cabelo à mostra, crespo e natural, elaborando penteados que comportavam adornos diversos, ampliando o uso dos lenços, parte de sua estética fartamente veiculada. As pérolas também faziam parte do seu vestir e nos "tempos áureos", Carolina, sempre que podia, estava com colares feitos das gemas preciosas. Quando não podia, em épocas financeiramente mais restritas, a artista plantava lágrima de Nossa Senhora, uma planta que possui sementes que emulam pérolas, e ela mesma fazia os seus colares. Uma história que também nos foi contada pela curadora Raquel, ao resgatar as lembranças de Carolina compartilhadas com a curadoria por Vera Eunice, filha de Carolina.

Uma das minhas fotos favoritas de Carolina chiqu\u00e9rrima de vestido estampado e bolsa escura indo viajar para o Uruguai em 1961. Uma das minhas fotos favoritas de Carolina chiquérrima de vestido estampado e bolsa escura indo viajar para o Uruguai em 1961.Foto: Arquivo/Estadão Conteúdo

Carolina autografando seu livro Quarto de despejo em agosto de 1960. O brinco, as p\u00e9rolas e o broche destacam o adornar da escritora. Carolina autografando seu livro Quarto de despejo em agosto de 1960. O brinco, as pérolas e o broche destacam o adornar da escritora.Foto: Arquivo Nacional/Correio da Manhã

Casacos também eram muito apreciados por ela, que possuía um que eu achei particularmente bonito, de veludo e com pequenas bolinhas escuras.

Misturar estampas não era um problema para ela! Em foto compartilhada pela equipe de comunicação do IMS Paulista (agradecimentos especialíssimos para Mariana Tessitore e equipe), Carolina aparece vestindo um look com três estampas diferentes: um casaco mais estruturado de estampa zig zag, camisa com listras verticais (atenção especial para o broche) e saia em estampa pied de poule, a famosa estampa "pé de galinha". Para fechar, vemos bolsa escura e adornos como brincos, presilha no cabelo e colar em pedraria. Chique demais, vamos combinar?

Carolina com seu casaco de veludo com bolinhas e colar de p\u00e9rolas em 23 de agosto de 1960. Carolina com seu casaco de veludo com bolinhas e colar de pérolas em 23 de agosto de 1960.Foto: Folhapress

Foto de Rubens. Arquivo Público do Estado de São Paulo/Última Hora

A exposição apresenta para além de documentos de acervo, obras de artistas que viveram no mesmo período de Carolina e que tiveram trajetórias próximas à sua como Heitor dos Prazeres, Arthur Bispo do Rosário, Maria Auxiliadora e Madalena dos Santos Reinbolt. Nomes contemporâneos como Rosana Paulino (que já esteve aqui nesta coluna), Sonia Gomes, Eustáquio Neves, Ayrson Heráclito, Dalton Paula, Aline Motta e Ricardo Aleixo, Lídia Lisboa, Rebeca Carapiá, Criola, Rafael Bqueer, o coletivo Encruzilhada, Monica Ventura, Thiago Costa e Silvana Mendes, entre outres artistas também fazem parte da mostra.

Antônio Obá ficou com a responsabilidade de agora no século 21 fazer um novo retrato de Carolina. Intitulado Meada, a obra traz a escritora no centro da pintura acompanhada de pérolas, linhas e de sua cor predileta, o vermelho, tecendo narrativas e escritos de uma mulher que foi (e ainda é) a frente de seu tempo.

Meada de Antonio Ob\u00e1. Pintura. \u00d3leo sobre tela. Meada de Antonio Obá. Pintura. Óleo sobre tela.Foto: Maria Clara Villas, Instituto Moreira Salles, 2021

A exposição Carolina Maria de Jesus: um Brasil para os brasileiros integra também a programação expandida da 34ª Bienal de São Paulo e fica em cartaz no IMS Paulista até janeiro de 2022, contando com ampla programação de atividades paralelas. Por aqui, fica evidente como as enunciações, musicalidades, costuras e pensamentos de Carolina nos guiam até hoje para um entendimento de um Brasil enredado, bonito e plural, escrito também por narrativas e mãos negras.

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