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Moda

Para a moda, com amor...

Celebrada na nova coleção de Rober Dognani, Cláudia Liz, modelo ícone dos anos 1990, fala da experiência de fotografar mais uma vez, depois de vinte anos longe dos estúdios.

Foto Adriano Damas
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Rober Dognani é o tipo de estilista apaixonado, que gosta de volume, imagem arrebatadora de moda, passarela em chamas toda vez que a modelo (sempre performática) desfila uma roupa sua. E é por isso que, em 2020, ele já tinha decidido não fazer coleção alguma. Afinal, a celebração em um desfile, o seu show principal, não seria possível em razão da pandemia.

E é aí que Davi Ramos, stylist e criador dos acessórios de cabeça mais interessantes do país, entra em cena: e se a coleção fosse para a modelo, ícone dos anos 1990, o ídolo maior de Rober, Cláudia Liz? Nessas circunstâncias o estilista não pensou duas vezes. Para Cláudia, Rober Dognani tiraria com toda certeza uma coleção do papel. E foi isso o que fez.

São exatos seis looks pretos de vinil, látex e tule. "É a minha coleção mais volumosa", explica – algo que parece absurdo para quem acompanha o trabalho do designer e sabe que ele nunca ponderou tecido. Mas, agora, o próprio recorde do exagero foi quebrado. São mais de trinta metros de vinil formando rosas negras, babadinhos de organza infinitos que montam um vestidão a perder de vista. Um dos modelos, co-produzido com a artista Alma Negrot, teve duzentos metros de lona modelados por um aquecedor térmico, para formar uma roupa escultórica de mais de três metros de altura.

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Cl\u00e1udia Liz com look Rober Dognani Foto Adriano Damas

E o exagero tem explicação. Crescendo no interior de São Paulo, Rober Dognani saciou a sua fome por moda com o que aparecia na televisão, o que estampava as revistas que chegavam na cidade e aquilo que Erika Palomino escrevia na coluna Noite Ilustrada, da Folha de S.Paulo. São as maiores estrelas da década de 1990 que Rober acompanhou com atenção e cristalizou em sua cabeça como musas. "Claudia Liz fez o meu imaginário de modelo e é, para mim, maior que uma Linda Evangelista", ele conta.

As roupas são então tão fantasiosas quanto reviver as suas memórias de adolescente. Rober explica que a coleção é mais uma vez uma declaração de amor pela moda, ainda mais agora, que a pandemia atrapalhou financeiramente a vida dos estilistas. "Quem produziu algo esse ano fez por paixão", fala.

Do outro lado…

Há mais de vinte anos sem fotografar um editorial, Cláudia Liz não imaginava passar por esse tipo de experiência mais uma vez. Nem queria. Mas Davi Ramos conseguiu o que parecia impossível. Quando entrou em contato com a ex-modelo, explicou cada parte do projeto. Davi disse que o styling seria dele e da sua grande parceira Flavia Pommianosky. Contou que Cláudia seria fotografada pelo fotógrafo Adriano Damas e usaria as roupas apaixonadas de Rober Dognani, com beleza assinada por Robert Estevão. "Tantos talentos reunidos, eu não teria como falar não", explica Cláudia, em entrevista à ELLE.

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Ela diz que a sessão foi como um grande flashback. "Entrei no espírito de buscar uma imagem, ser profissional, assim como quando era modelo. E, quando vi, estava me equilibrando em uma escadinha com salto alto mais uma vez", afirma, confessando que ficou impressionada com o que ainda pode fazer. "E Rober tem uma sensibilidade tão forte, um trabalho high fashion de tamanha qualidade. A sua homenagem a minha carreira é emocionante, inexplicável e, por isso, dei o meu melhor".

Descoberta aos 13 anos de idade, enquanto andava de patins em Goiás (Cláudia é natural de São Luís de Montes Belos), por Bernard Ramus, da Casting, então a maior agência dos anos 1980, ela lembra que o seu primeiro trabalho foi um comercial de bicicleta. Aos 15 anos, veio para São Paulo, dentro de um ônibus com apenas 200 cruzeiros no bolso. Bernard e sua mulher ofereceram a própria casa para a garota morar. Cláudia começou em 1985 uma carreira de ascensão ininterrupta por pelo menos uma década.


Ela ganhou logo de cara um prêmio de melhor modelo, desbancando nomes como Silvia Pfeifer, Monique Evans e Virgínia Punko, as gigantes da época. Adorada pelas lentes, ganhou destaque dentro do estúdio, clicada por Bob Wolfenson, Claudio Elisabetsky, Thomas Susemihl, Fernando Louza, Ernesto Baldan. Mas foi com Regina Guerreiro e J.R. Duran com quem fez seus grandes trabalhos no país, virando o ícone de uma geração.

A boa aptidão para a pose, no entanto, não a tirou da passarela. O seu famoso um metro e oitenta centímetros de altura cruzou principalmente o tablado do Phytoervas Fashion, o embrião da São Paulo Fashion Week comandado, desde então, por Paulo Borges. Lá, ela se apresentou para Conrado Segreto, Alexandre Herchcovitch e muitos outros. "O Phytoervas era um frisson, o começo de tudo, a grande mudança para a moda nacional. O evento borbulhava criatividade, porque todos os talentos queriam um lugar pra criar, fazer, estar junto, se apresentar", conta.

Dentre as maiores lembranças no evento estão as suas apresentações para o estilista Jorge Kaufmann. "Jorge sempre falava 'coloca a roupa, fica livre e vai!'". Com tamanha liberdade, um dia decidiu pegar uma tacinha de espumante e andar na passarela. "Entrei como quem recepcionava a festa, com a taça balançando e as gotinhas caindo no chão". Seis meses depois, chegou com outra ideia. "Jorge, e se eu entrar como quem está de ressaca?", ela perguntou. E foi assim que desfilou com uma bolsinha de gelo na cabeça, colocando os convidados em êxtase e montando uma das imagens mais icônicas da moda nacional.


Essa foi a sua principal característica: ser muitas, contar história, interpretar na passarela. De tal maneira que foi para Itália, Espanha, França trabalhar para grifes como Chanel, marca com a qual fez turnê completa.

Só que a lembrança que não sai de sua cabeça é a de ter desfilado para Yohji Yamamoto e Rei Kawakubo, da Comme des Garçons, os maiores estilistas japoneses, justamente quando eles mostravam ao mundo uma imagem de moda completamente nova. "O glamour tinha sido deixado de lado, para uma imagem seca e neutra tomar conta. A estética japonesa era algo completamente diferente naquele momento", ela recorda.

A sua capacidade de mostrar personalidade também a possibilitou avançar por outros territórios. Cláudia chegou a apresentar um programa de moda na MTV e trilhou uma carreira paralela de atriz, no teatro, no cinema e na TV, o que a tornou muitas vezes mais reconhecida como celebridade do que top model. Ela chegou a desfilar nas primeiras edições do Morumbi Fashion, mas, em 1996, depois de complicações em função de uma tentativa de cirurgia que a deixou em coma, seguiu definitivamente pela encenação, com papéis em Cara e Coroa (1996), Dona Flor e Seus Dois Maridos (1998), Pecado Capital (1998) e Uga Uga (2000).

Desde os 16 anos, já estava casada e com filho, o que a não fazia se mudar para as cidades europeias, para ficar ao lado da família. Quando precisou se perguntar o que a fazia feliz, escolheu não só a casa como também a pintura. "Sempre pintei, quando viajava preferia desenhar a sair. O meu primeiro carro foi uma picape para transportar grandes telas. Não tive educação formal em arte, mas desenhei porque quis. E é assim até hoje, um desejo meu", ela conta.


Por mais de 12 anos, Cláudia esteve à frente da direção de uma agência de comunicação da qual se afastou há cinco, mas há sete diz fazer o que mais gosta: assumindo a página de Tendências e Debates do jornal Folha de S.Paulo, Claudia trabalha como ilustradora, ou faz "imagens que traduzem e tentam encontrar beleza", como prefere descrever.

Para o futuro, ainda está em vista a produção de uma linha de louças com a amiga conterrânea, também atriz e ex-modelo, Carolina Ferraz, chamada de Flor do Cerrado. Além disso, podem esperar collabs em marcas de moda com ilustrações suas. Mas, o que a toma hoje são os trabalhos que a "preenchem", como a pintura na parede da Santa Casa de Misericórdia, no vestiário de profissionais de saúde ou o seu trabalho com a Turma do Bem, projeto que trata de crianças e mulheres que sofreram violência.

"Não troco por nada o meu profissionalismo em tudo o que eu faço e o que eu já fiz. Eu dou de tudo e isso é algo que me orgulha em minha carreira." Como conselho às modelos mais novas, sugere que elas não deixem de engrandecer um look. "Acompanho o que as novas meninas fazem, uma mudança que é geral, com jovens que se articulam, mostram as suas vozes, se colocam. E é isso, ser modelo não é só vestir uma roupa".


Prestes a completar 50 anos de carreira, o fotógrafo discute os impactos da pandemia, reflete sobre aposentadoria e relembra a inundação que atingiu seu acervo em fevereiro: "Renasceram coisas que estavam mortas".


A gente sabia que seria bom, mas não imaginava que ia ser TÃO BOM. Com escolhidos do Rio Grande do Sul ao Pará, dos 18 aos 75 anos, o open casting que marca a volta da ELLE está apenas maravilhoso.

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