Foto: Josefina Bietti
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"Todos os meus projetos foram cancelados e estou sem perspectiva nenhuma de trabalho." Quem diz é a fotógrafa Nicole Heiniger, mas o relato é comum a muitos profissionais com quem a reportagem de ELLE conversou ao longo de quase dois meses de entrevistas. A crise do novo coronavírus e o distanciamento social escancarou a informalidade de uma indústria que, por fora, exala glamour, mas, na realidade, deixa muitos trabalhadores desamparados.

Conhecida por criar imagens leves, sofisticadas e tecnicamente precisas, Nicole está em quarentena desde o dia 15 de março. Neste período, está focada em projetos pessoais e em exercitar sua criatividade, enquanto organiza os arquivos para seu novo site. "Estou tentando ser menos racional na minha fotografia, acessar lugares mais profundos. Sou muito condicionada ao trabalho encomendado do dia a dia, então está sendo bom pensar em imagens de uma forma mais solta e espontânea", conta.

Por conta da informalidade do mercado, muitos dos profissionais envolvidos na produção e criação de imagens de moda – fotógrafos, stylists, maquiadores e modelos – atuam de maneira autônoma. Em sua maioria, são freelancers e raramente têm contratos duradouros com publicações ou empresas. Muitos estão impossibilitados de trabalhar durante isolamento.

A saída, por enquanto, são shootings online, feitos à distância, via FaceTime, Zoom ou outro tipo de vídeo-chamada. Nesses casos, as imagens são captadas diretamente pelo dispositivo em uso ou as telas são fotografadas. São fotos com ou sem direcionamento de um fotógrafo, com looks do próprio acervo da modelo ou produzidos com a ajuda de um stylist e seguindo as normas de segurança sanitária necessárias para o momento.

A modelo Isabeli Fontane de cabelo raspado, moletom branco e jaqueta de couro em foto de NIcole Heiniger para edi\u00e7\u00e3o de maio 2018 da ELLE.

ELLE Brasil, maio 2018

Foto: Nicole Heiniger

É um modelo de trabalho novo, longe dos ideais e requisitos de qualidade, colaboração e execução aos quais estávamos habituados. É um dos poucos viáveis e seguros por enquanto, mas é também um bastante complexo, cheio de limitações. A falta de precedentes em relação à prática somada às incertezas do momento têm dificultado muitas etapas. As negociações de cachê principalmente. Sem a necessidade de deslocamento, grandes equipes e diárias inteiras, se tornou comum contratantes esquecerem de incluir a expertise, técnica, olhar, interpretação e capital criativo do profissional na conta final.

"Apesar de ter sido abordado para algumas ações e produções de conteúdo, ainda estou para ver alguma proposta remunerada", fala o fotógrafo Pedro Pinho. "Não tem porque pintar a situação de forma favorável, a verdade é que não ganhei nenhum tostão desde que entrei em quarentena", afirma.

Retrato de Thais Delgado assinado pelo fot\u00f3grafo Pedro Pinho.

Thais Delagado, estilista da marca Verko, fotografada por Pedro Pinho.

Foto: Pedro Pinho

"O Brasil é sempre intenso e, não bastasse uma pandemia, as nossas feridas, desigualdades e lapsos estão mais pulsantes – Pedro Pinho.

Pedro tinha acabado de voltar de uma viagem ao Rio de Janeiro, onde fotografou o Carnaval e algumas festas de música eletrônica (uma de suas especialidades), quando o distanciamento social foi oficializado em São Paulo. "Após os casos da Itália, ficou nítido que estávamos diante de uma situação grave e que passaríamos por um período demorado e dramático. Depois que cai essa ficha, tudo fica um pouco sem propósito, você não vislumbra o fim do isolamento e percebe que o mundo pós-pandemia é uma incógnita", comenta.

O fotógrafo está ainda mais apreensivo em relação à situação do profissionais que não desfrutam dos mesmos privilégios dos que estão sempre na linha de frente. "Lembro sempre das pessoas envolvidas num set: assistentes, camareiras, pequenos empreendedores. Gente que desempenha funções vitais na nossa indústria e que não possuem qualquer direito trabalhista. São muitos os casos esquecidos, é hora de lutar por direitos básicos e condições de trabalho mais justas no nosso mercado", afirma.

Shootings à distância, via de regra, dispensam todo tipo de serviço secundário. Muito se deve ao momento de crise, dificuldades financeiras e limitações físicas do distanciamento social. Essas são as pessoas mais vulneráveis no mercado de trabalho – ganham pouco e gozam de pouquíssimo reconhecimento. Nomes fortes ou minimamente estabelecidos têm mais chances de se manter durante o período de distanciamento social – ainda que com consideráveis perdas e reduções no faturamento e volume de trabalho. Geralmente, são profissionais mais procurados, com cachês mais altos.

"O Brasil é sempre intenso e, não bastasse uma pandemia, as nossas feridas, desigualdades e lapsos estão mais pulsantes", relata Pedro. "Não quero sair da quarentena para tentar readequar o meu mundo ao que era antes. Já vivia decepcionado com tudo. Quero entender melhor o contexto que estou inserido e como posso alterá-lo para que as coisas sejam diferente."

Foto da modelo Camila Ribeiro em camarim do SPFW.

A modelo Camila Ribeiro

Foto: Sergio Caddah/ FOTOSITE

No começo do ano, Camila Ribeiro assinou um contrato com a agência de modelos americana Supreme e estava finalizando os últimos trâmites de passaporte e passagem para se mudar para Nova York, quando suspendeu todos seus planos. "Fiquei um pouco entorpecida, achei que seria mais fácil lidar com isso", lembra. "Com o passar do tempo, fui me acalmando e, hoje, estou feliz de ter ficado. Não adiantaria nada ter ido pra lá."

Essa não seria a primeira temporada internacional de Camila. Em 2016, ela morou por um tempo na França, onde participou de desfiles, campanhas e fechou um trabalho interno com a Givenchy. Em abril do mesmo ano, estreou na São Paulo Fashion Week como uma das primeiras modelos transsexuais a cruzar uma passarela do evento. Desfilou para Ronaldo Fraga e À La Garçonne. Era o começo da onda conservadora que se estende no país até hoje e as marcas não estavam combativas o suficiente. À época, Camila criticou bastante o padrão de beleza eurocentrada que sempre foi regra por aqui.

"Nós ainda temos muitos vícios do colonialismo, do imperialismo. Precisamos falar sobre isso e lutar contra", comenta a modelo. Ela reconhece que muito já mudou, mas a situação ainda está longe de ser ideal. Em muitos sets, o antigo mindset continua sendo a norma: modelos não podem se expressar da maneira que acreditam ou fazer o que fazem de melhor. "Se formos pensar em um viés artístico, nós nunca fomos ouvidas. A gente entra muda, sai calada", diz.

Para Camila, isso está mudando pouco a pouco e a crise da covid-19 deve acelerar o processo. "O papel da modelo nesse novo momento está ganhando mais importância. Estamos tendo mais autonomia", explica. No entanto, ela ainda não se rendeu aos shooting online. "Posto pouco nas redes sociais, só meus trabalho mesmo, não gosto de me expôr, então isso dificulta um pouco." Por ser de Manaus, uma das cidades mais afetadas pelo vírus e pelo despreparo dos hospitais públicos, ela fala com a família todos os dias para manter a calma. "O trabalho de modelo ficou muito secundário com tudo que está acontecendo", finaliza.

Retrato da modelo Alina Dorzbache com fios dourados enrolado em seu rosto.

Alina Dorzbacher.

Foto: Vivi Bacco

O mercado de moda não tem sido um bom aliado da modelo Alina Dorzbacher. "Minha agência já não estava me mandando muitos castings e, agora, ficou pior. Os jobs que fiz de casa apareceram pela minha conta pessoal no Instagram", diz. Para complementar a renda, ela estava trabalhando em uma loja no bairro de Cerqueira César, em São Paulo, mas foi demitida recentemente. "Eu tinha dois empregos porque os cachês de modelo não pagavam minhas contas, os atrasos eram constantes e eu não conseguia me programar."

Alina dividia com seu marido um quarto em uma república com mais doze moradores. Após três meses trabalhando no varejo, conseguiu juntar dinheiro suficiente para buscar uma casa só para o casal. Se mudaram oito dias após o início da quarentena e pouco antes da sua demissão. "Chorei por causa da falta de empatia, eu era a única funcionária trans em uma empresa que gerava mais de 35 empregos", conta.

Desempregada, Alina se inscreveu em um dos programas de auxílio-emergencial do Governo Federal para pessoas e famílias de baixa renda. Seu pedido foi negado, pois ela já estava recebendo seguro-desemprego. "Os pré-requisitos para receber o dinheiro do governo são ter mais de 18 anos, renda mensal por pessoa que não ultrapasse meio salário mínimo (R$ 522,50) ou renda total da família inferior a três salários mínimos (R$3.135), além de não ter recebido em 2018 rendimentos tributáveis acima de R$28.559", explica o advogado Gian Evaso. "Isso já exclui bastante gente", continua, sobre o programa destinado a pessoas desempregadas ou que exercem atividades autônomas, MEIs e trabalhadores informais.

"O mercado é muito fechado para pessoas como eu, da minha origem. Por isso, sempre criei e trabalhei com meus amigos. Acho muito bom que as pessoas estão começando a dar a devida importância para o coletivo" – Suyane Ynaya.

Como o auxílio coloca como requisito a renda, ele não tem a ver com o patrimônio, mas, sim, com a renda declarada no período de crise – ou seja, quanto a pessoa recebe. O advogado ainda explica que o período que engloba essa renda não é especificado na lei, o que torna as análises de cada caso bastante complexas. Por exemplo, se algum profissional trabalhou bastante no fim do ano passado e no começo deste ano, mas está parado durante a crise, teoricamente, ele tem direito ao benefício. A realidade, no entanto, é que muitos pedidos vêm sendo negados pelo governo com justificativas inconclusivas.

Quando a pandemia chegou ao Brasil, o stylist e artista de performance Maurício Ianês estava no Rio de Janeiro, morando em silêncio dentro da galeria Portas Vilaseca e cavando com uma marreta a palavra "lama" em uma parede. Era parte da exposição Corpo Poético/Político. "As notícias chegavam pelo curador Fernando Motta e, quando encerrei o trabalho, voltei para São Paulo já de máscara e mãos cobertas de álcool em gel direto para o isolamento", lembra.

Responsável pela criação de imagens emblemáticas, Ianês trabalhou ao lado de Alexandre Herchcovitch, Paula Raia e até com Alexander McQueen. Mas pouco disso importa quando falamos de uma crise mundial sem precedentes e com amplitude e gravidade como a do novo coronavírus. "Não posso negar que estou angustiado com a falta de perspectivas imediatas de trabalho e renda, ambos foram afetados drasticamente. As notícias sobre as mortes no Brasil e as reações do governo não ajudam. Exposições foram canceladas, sem previsão de retorno. O trabalho de moda, que já estava difícil, agora inexiste."

Maurício, contudo, não é de todo pessimista e vê possibilidades de melhoras no meio da crise: "Penso que estamos em um momento em que haverá um despertar de consciência política e social mais radical e a luta irá se acirrar. Isso me deixa otimista, porque as estruturas política, social e econômica, no Brasil e no mundo, não podem perdurar como estão", pontua. "Tenho me dedicado mais à construção e organização de movimentos para a luta por mudanças efetivas no futuro próximo, junto às/aos militantes da organização."

Campanha de 2016 marca Herchcovitch;Alexandre com styling de Maur\u00edcio Ian\u00eas

Campanha de 2016 da marca Herchcovitch;Alexandre com styling de Maurício Ianês.

Foto: Pedrita Junckles

A stylist e diretora criativa Suyane Ynaya estava finalizando uma publicidade quando as normas de distanciamento social foram implementadas. Mãe de dois filhos, o momento foi especialmente difícil para ela. "Trabalhei há dias com um francês claramente doente, tossindo muito, com febre", relembra. "De repente veio aquele corte seco e tudo parou de um dia para o outro. Fiquei presa na minha própria casa sem poder ver meus filhos. Culturalmente, temos uma relação especial com afeto, com calor, isso é o que mais me pega."

Para ela, o lado profissional é mais fácil de lidar, apesar da redução no número de trabalhos. "Tive que lutar e correr atrás de tudo que eu queria. Agora não é diferente", conta. "O mercado é muito fechado para pessoas como eu, da minha origem [Suyane é negra e passou parte de sua vida na periferia de São Paulo]. Por isso, sempre criei e trabalhei muito com meus amigos. Acho muito bom que as pessoas estão começando a dar a devida importância para o coletivo. Quando as pessoas colaboram, todo mundo sai ganhando."

Representa\u00e7\u00e3o de Oxum em editorial da edi\u00e7\u00e3o de mar\u00e7o de 2018 da ELLE Brasil, com styling de Suyane Yanaya.

Representação de Oxum em editorial da edição de março de 2018 da ELLE Brasil, com styling de Suyane Yanaya.

Foto: Josefina Bietti.

Recentemente, Suyane fez um editorial via facetime com um amigo que mora em Nova York e deu supercerto. "As possibilidades existem, a comunicação e contato pessoal não são possíveis, então a internet é a única ferramenta possível", comenta.

Coletividade é assunto recorrente nas entrevistas feitas para esta série de reportagens. Com as possibilidades de trabalho reduzidas, alguns profissionais viram na colaboração a única saída. A plataforma digital, A Ponte nasceu assim. Criada por André Carvalhal, Augusto Mariotti, Barbara Bicudo, Camila Yahn, Daniel Ueda, Renata Corrêa e Thiago Ferraz, o coletivo oferece um espaço de compartilhamento de ideias e uma espécie de mural de conexões de serviço entre pessoas de várias áreas."A intenção é intervir com a possibilidade de construir uma comunidade mais unida capaz de se apoiar e formar uma ponte mais humanizada", comenta a jornalista Camila Yahn.

Trata-se de um senso de grupo e união, até então, raro em um mercado extremamente competitivo e individualista. Negligenciada por tanto tempo, a coletividade é um conceito que agora custa caro. "A gente, finalmente, se deu conta de como somos desamparados. Não temos sindicato, não temos a quem perguntar, pedir informação e ajuda", diz a maquiadora Carla Biriba.

Desde muito antes da pandemia, ela faz parte de um grupo de mulheres da mesma profissão que debate e discute como se proteger das práticas ainda bastante predatórias do mercado. A iniciativa, no entanto, é pequena se considerado o tamanho da classe e a falta de precedente e gravidade da crise causada pela pandemia.

Campanha da marca de beachwear Haight com beleza assinada por Carla Biriba.

A modelo Chelfa Caxino na campanha da coleção inverno 2019 da Haight com beleza assinada por Carla Biriba.

Foto: Pedro Perdigão

Carla vive entre São Paulo e Rio de Janeiro por causa de seu trabalho. Com sorte, conseguiu ficar no Rio, onde estão seu marido e cachorro, mas pouco antes estava em Nova York e teve contato com pessoas que vinham da Itália. O medo bateu. "Antes da quarentena oficial, eu já estava em casa, porque não queria colocar ninguém em risco", explica. "Estou procurando muita informação, por pior e mais duro que seja. Dói mais ainda. Estar bem informada tem me machucado bastante."

Sobre as práticas da indústria, Carla acredita em uma mudança drástica. Pelo menos é o que pretende praticar daqui para frente. "Acho que é uma grande oportunidade de mudança. A moda, a estética, as necessidades, o que é essencial… Precisamos repensar tudo."

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Já há algum tempo, a maquiadora faz parte de um movimento mais real e menos plastificado dentro do mercado de beleza nacional. Por aqui, o status quo por muito tempo foram peles opacas, sem viço, iluminadas em pontos específicos para destacar o olhar e as sobrancelhas, deixando todas as mulheres iguais. Para quebrar esses padrões enraizados na indústria, foi preciso muita ousadia na forma, na cor e aplicação de produtos, além de apostar em peles mais leves e linhas menos engessadas.

"No início, eu estava bem positiva, jurava que depois de um mês estaria trabalhando normalmente", diz a maquiadora Jake Falchi, que havia começado há alguns meses um esforço para tentar entender como viver com menos. "Esse tem sido um projeto de futuro. Perceber que a gente pode viver com menos. O consumo e tudo que a gente está se privando durante a quarentena me fizeram entender que muitas coisas não são necessárias."


Modelo com vestido branco, cheio de babados, meias Prada e make assinado por Jake Falchi. Foto com beleza assinada por Jake Falchi.Foto: Fernando Thomaz

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O isolamento social tem trazido à tona muitos questionamentos internos dos entrevistados. Maquiadora da M.A.C Cosmetics por 10 anos e hoje atuante no mercado autonomamente, Jake havia perdido a vontade de se maquiar, postar selfies e gravar vídeos tutoriais para suas redes sociais. "Já fui muito de criar esse tipo de conteúdo, mas perdeu a graça pra mim. Passei a me perguntar porque fazia tanto tempo que eu não colocava minha cara maquiada no Instagram."

Depois de alguma investigação, a maquiadora chegou à conclusão de que fazia três anos que não postava um auto-retrato. "Tem a questão da autoestima e a questão do esvaziamento da selfie. Para mim, chegou o momento de enfrentar essa ansiedade. É o tempo certo para eu me descobrir e redescobrir coisas em mim".

Diferente da maioria dos entrevistados pela reportagem, Jake foi uma das poucas que recebeu propostas remuneradas de trabalho durante a quarentena. "Tem rolado algumas lives com cachê junto a marcas com quem já trabalhei e que estão pensando na responsabilidade delas neste momento. Existe um certo comprometimento da empresa com a comunidade", fala. Apesar dos valores serem inferiores ao de uma diária comum de trabalho, ainda assim é um cachê – coisa que poucas marcas estão oferecendo nesse momento.


Com as interrupções e fechamentos causados pela pandemia, é urgente a revisão do calendário de lançamentos de coleções e os formatos das semanas de moda.



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