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Às 11h30 do sábado, 14 de março, a galeria Casa Triângulo, no bairro do Jardins, em São Paulo, estaria cheia de convidados, entre clientes, amigos, jornalistas, fotógrafos e outros profissionais criativos. Com a pandemia anunciada, dias antes, pela Organização Mundial da Saúde, o desfile da coleção 01-20 da À La Garçonne aconteceu sem plateia e com equipe reduzida. O conteúdo foi captado em fotos e vídeos e disponibilizado horas depois nos canais digitais da marca.

"Tomamos essa decisão dois dias antes da apresentação", conta Alexandre Herchcovitch, diretor criativo da marca que fundou ao lado de Fábio Souza. "Fizemos tudo com muita calma, sem estresse, controlando a imagem, os detalhes e tudo mais que poderia passar na correria de um desfile tradicional." As modelos chegavam em grupos de no máximo sete para evitar aglomeração e em vez de um pit de fotógrafos lotado, apenas um cinegrafista e fotógrafo. Entrou em cena também a figura do editor de vídeo, responsável por destacar e garantir a boa visualização de cada peça.


"Com quase 30 anos de desfiles, vinha me questionando sobre a maneira tradicional de apresentar uma coleção", comenta Alexandre. Naquele sábado, ele pôde experimentar um modelo diferente. "Não gostaria de ter isso como definitivo, ao mesmo tempo, pensar moda tradicionalmente não é comigo. Gosto do desafio do novo."

Desafio ou realidade, a crise do novo coronavírus colocou em xeque o funcionamento das semanas de moda. Ao redor de todo o mundo, elas foram canceladas ou anunciadas em novos formatos. As fashion weeks de Londres (de 12 a 14 de junho) e Milão (de 14 a 17 de julho), por exemplo, serão eventos digitais sem gênero (coleções masculinas e femininas serão apresentadas simultaneamente) e estação definida. Os formatos também serão livres: vale desfile, workshop, entrevistas, lives, performances, shows, de um tudo. Em Paris, a Fédération de la Haute Couture et de la Mode, o órgão regulador da moda na França, aderiu ao modelo online, mas manteve o foco em coleções masculinas para verão 2021.

DENTRO DE CASA

Nossa versão nacional, o São Paulo Fashion Week, aconteceria entre os dias 24 e 28 de abril não fosse a pandemia. Seria a edição de 25 anos da maior semana de moda brasileira. Mas os desfiles foram cancelados antes mesmo da oficialização da quarentena no estado de São Paulo. A decisão, correta e inevitável, pegou muita marca de surpresa. Não foram poucas aquelas que relataram algum tipo de prejuízo. Uns por já estarem avançados no desenvolvimento de suas coleções, outros por dependência do evento como plataforma de comunicação e venda.

Diretor e criador do SPFW, Paulo Borges acredita que o momento é propício para discussão e mudanças de entendimentos no setor. Há algum tempo questiona-se as datas, formatos, público, estrutura, custos e até a própria necessidade desse tipo de evento. Como tudo em tempos de corona, todas estas questões ganham proporções ainda maiores.

"Nada do que está sendo discutindo é uma pauta nova hoje", diz Paulo Borges. Ele se refere às previsões que dominaram o mercado de moda nos últimos meses. "Tudo já vinha sendo discutido, a crise só intensificou os processos", comenta. No caso do SPFW, tais discussões se iniciaram em meados de 2018 e estavam apenas começando a tomar forma. Naquela época, a Luminosidade, empresa responsável pela gestão e produção da fashion week, foi majoritariamente comprada pela IMM Participações, parte do fundo de investimentos Mubadala Development Company, de Abu Dhabi (a nova acionista detém 25% da Rock World S.A, dona do Rock in Rio, e organiza eventos como UFC, Rio Open e turnês do Cirque du Soleil no Brasil).

Desfile de Lucas Le\u00e3o.

Foto: Marcelo Soubhia/Agência Fotosite

Principal plataforma de lançamentos da moda brasileira, o SPFW vinha de edições não muito bem-sucedidas, com queda de público e perda de relevância na mídia nacional. Vale lembrar que as fashion weeks ainda são uma importante vitrine para a moda – muito do que se entende, pensa e consome nesse mercado, vem de desdobramentos dos conteúdos ali apresentados. São acontecimentos que movimentam milhões, têm impacto direto em economias locais e são essenciais no fortalecimento cultural da moda em relação ao público.

O novo investimento na Luminosidade significava uma das maiores guinadas na história do evento. "Começamos a pensar sobre como seriam os próximos anos, quais seriam as mudanças e como poderíamos fomentar a moda como elo de comportamento", explica Paulo. O plano era lançar uma plataforma digital para além da passarela. "É o ponto de partida, queremos gerar reflexões e promover encontros entre o protagonismo da moda com outras áreas. É sobre criar diálogos de construções de um processo criativo."

Look da estilista Vicente Perrotta.

Look da estilista Vicente Perrotta, na Casa de Criadores.

Foto: Marcelo Soubhia/Agência Fotosite

Paulo convidou o curador Marcello Dantas para ser o pivô de conexão entre estilistas e profissionais de áreas distintas – da engenharia e urbanismo à neurociência. Mas pouco aconteceu. Parte dos planos foi suspensa, como por exemplo uma conferência internacional prevista para o meio do ano. Outros, como workshops e encontros com profissionais, estão sendo reagendados, apesar das incertezas. Quantos aos desfiles, eles estão programados para os dias 16 e 20 de outubro, espalhados por São Paulo. Porém, resta saber se as condições serão viáveis e seguras.

A Casa de Criadores, plataforma responsável por concentrar parte da novíssima geração de criadores e alguns brilhantes resilientes, também considera mudanças na sua estrutura. "Estou fazendo reuniões semanais com todos os estilistas para discutirmos possíveis caminhos e, ao mesmo tempo, oferecer algum tipo de apoio e conforto", fala André Hidalgo, criador e organizador do evento.

Com cerca de 35 participantes, a CdC tem papel essencial no cultivo e incentivo à cultura e expressão de moda no país. Ao longo de 30 anos, alguns dos principais nomes do mercado atual passaram por suas passarelas – Marcelo Sommer, Cavalera, Ronaldo Fraga, André Lima, Karlla Girotto, Mário Queiroz, V.Rom, Fábia Bercsek, Samuel Cirnansck, Rita Wainer, Juliana Jabour, Walério Araújo, João Pimenta e Gustavo Silvestre. Hoje, seus integrantes representam o que há mais autêntico na criação de moda para além dos padrões opressores do mercado.

David Lee.

Foto: Agência Fotosite


Mas resistência tem custo. A não conformidade aos modelos tradicionais (estéticos, comerciais e/ou produtivos) é um limitante. Muitos da nova safra são microempreendedores autônomos e com estruturas muito enxutas – é raro equipes com mais de três funcionários. O acesso a investimentos ou linhas de créditos são praticamente nulos e, com a queda no consumo e a baixa na economia, a grande maioria corre o risco de sumir de cena.

O trabalho de André, nesse sentido, é heróico. O corre por patrocinadores que viabilizam seu evento e, junto, oferecem algum auxílio aos estilista sempre foi árduo. Agora é mais ainda. Parte dos seus esforços atuais está na conscientização de empresas do ramo têxtil sobre a importância do socorro a esta classe de criadores. "Eles precisam entender que essas pessoas são o futuro dos seus negócios, se essas marcas sumirem, eles perderão futuros parceiro comercias", comenta. "Em paralelo, estamos estudando maneiras de criar um evento e plataforma digital que possa trazer mais alguma verba e incentivo para nossas marcas", fala ele.

NA DATA CERTA, MAS A QUE PREÇO?

A reunião entre estilistas e profissionais de moda se tornou comum desde que o comércio de rua fechou. Um setor nunca antes chegado à camaradagem e colaboração de equipe, percebeu que era urgente a mudança de postura. À reportagem, Paulo Borges relata que teve algumas conversas com marcas e estilistas mais próximos, desde que anunciou o cancelamento do SPFW. Aos poucos, o grupo foi crescendo e, após comunicado da ABEST - Associação Brasileira de Estilistas sobre as novas datas dos showrooms para o atacado e proposta de um calendário de liquidações, as reuniões assumiram tom quase oficial, pelo menos entre as grifes da semana de moda paulista.

Como já reportado nesta série, a ABEST divulgou, em carta aberta, que os showrooms, então, marcados para abril e maio deste ano, referente às coleções de verão 2021, foram adiados para junho e julho. Já as coleções de inverno 2021, serão vendidas na segunda quinzena de novembro. As propostas foram desenhadas a partir de uma reunião entre Roberto Davidowicz, membro do Conselho Deliberativo da ABEST e presidente da UMA Raquel Davidowicz, e sete showrooms (Salão Casamoda, Contemporâneo Business, Feira TM Fashion, Maria Eugenia Showroom, Conceito +, Novo Showroom e Fashionroom).

"Nunca ninguém quis falar sobre isso. A imprensa sempre evitou tocar em tais discussões, falar sobre as empresas que inventam concorrências e atuam de forma muito individualista" – Alberto Hiar.

A discussão sobre o timing de lançamentos das coleções é antiga e, até hoje, sem veredito. No atual sistema, peças de inverno (de marcas brasileiras) começam a chegar às lojas em fevereiro, em pleno verão; as de verão, em agosto, auge do inverno. As interrupções que a pandemia gerou no abastecimento do mercado forçam alterações nesse calendário. A dúvida é se elas serão duradouras ou ajustes emergenciais. Não custa lembrar que quase todos os modelos de see now, by now (compra imediata, logo após a apresentação) falharam.

Porém, o ponto mais nevrálgico da proposta ABEST diz respeito aos períodos de liquidação. Segundo o documento, sugere-se que as peças do inverno 2020, colocadas à venda pouco antes do fechamento das lojas, tenham seus preços reduzidos só a partir de agosto. Deste modo, se abertas em junho ou julho, as lojas poderão vender itens à preço cheio por mais tempo. Já o verão 2021, só teria descontos a partir de fevereiro do ano que vem.

Dois dias após a divulgação da carta aberta, Roberto ligou para Paulo Borges para falar sobre o assunto. "O apoio foi imediato", diz Davidowicz. "Não se trata de algo compulsório, é uma ideia e uma que só faz sentido com adesão coletiva", comenta.

Aí reside o problema. Pouco tempo após a divulgação da carta, estilistas e CEOs de marcas ouvidos pela reportagem da ELLE diziam-se não representados por aquelas propostas. Alguns afirmam que não seguirão as datas as sugeridas. Os motivos vão desde a falta de consulta por parte da ABEST antes da deliberação a posicionamentos e crenças individuais de mercado. "Temos cerca de 120 associados, seria impossível falar com todos. E são pautas discutidas há muito tempo, é um assunto comum a quase todos", explica Roberto Davidowicz.

É preocupante que uma associação que tem "como objetivo fortalecer e promover o design e a moda brasileira", segundo texto publicado no site da ABEST, não tenha consultado seus membros em momento tão complexo. Porém, preocupa muito mais posturas de extrema falta de consciência coletiva por parte de algumas grifes. Presidente recém-empossado da ABEST Alberto Hiar, fundador da Cavalera, reconhece a desunião de seus pares. "Nunca ninguém quis falar sobre isso. A imprensa sempre evitou tocar em tais discussões, falar sobre as empresas que inventam concorrências e atuam de forma muito individualista", afirma Alberto. "Agora, por egoísmo, essas mesmas empresas resolveram salvar o barco, porque perceberam que, sozinho, ninguém vai sobreviver."

TÁ, MAS E OS DESCONTOS?

Paulo Borges concorda com a proposta da ABEST e já está em contato com marcas parceiras para garantir o comprometimento nas datas estipuladas. "Hoje, 70% do período de venda de uma roupa é em liquidação", diz ele. "Isso traz uma série de consequências para o mercado, principalmente em relação ao consumidor."

Faz tempo que a política de descontos é tema de debate no varejo de moda. O que deveria ser uma ferramenta de ajuste de estoque, se tornou algo recorrente sempre que metas de venda (altíssimas e, muitas vezes, irreais) não são batidas. A reincidência periódica de markdowns, além de afetar o posicionamento e percepção da marca, condiciona o consumidor a esperar melhores ofertas. E como os períodos de liquidação estão cada vez mais alongados, as reduções são cada vez maiores.

Tudo isso tem implicações complexas na maneira como muita gente se relaciona com moda – ou, pelo menos, com as grifes que consomem. Sabendo que determinado produto terá seu valor descontado, dois cenários são possíveis na cabeça da cliente: 1. aquela peça não custa o tanto que vale (o que é quase sempre é verdade, no caso de produções em larga escala); e 2. a marca da qual estou comprando quer tirar vantagem em cima de mim com um markup (lucro) altíssimo (o que também é quase sempre verdade, no caso de peças produzidas em massa e a custos mínimos).

Em nenhuma das hipóteses acima existe diálogo honesto com quem gasta dinheiro com a label. "Não há comunicação. O consumidor só é estimulado a consumir, não a pertencer", diz Paulo Borges. O atual esquema de descontos ainda prejudica marcas comprometidas em fazer roupas de qualidade, com responsabilidade ambiental e pagando dignamente os profissionais envolvidos no processo.

Para mudar isso, há um longo processo de reeducação pela frente. E para tanto, não bastam ações pontuais, hashtags e discurso pró-empatia. Esforço e comprometimento real de toda a cadeia são urgentes. Mas eles só valem se forem legítimos e não da boca pra fora, para fingir preocupação com o todo, quando, na verdade, o que importa é o próprio umbigo.


Ao longo de quase dois meses, ELLE Brasil conversou com mais de 40 profissionais diretamente afetados pela crise da covid-19. O resultado é uma série de reportagens com relatos profundos de uma indústria desesperada por esforços coletivos.



Impedidos de trabalhar presencialmente, fotógrafos, stylists, maquiadores e modelos dividem suas frustrações e projeções para o mercado durante e após a quarentena.

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