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Colunistas

Perfeito são as imperfeições

Cresce a procura por procedimentos que desfazem cirurgias plásticas realizadas no passado. Estamos caminhando para um mundo em que será possível envelhecer livres da pressão estética?

Ilustração: Mariana Baptista
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Todo mundo quer ser diferente e parece que, hoje em dia, o melhor jeito de ser diferente é sendo você mesma.

Depois da onda dos implantes de silicone nos seios, harmonizações faciais, preenchimento de bocas e outros procedimentos estéticos que acabaram deixando todo mundo com a mesma cara, vem surgindo uma nova onda: a do bom senso. Isso mesmo: envelhecer mais naturalmente está na moda. Quer dizer que não se pode mais fazer plástica, colocar peitos, boca ou retocar o Botox? Claro que pode! Mas a novidade é que agora também é possível tirar tudo isso caso você tenha se arrependido de colocar um dia. Mesmo que ainda tímido, esse movimento de mulheres à procura de um visual mais natural e livre de aprisionamentos estéticos está dando as caras. E o que é melhor, como elas são de fato.

Recentemente, a atriz Courteney Cox, 57 anos, (a eterna Mônica, do seriado Friends), em entrevista ao Sunday Times, causou furor ao falar sobre os procedimentos estéticos aos quais se submeteu nos últimos anos e que fizeram pipocar, inclusive entre amigos, inúmeros comentários negativos em relação à sua aparência. "Houve uma época em que eu dizia: 'Estou parecendo mais velha'. E tentei perseguir essa juventude por anos", contou a atriz. "Eu não percebia o exagero. Fiquei realmente com uma aparência muito estranha colocando as injeções e fazendo coisas no meu rosto que eu nunca faria agora", pontuou.

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Como a maioria das mulheres, Courteney tinha medo de que a idade a impedisse de alguma coisa, no caso dela, de conseguir novos papéis: “Cresci pensando que a aparência era o mais importante e que, enquanto eu estivesse jovem e bonita, tudo estaria bem”, comentou a atriz, enquanto explicava as causas que a levaram a aplicar uma coisa atrás da outra. “Você começa indo a um médico que diz: ‘Você está ótima, mas uma injeção aqui e uma aplicação ali vão te ajudar’. Você sai do consultório se sentindo bem e acha que ninguém percebeu, até que você chega a um nível preocupante e percebe que não está dando certo”. Para os curiosos, atualmente, Courteney eliminou tudo que havia aplicado e seu objetivo passou a ser ter um aspecto mais natural.

Assim como ela, outras celebridades também voltaram atrás e reverteram ou desistiram de continuar com procedimentos estéticos e cirurgias plásticas.

Jamie Lee Curtis admitiu em entrevistas que, enquanto gravava o filme Perfeição (1985) se sentiu forçada a fazer uma cirurgia para ficar mais bonita. Ela também afirmou: “Fiz uma pequena lipoaspiração e apliquei Botox. Mas querem saber de uma coisa? Nada disso funciona, muito pelo contrário”. Hoje, Jamie afirma que está satisfeita com quem é, incluindo corpo e rugas. No caso da estilista Victoria Beckham, ela passou muito tempo negando ter colocado silicone e, somente quando optou pelo explante (retirada do silicone nos seios), é que admitiu ter feito o procedimento: “Durante muitos anos eu quis esconder, o que é uma bobagem, era apenas mais uma mostra da minha insegurança”. A ex-Spice Girls ainda disse que espera que as pessoas não cometam o mesmo erro que o seu: “Celebre o que você já tem”.

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Outro caso que repercutiu na mídia foi o da atriz Jane Fonda. Apesar de ter colocado silicone muito jovem e, anos depois decidir retirá-lo, o ícone de Hollywood, hoje com 84 anos, nunca teve problemas em admitir suas cirurgias e procedimentos para ter uma aparência mais jovem. A atriz, que lutou contra a bulimia da infância até os 40 anos, declarou em 2020 que não faria mais nenhuma cirurgia estética e explicou que a decisão não foi fácil: “Não posso fingir que não sou vaidosa, mas chega de cirurgias, não vou mais me cortar. Tenho que trabalhar todos os dias para aceitar quem sou”.

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Já para a atriz Cameron Diaz, 49 anos, o resultado foi uma decepção: “Mudou o meu rosto de uma forma estranha [...] Prefiro vê-lo envelhecido a ver um rosto que não conheço”. Hoje, ela afirma ter orgulho das marcas de expressão, porque são uma prova de que ela sorriu: “Significa que sorri minha vida toda. Amo a vida e estou muito feliz por não ter problemas com minha aparência”.

Alegrias e sofrimentos em busca da perfeição estética à parte, a grande questão é como chegamos ao ponto de querermos ter outra boca, outro nariz, outro contorno de rosto, outros dentes, outro peito, outra bunda, outro tudo, e de nunca, nunca estarmos satisfeitas com nossa aparência? Além da busca pela juventude que impera na sociedade patriarcal, na maioria das vezes, os novos vilões são os aplicativos de retoques de fotos usados sem moderação nas redes sociais.

Para Luiza Loyola, consultora da WGSN, agência inglesa de coleta de tendências e análise de consumo, o uso da tecnologia distorce a realidade e produz padrões de beleza inalcançáveis: "Com o tempo, os recursos de retoques de imagens ficaram acessíveis para todo o mundo. Aí veio a pandemia e a vida ficou mais online. Passamos a nos comparar mais com os outros. E, finalmente, caiu a ficha do que é real e do que é idealizado. As pessoas descobriram que estão iguais! E agora querem algo que as diferencie”.

Para a psicóloga Grazielle Bonfim, autora de uma revisão sobre o Transtorno Dismórfico Corporal, caracterizado pela observação de defeitos que não existem de fato diante do espelho, a maior aceitação da aparência natural não parece ser uma tendência passageira: "Tem a ver com a conexão que as pessoas estão fazendo com elas mesmas. Isso não quer dizer que não possamos fazer procedimento estético algum. O importante é termos um olhar crítico sobre o quanto a nossa sociedade estimula um padrão que favorece a mulher branca e magra, excluindo uma diversidade de corpos”.

Na maioria dos casos, voltar atrás no resultado de um procedimento custa tão caro quanto fazê-lo. Uma cirurgia de explante de silicone nos seios gira em torno de R$ 15 mil. Para retirar as facetas, o tratamento fica entre R$ 1 mil e R$ 2 mil por dente. Já as aplicações de hialuronidase, a enzima que dissolve o ácido hialurônico, custam por volta de R$ 8 mil.

Segundo a Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética (Isaps, na sigla em inglês), embora a colocação de próteses ainda represente 15,8% de todos os procedimentos, já se nota uma diminuição no interesse (foram 3,6% a menos entre 2018 e 2019, último dado disponível). No mesmo período, houve um aumento de 10,7% no número de retiradas de silicone – significando um aumento de 49,7% desde 2015.

Os motivos para isso são muitos: arrependimento, procura por um visual mais natural, inadequação de imagem, autoaceitação do corpo e, infelizmente, também por problemas de saúde! Apesar de ser considerada segura pelos médicos, em alguns casos o implante pode trazer complicações e a mais comum é a contratura. É natural que o corpo crie uma membrana protetora ao redor das próteses, mas, em alguns casos, essa cápsula fica inflamada, enrijecida e causa dor. Depois de anos ouvindo que o silicone não precisaria ser trocado e que não causaria problemas, muitas mulheres têm relatado sintomas que podem apontar para uma reação autoimune ao implante, como falta de energia, dores na mama, dificuldade na respiração e dores nas articulações. O diagnóstico para a ASIA (sigla em inglês para a Síndrome Autoimune Induzida por Adjuvantes, que se popularizou como doença do silicone) é feito por exclusão e já atingiu famosas e anônimas ao redor do mundo todo, que acabaram decidindo pelo explante.

Procedimentos estéticos: fazer, não fazer ou desfazer? Não existe resposta certa. Para cada mulher vai ser uma e, provavelmente, em cada fase da vida, essa resposta será diferente! Sim, é o famoso “o que temos para hoje”. Mas, só por um momento, imagine como seria maravilhoso se no futuro não houvesse nenhuma pressão estética da sociedade sobre o envelhecer. E se alguém te perguntasse se você faz preenchimento, sua resposta pudesse ser: “Faço preenchimento de alma... curtindo com os amigos, viajando com a família ou, simplesmente, passando um tempo comigo mesma lendo um bom livro”.

Camila Faus e Fernanda Guerreiro são criadoras do @she____t. Uma plataforma de conteúdo feita para mulheres que acreditam que a idade dos "enta" rima com experimenta.

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