• Nesta semana, o Pivô aborda o significado do uso das máscaras no Brasil e no mundo. Um dos símbolos do combate à pandemia, o objeto ganha status ético, político e ideológico.
  • Gucci e Saint Laurent anunciam as saídas das semanas de moda italiana e francesa, enquanto que o Instagram quer assumir o território virtual para hospedar este tipo de evento. O editor de moda Lucas Boccalão comenta essa movimentação.
  • Baixa econômica e alta nos posicionamentos sociais. Luigi Torre, editor de moda, analisa alguns reflexos da pandemia entre marcas e estilistas.
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A máscara está na boca de todo mundo. Literalmente ou não. Um dos símbolos do combate à pandemia, o seu uso e o seu não uso ganham status ético, ideológico, político. Muitos afirmam que o item veio para ficar, que é melhor a gente se acostumar até que se ache um medicamento, uma vacina para o vírus. E há ainda quem arrisque um palpite de que este será o mais novo acessório de expressão individual da vez. Mas antes de virar tanta coisa, a máscara foi e ainda é uma importante ferramenta de proteção. Agora, durante a pandemia do coronavírus, tem sido inclusive a barreira física mais eficiente de controle da disseminação, na medida do possível, junto com o isolamento social. E é a trajetória desse objeto sanitário, prestes a virar o novo it acessório sociopolítico das próximas estações, que vamos abordar neste episódio. Hoje falamos das máscaras porque, ironicamente, tapar a boca nunca disse tanto.

Aprendemos no dia a dia como combater a pandemia do novo coronavírus. E, não à toa, a recomendação para o uso da máscara mudou nos últimos meses. No começo, ela não era para todo mundo. O seu uso estava restrito aos profissionais do front, aos doentes e aqueles que sentiam sintomas. Mas, hoje, ela é obrigatória em diversas cidades. A virada se deu principalmente no começo do mês de abril, quando estudos, como o da revista científica Nature, analisaram a eficácia das máscaras caseiras. E elas são realmente positivas enquanto uma barreira física, se usada por todo mundo. A máscara que você usa é importante para proteger o outro e vice- versa. Claro, que o seu uso está longe de dispensar os demais cuidados. É necessário lavar a mão, manter uma distância segura de outras pessoas e evitar ao máximo situações de risco. Em alguns países, a máscara é parte do cotidiano, antes mesmo do coronavírus. Em Hong Kong, por exemplo, é comum desde 2002, quando a região foi afetada pela SARS, a síndrome respiratória aguda grave.

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O acessório também é comum na China, na Coréia do Sul e no Japão. O Pedro Nekoi, design gráfico pernambucano que morou no Japão durante um ano, explica para a gente como a máscara é muito incorporada à vida das pessoas por lá:

"A sociedade japonesa pensa muito em grupo, em respeitar o conjunto de pessoas ao invés de pensar só no individual. Eu não usava máscara quando estava doente, porque a gente não tem essa cultura aqui. Mas para mim fez toda a diferença. Eu estudava japonês e frequentava a escola todo dia e os professores sempre falavam: 'se você está doente coloque a máscara, ou então todos que estão nesta sala de aula ficarão doente'. O que faz muito sentido. E eu aderi na minha vida. Eu usava também muito a máscara para aquecer o meu rosto. Essa era a principal função da máscara para mim. E eu super acredito que ainda existia um fato visual para muitas pessoas. Porque para gente é muito novo essas máscaras laváveis, coloridas, com estampa. Mas no Japão é muito comum."

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A revista TIME publicou recentemente uma reportagem explicando a percepção deste objeto no Oriente. Há uma etiqueta no uso dessas máscaras, principalmente nestes países do leste asiático. Ela não está restrita apenas a uma decisão médica mas também a uma prática sociocultural. Ou seja, quando você usa uma máscara, você demonstra ao outro de alguma forma o quanto se preocupa com o bem estar coletivo. Connie Wang, que é jornalista, escreveu para o site Refinery 29 inglês como sempre notou uma reação preconceituosa por parte de países do Ocidente em relação ao uso de máscaras. E ela confirma que o acessório na região dá exatamente este tipo de recado importante: o de que você tem a ciência do seu dever cívico em respeito à saúde pública quando a usa. A Nathalia Levy, que é editora digital aqui da ELLE, e que foi para Tóquio visitar o seu tio em agosto do ano passado, explica como o uso de máscara no Japão é realmente um código vasto.

"Em agosto do ano passado eu fui para o Japão realizar um sonho meu, que era conhecer o meu tio que mora lá e rever um amigo. Este amigo me apresentou a duas garotas que também se tornaram minhas amigas. E eu conversei muito com elas sobre máscaras. As máscaras sempre me pareceram estranhas e eu achava que elas eram usadas apenas para não ficar doente ou em função da poluição. E elas me explicaram que a máscara é muita coisa. E que vai, sim desde a questão sanitária e que pode chegar até a um acessório puramente visual. Elas mesmas usam como um recurso para quando não se sentem bonitas, quando não têm tempo de fazer maquiagem. Eu achei ao mesmo tempo fascinante, porque a primeira coisa que me passou pela cabeça foi como isso seria uma mão na roda até para mim, mas também achei preocupante pelo fato da pressão estética. De tal maneira que elas escondiam até mesmo 70% do rosto porque não se sentiam apresentáveis."

"Os humanos sempre acham uma maneira de se destacarem e de se comunicarem, até mesmo durante momentos de crise." Esta frase, quem escreveu foi Robin Givhan, em sua famosa coluna de moda no jornal Washington Post. Ela alerta sobre como o acessório caminha para virar também um item de expressão pessoal e que pensar nos vários significados dele agora pode ser bem importante. Um fato curioso, para não dizer um sinal dos tempos, é que a moda já estava nessa dos objetos de cobertura facial, como as máscaras e as balaclavas, há um bom tempo. Elas estavam presentes em desfiles, campanhas e a venda em lojas há várias estações, principalmente por influência do streetwear e do athleisure na última década, com destaque especial para grifes como a Off White, Marine Serre e Gucci. E elas refletiam várias ideias. Um fashionismo barroco na Alexander McQueen, um anonimato provocativo na Martin Margiela e até um fetichismo irônico no novato Richard Quinn.

Mas a máscara especificamente para a pandemia, quando começou a ser feita por grandes nomes da indústria, veio sem logos, apenas pela funcionalidade do produto e principalmente para doações. Foi o caso do norte-americano Christian Siriano e de casas como Louis Vuitton, Burberry e, depois, Chanel. Demorou algumas semanas até que as grifes ficassem mais seguras em produzir versões próprias. Mas elas vieram e com um importante argumento: é o que sabem fazer, esta é uma forma de fazer a engrenagem rodar, a economia girar e ajudar quem precisa. Porque, sim, muitas delas vendem e doam parte das suas produções. No Brasil, as iniciativas vão das menores às maiores e estão nelas Alexandre Pavão, Isaac Silva, Modem, NK Store, Hope, Grupo Arezzo, Rosset Têxtil, entre outros.

Mas há quem se aproveite do momento? Vanessa Friedman, do The New York Times lembra que "no capitalismo, oportunidades geralmente se levantam depois de tempos de trauma ainda que a origem seja desconfortável, e que este pode sim ser um caso". E, de fato, alguns episódios já criaram incômodos, como a norte-americana Off White, que tinha um modelo a venda antes da pandemia custando cem dólares, e teve este mesmo produto encontrado por um valor dez vezes maior.

No geral, caminhamos cada vez mais para o consenso de que uma vez que vamos usá-las, não há mal que as máscaras atendam as nossas identidades pessoais: podem ser mais discretas ou chamativas, mais sóbrias ou divertidas e por aí vai. Mas algo deve seguir ao lado disso, que é a sensibilidade da imagem que se cria, além da forma como se faz. O acesso a saúde não é igual para todo mundo e se vangloriar de uma ferramenta de cuidado pessoal, por mais que ela possa ser usada como acessório, não faz o menor sentido.

A máscara também se deitou por muito tempo em alguns estereótipos. Esteve presente em movimentos de militância, das manifestações mais progressistas às mais disruptivas. Esteve no ativismo ambiental ou no movimento antifascista. Virou um símbolo de quebra com o establishment. Ela também por muitos anos foi colocada como a veste do suspeito, do criminoso, diferente da ideia de proteção, de cuidado e de consideração que se tenta fazer agora. E isto inclusive tem impactos tremendos a vários grupos que receiam um possível aumento de ataques preconceituosos que já sofrem. É o caso de pessoas que lidam com a islamofobia ou com o racismo diariamente. Homens negros já expressaram publicamente o seus medos de usarem máscaras e serem lidos de formas problemáticas.

E se estes pontos já não fossem políticos o suficiente, as máscaras ainda caem numa armadilha complicada em países que enfrentam polarizações ideológicas. Donald Trump não usa e o seu vice presidente Mike Pence raramente usa o acessório em público. A jornalista do Washington Post lembra como o papel de um presidente pode ser o de alertar a nação da sua capacidade comprovada de se unir em tempos difíceis. E que a falta de máscara ali dá um recado importante. E é inevitável não fazer uma comparação com o Brasil, uma vez que o presidente Jair Bolsonaro não raro também recusa o uso de máscara em ocasiões públicas ou quando usa não segue as recomendações das principais organizações sanitárias mundiais. E este tipo de atitude é reproduzida por parte de seus apoiadores, que se acumulam em organizações inconstitucionais em frente ao Palácio do Planalto.

Em artigo escrito por Conor Friedersdorf para a revista The Atlantic, o jornalista descreve como esta é uma articulação perigosa de grupos políticos. Não é hora de diminuir o entendimento da máscara como uma ferramenta de proteção e usá-la como um recado ideológico.

E, agora, algumas das principais notícias da semana:

Gucci e Saint Laurent anunciam as suas saídas, respectivamente das semanas de moda italiana e francesa. Isso acontece enquanto marcas e estilistas, assumem um movimento de mudança do calendário de moda e redes como o Instagram tentam já reivindicar o território digital para este tipo de evento. Lucas Boccalão, nosso editor de moda, comenta o que tudo isso indica sobre o futuro das semanas de moda no mundo.

"Vale dizer que a mudança no calendário é uma vontade antiga. Porque esta cadeia é megalomaníaca. Muita coisa mudou nos últimos anos, então é natural que o calendário mude também. Se o Karl Lagerfeld fazia mais de dez coleções por ano, é porque ele fazia parte dos estilistas da era de ouro. Aqueles estilistas da década de 1950, que desenhavam as coleções a mão, soltavam para uma equipe muito próxima e que interpretava os croquis. Só depois, na hora da prova, que o Karl olhava. Este é um processo criativo diferente do adotado pelo Raf Simons, por exemplo. O Raf é um diretor criativo. Trata-se de uma condução diferente, de outro tipo de presença na criação. E não à toa é sabido do burnout que ele sofreu em função da quantidade de desfiles que teve que fazer quando esteve na Dior. Logo, acelerar este movimento de mudança do calendário pode ser bem positivo. Isso ajuda nessa questão da exaustão do profissional, mas também implica em outros impactos sustentáveis: diminui desde o descarte ao deslocamento de vários profissionais com viagens aéreas. Mas claro que isso atinge de forma diferente a depender do tamanho da marca. Gucci e Saint Laurent anunciarem estas saídas faz todo o sentido. Elas tem influencia o suficiente para promoverem eventos oficiais próprios e reunirem quem quiser. E isso me lembra do Azzedine Alaïa, que parou de cumprir com este calendário tradicional das semanas de moda em sua época. As pessoas perguntavam para ele quando ele ia apresentar uma coleção e ele respondia: quando ela estiver pronta. Mas as grifes menores ainda dependem muito das semanas de moda, porque é este evento que reúne buyers, imprensa e proporciona visibilidade. Eles não conseguem promover algo assim sozinhos, nestas proporções. E é por isso que são os que encabeçam o movimento de mudança agora do calendário. Querem que ele ao menos respeite mais o tempo de produção. Então é necessário sim pensar em novas soluções. E uma das soluções que aparece é a do streaming, da live, do desfile virtual. Mas esta disputa pelo território digital também pode ser perigosa. O Instagram, por exemplo, tem tamanho e poder para ser o lugar dos desfiles virtuais. Mas as marcas também devem ter o direito e a liberdade de escolherem como querem ocupar este espaço de um jeito próprio. Sem ficarem mais uma vez dependentes de uma única instituição ou marca. Por fim, esta é uma mudança que precisa rolar em toda a cadeia. O exemplo de revistas não serem mais mensais é ótimo. Temos que parar de encher as pessoas com coisas que elas não precisam toda hora. O novo desejo, o novo interessante. Isso é a coisa mais antiga do mundo."

Nos Estados Unidos, a crise atingiu em cheio os grandes varejistas de moda e lojas de departamento. Só no mês passado, nada menos do que quatro megarredes entraram com pedido de recuperação judicial. A J. Crew, que veste da classe média norte-americana à duquesa Meghan Markle, puxou a fila: com dívidas da ordem de 1 bilhão e 700 mil dólares, a rede entrou com pedido de recuperação judicial no dia 4 de maio. Três dias depois, o grupo Neiman Marcus entrou com o mesmo recurso para se proteger contra os credores. Ícone do comércio de luxo, o grupo, que também é proprietário da loja de departamentos nova-iorquina Bergdorf Goodman, acumula cerca de 5 bilhões de dólares em dívidas.

No dia 10 de maio, foi a vez da Stage Stores, rede que controla mais de 700 lojas, espalhadas principalmente pelo interior dos Estados Unidos. E a última vítima, pelo menos até o fechamento desta edição, foi a JC Penney. A empresa, fundada há 118 anos, entrou com o pedido de recuperação judicial no dia 16, e deve começar a fechar dezenas de lojas em breve. O coronavírus foi uma paulada nas redes varejistas de moda, mas o fato é que o setor já andava mal das pernas há um tempo.

A Barneys entrou com pedido de recuperação judicial no ano passado e, antes dela, a Sears já tinha apelado a esse recurso para tentar evitar a falência. A Opening Ceremony já havia anunciado em janeiro que fecharia suas lojas, o que de fato ocorreu em maio. O impacto da pandemia no mercado nacional e internacional é uma das pesquisas que o Luigi Torre, nosso editor de moda, tem feito nas últimas semanas. Mas além destas baixas, ele também identifica algumas altas significativas em outras frentes do setor.

"Apesar das mudanças no mercado e no comportamento de consumo, as lojas de departamento são bem importantes para marcas independentes. Principalmente para aquelas que não têm estrutura para vender direto para o cliente com uma loja física ou online. Num momento de crise, uma baixa como essa é bem preocupante. Um ponto curioso, é que este tipo de loja de departamento é uma realidade quase que 100% internacional. No Brasil, há tempos elas não deram muito certo, pelo menos nos moldes e no tamanho que vemos nos EUA. O mais parecido que temos por aqui é o modelo de multimarca, mas o tamanho das lojas e dos pedidos feitos para cada uma das marcas é bem menor. O que eu tenho reparado nestas últimas semanas, conversando com estilistas independentes, é a ressalva ao modelo de venda atacado, como um todo. E este parece um movimento universal. Este tipo de esquema pede planejamento e produção a longo prazo, porque geralmente as multimarcas compram coleções para ficarem de três a seis meses nas lojas. E isso é impensável agora. Como solução, muitos estão investindo no esforço do modelo de venda direto, mesmo, para poder controlar melhor suas produções e poder ser mais responsivo sobre o que vende. A gente ainda está sentindo quais são todos os impactos da pandemia no setor, mas um ponto que eu destacaria, para além das baixas, é também como o momento incitou ações positivas entre várias empresas. E esta rede é composta das menores às maiores. E um destaque é o Projeto por Nossa Conta, com participação ativa de diversos profissionais e marcas de moda, doando máscaras, cestas básicas, produtos de higiene principalmente para regiões mais vulneráveis aqui de São Paulo, que é o epicentro da pandemia no país."


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