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Divulgação
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No ano passado, Ronaldo Fraga fez a sua apresentação digital na 50ª edição da São Paulo Fashion Week, com um vídeo em que recebia Zuzu Angel para um jantar. O estilista mineiro relembrava, ali, tanto a sua carreira de celebração a esta costureira, que em 2021 completa 100 anos de história e 45 de morte, como também usava o espaço para o que soou como um desabafo. No filme, ele contava à Zuzu a quantas anda o nosso país e já iniciava o curta dizendo: "as notícias não são tão boas".

O estilista mineiro sempre foi visto pela moda como um mestre na arte de sensibilizar e desbravar as riquezas do país. Sua últimas coleções, porém, eram uma sucessão de assuntos um tanto mais duros sobre o Brasil. Por telefone, dias antes de sua mais recente apresentação na semana de moda, no dia 23.06, pergunto se o sentimento do ano passado, que parecia de raiva, segue nessa coleção. Ele corrige, diz que a palavra mais adequada é indignado. "E sigo indignado, sim", afirma, num tom de voz que não deixa esconder.

O sentimento, de fato, é o mesmo, mas a maneira como isso aparece na nova coleção é diferente. Tem mais a ver com o jeito que Ronaldo sempre olhou para o mundo, quando este não estava, assim, tão desequilibrado: um olhar artístico, afetuoso, sem deixar de ser engajado. "Me perguntaram se, nesse momento político, eu vou fazer um desfile político. Os meus desfiles sempre foram políticos! Só que nessa coleção a política vem pelo viés poético. E eu carreguei bem na dose de poesia, porque de poesia eles não entendem nada", diz.

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É com poesia, então, que ele apresenta a coleção Terra de Gigantes, um mergulho na grande riqueza que é a cultura popular do Cariri Cearense, região localizada na Chapada do Araripe, no sul do Ceará, com uma fortíssima tradição folclórica. Ronaldo conta que, para ele, o nordeste brasileiro é a "amálgama de nossa cultura" e, por isso, aceitou prontamente o convite do Sesc Ceará para explorar os Museus Orgânicos e dos Mestres da Cultura do Cariri, fundados em 2018, pelo próprio Sesc em conjunto com a Fundação Casa Grande.

"Muito mais do que um museu, este é um museu de afeto, porque está ali a cozinha, a memória, os objetos desses mestres." De fato, as próprias casas e oficinas da população local funcionam como espaços expositivos vivos, onde é possível ver objetos pessoais, fotografias, vestimentas, instrumentos, tudo o que marca o cotidiano das mestras e mestres do Cariri, como são chamados os artistas que mantêm vivas as tradições da região. Trata-se de uma rede formada sobretudo pela memória, um saber passado oralmente que preserva costumes, como os dos reisados, dos mestres e seus brincantes, além das danças de coco, que tomam as ruas anualmente.

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"Esta é uma cultura extremamente fascinante, formada pela mistura dos povos originários, os índios Cariris, os cristãos-novos, que foram os judeus que vieram para o Brasil na época da Inquisição espanhola e portuguesa, além dos Malês, escravizados e que tinham influências muçulmanas, vindos do norte da África", conta Ronaldo.

Dos tais cristãos novos vieram os bordados. Já a música e a relação com o corpo, que está bem marcada no vídeo, é uma contribuição dos próprios indígenas Cariri, que, ao contrário de outras etnias daqui, não andavam nus e usavam adereços, que hoje chamamos de roupa. Toda essa influência multicolorida e multicultural aparece nas interpretações do estilista em uma coleção inteira feita de linho. As estampas, tão típicas do designer, ficaram de lado e deram lugar a um exercício de combinação de cores (apenas primárias e secundárias), além de rendas, fitas e bordados, que aparecem em vestidões e vestidinhos e remetem aos brincantes do Cariri. O estilista não só entrou de cabeça na história como também contou com a ajuda de 15 alunos e profissionais do Senac Ceará, todos do Cariri, que acompanharam o processo de montagem da coleção.

A modelo cearense Suyane Moreira é quem dá vida a todas as peças, inclusive as mais provocativas, explicadas por Ronaldo como uma reflexão sobre a maneira autoritária que o catolicismo foi inserido na região. Por isso, aparece também um vestido-batina, como o de Padre Cícero, cruzes vermelhas que são buracos pelos quais se vê o corpo desnudo da modelo e até mesmo um cinto de castidade, feito de couro, com direito a cadeado, mas com um buraco bem na região da vagina. "É necessário descatequizar o povo brasileiro para que ele encontre os seus verdadeiros deuses", afirma o estilista.

O filme, mais documental, é de Marcelo Belém, tem direção de Roberta Mazzola e Claudio Santana e foi todo filmado no Cariri. "É a oportunidade das pessoas verem as roupas dentro do universo que as inspirou", diz. O curta conta com uma cena de mesa farta e muitas dessas mestras e mestres presentes, em uma grande celebração.

A cena só reforça a resposta que Ronaldo deu, antes da apresentação, quando perguntado se ele se sente sozinho nessa indústria, quando se posiciona politicamente. "Já me senti bastante só. Mas sempre acabo encontrando a minha turma. Muita gente na moda faz papel de boba, de morta, fica só esperando uma elite submergir do caos para não perder venda. E eu sempre caguei para isso." E, realmente, a turma que ele encontra agora, nessa Terra de Gigantes, parece uma companhia e tanto.

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