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Será que preciso de terapia financeira?

Muitas mulheres são rotuladas negativamente como ambiciosas ou competitivas quando falam de dinheiro perto de homens. A crença de que essas são características proibidas às mulheres tem feito com que nos afastemos de uma relação saudável com nossa vida financeira.

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A consultora financeira Denise Damiani passou boa parte da sua carreira acostumada a olhar para seus pares e só ver homens. Formada em engenharia de sistemas digitais, com MBAs de gestão em Harvard e na Suíça, ela vendeu a primeira empresa que fundou para a Apple no final dos anos 1990 e foi vice-presidente de estratégia no Itaú. Mas apesar do currículo poderoso, isso não a blindou do machismo no ambiente de trabalho e de constantemente receber comentários sem relação alguma à sua competência, mas sim ao seu corpo. Isso tudo a levou a um projeto ambicioso.

Denise entrevistou mais de 500 mulheres de diferentes origens, condições financeiras e sociais, entre elas, a política americana Hillary Clinton. Ela queria entender o que impedia as mulheres de serem ricas e crescerem na carreira.

Ela descobriu que, em comum entre a maioria, havia questões culturais e emocionais que as impedem de prosperar. Se a mulher acredita que ao assumir seu desejo por ganhar mais será considerada ambiciosa, competitiva, dinheirista, e que essas características são ruins ou proibidas para mulheres, essa crença faz com que ela tome decisões que a afastam do dinheiro. Se a mulher quer economizar e não consegue, pode ser por querer ter menos dinheiro que o parceiro masculino. Se ela omite sua receita e suas compras, pode estar com dificuldade de provar o valor de suas conquistas e escolhas.

"Muitas mulheres, mesmo fazendo mais dinheiro que o homem, ainda não concordam em sustentar a casa e o marido por acreditar que podem perdê-lo", conta André Luiz Machado, consultor financeiro e sócio da Money Mind, que já viu casos de traição, impotência sexual e violência doméstica quando a mulher passou a ganhar mais dinheiro do que o parceiro.

Casados há vinte anos e sócios há 13, André Luiz e sua esposa, a também consultora financeira Fabiana Mendonça, acreditam que o mais importante na relação entre casais com o dinheiro é a conversa. "Os acordos precisam ser claros, por exemplo, combinando quantos por cento do total das contas de casa cada um vai pagar", diz André Luiz. "Ou qual valor tangível ou intangível será dado às tarefas que envolvam o cuidar", diz Fabiana.

Durante períodos de crise, como a atual pandemia, eles sugerem que a pessoa que puder contribuir mais com as contas assuma a frente e não cobre a outra, mais prejudicada pela quarentena, depois que tudo passar.

"Nosso trabalho é identificar os fatos e quais emoções estão por trás da decisão de gastar ou não. Ajudamos os clientes a olhar para o passado: o que aprendeu em casa sobre o dinheiro? Como era a comunicação entre os pais sobre dinheiro?", aponta Fabiana. "Mas em casos de lembranças traumáticas indicamos aos clientes uma rede de psicólogos para iniciar uma terapia", explica.

Terapia Financeira?

Lidar com traumas e questões mais profundas de saúde mental que reflitam nos relacionamentos, e inclusive na relação com o dinheiro, é tarefa para psicólogos, psicoterapeutas e psiquiatras. Mas, em muitos casos, os especialistas da mente não são experts em dinheiro. Por isso, existe a possibilidade de um trabalho em conjunto.

Uma das consultoras financeiras pioneiras em conectar seu trabalho à Psicologia é a americana Deborah Price, autora de Money Therapy, publicado em 2000, traduzido no Brasil como Terapia da Riqueza. Deborah se inspirou nos arquétipos de Carl Jung e Joseph Campbell para classificar em oito perfis a forma como as pessoas lidam com o dinheiro, conforme seu momento de vida. São eles: "a inocente", "a mártir", "a vítima", "a artista", "a tola", "a tirana", "a guerreira" e "a mágica".

"Os mais comuns entre as brasileiras são a inocente, que quer se esconder do dinheiro, e a tola, que não sabe para onde vai o dinheiro", indicam André e Fabiana, que utilizam o método de Deborah Price na sua consultoria. "Entre o público masculino, o mais comum é o guerreiro, que está determinado a conquistar o dinheiro", compara André.

Em conversas ou workshops, eles ajudam clientes a identificar em suas histórias de vida o que foi visto ou sentido no passado que foi decisivo para criar um padrão de comportamento. Ao se conhecer melhor e aprender a organizar o orçamento, garantem, é possível mudar.

Entender as decisões financeiras a partir de questões emocionais, padrões comportamentais e a cultura é uma especialidade que vem ganhando relevância no mundo, com avanços no campo da Economia Comportamental. O conhecimento sobre finanças pessoais nunca foi tão acessível, o que está gerando novas profissões, como coaches, influenciadores de finanças e terapeutas financeiros.

Existem oito perfis em que uma pessoa pode se encaixar de acordo com a forma como lida com dinheiro. No Brasil, entre as mulheres, os mais comuns são "a inocente" e "a tola". Já entre os homens, é "o guerreiro".

Uma certificação em terapia financeira lançada em 2017 no Brasil já formou 120 profissionais, entre os quais 58 são mulheres. "O interesse de profissionais da Psicologia e da Pedagogia em buscar especialização em finanças tem crescido muito", diz Reinaldo Domingos, presidente da Associação Brasileira de Educadores Financeiros (ABEFIN), e da DSOP Educação Financeira, uma escola de formação de consultores.

Mas quem precisa de um terapeuta financeiro?

Embora sejam a maioria entre brasileiros, e sustentem quase metade dos lares no país, as mulheres representam apenas 24% dos investidores da bolsa e 31% do tesouro direto. "O maior inimigo das mulheres costuma ser o pensamento mágico de que ela será salva. Outro problema é achar que lidar com dinheiro não é tarefa dela", explica Denise Damiani. Fabiana também revela que das mulheres brasileiras que responderam a pesquisa no site da sua consultoria, 70% estão insatisfeitas com sua vida financeira.

"Para alcançar o equilíbrio financeiro, o primeiro passo é entender o que fazemos e por quê", diz Denise em "Ganhar, Gastar, Investir: O Livro do Dinheiro para Mulheres" (Sextante, 2016), em coautoria com a jornalista Cynthia de Almeida.

O autoconhecimento é um processo sem fim. Começar identificando as crenças que limitam sua relação com o dinheiro, a impedem de prosperar e dificultam que suas finanças gerem mais momentos de alegria e tranquilidade – do que momentos de angústia – pode ser um bom primeiro passo. Pense no que deseja conservar na sua vida e o que precisa ser modificado. Anote seus gastos, e quanto custa realizar seus sonhos de curto, médio e longo prazo. A partir daí a fórmula é sempre a mesma: ganhar mais, gastar menos, e investir melhor. Você não precisa fazer isso sozinha. Procurar ajuda é um bom caminho.


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