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Mensageira da Paz pela ONU, dama-comandante da Ordem do Império Britânico e fundadora do instituto que leva seu nome, Jane Goodall é uma sumidade na área da primatologia – mais especificamente, no estudo sobre chimpanzés. Desde a década de 1960, a cientista britânica viaja pela África para se dedicar à pesquisa desses animais e, hoje, aos 86 anos, continua ativa como nunca. Em suas imersões nos habitats dos primatas, Jane fez descobertas revolucionárias, como o fato de chimpanzés não serem vegetarianos e conseguirem fabricar e usar ferramentas.

A entrevista a seguir, publicada originalmente pela ELLE Índia, foi conduzida por outro nome de peso na causa ambiental: Livia Firth é co-fundadora e diretora criativa da Eco-Age, empresa de consultoria que promove a sustentabilidade na moda. Livia também é a idealizadora do Green Carpet Challenge, iniciativa que estimula celebridades a usarem looks que seguem boas práticas ambientais no tapete vermelho.


Jane e Livia costumam se encontrar sempre na cerimônia de premiação do Roots & Shoots, programa global criado pela primatologista para formar novas gerações de ambientalistas. Nesses eventos, relata Livia, a cientista está sempre com seu já famoso chimpanzé de plush e rodeada de crianças.

A conversa se deu por meio do aplicativo Zoom. Antes de iniciar a entrevista, Livia comentou que Jane deveria estar feliz por conseguir suspender um pouco sua rotina de viagens, devido às restrições impostas pelo novo coronavírus. Estava enganada. "Mal posso esperar para voltar à estrada! Eu sinto muita falta de viajar e das pessoas!", rebateu a veterana. Confira os principais trechos desse bate-papo.

Jane Goodal na mata, olhando por uma luneta Quando começou suas pesquisas em Gombe, na África, Jane costumava passar horas procurando e observando chimpanzés. Foto Cortesia

Livia Firth: Oi, Jane! Que bom ver você, você parece tão bem!

Jane Goodall: Obrigada!

LF: Gostaria de perguntar o que está acontecendo nos projetos em andamento na África agora, com a Covid-19?

JG: Chimp Eden (na África do Sul) e Tchimpounga (na República do Congo) estão bem, porque você pode manter as pessoas isoladas com os chimpanzés. Qualquer um que queira entrar lá tem de ser testado, então, não há nada muito ameaçador. Mas Gombe (na Tanzânia) é completamente diferente. Não há uma cerca e existem milhares e milhares de pessoas em aldeias pobres que vivem ao redor. O número de pessoas que podem acessar o local foi reduzido, elas vão lá uma ou duas vezes por semana apenas para verificar onde os chimpanzés estão. Mas está chegando mais perto da cidade de Kigoma, então, temos feito uma grande campanha para educar os moradores, entregar máscaras e realizar testes. Quer dizer, estamos aterrorizados com a ideia de que os chimpanzés também possam pegar [o vírus]. É realmente difícil – só nos resta cruzar os dedos.

Jane Godall d\u00e1 a m\u00e3o a um chimpanz\u00e9 Diferentemente de outros pesquisadores, que chamavam os primatas por números, Jane preferia dar nomes aos animais observados. Foto Cortesia

LF: Acabei de ver que saiu um novo documentário chamado Jane Goodall: A esperança (a estreia foi no final de abril, no canal National Geographic). Pensei imediatamente como o título era oportuno. Você também falou lindamente sobre "esperança" na sua mensagem de Páscoa no Instagram, sobre ressurreição, esperança e resiliência. É bom conversar com alguém que viu a Segunda Guerra Mundial e o 11 de setembro – você testemunhou e viu a transformação e o que veio depois. Então, você se sente esperançosa?

JG: Eu ainda tenho esperança na resiliência da natureza, tenho esperança na juventude, tenho esperança no indomável espírito humano que diz: 'Eu não vou desistir. Eu nunca vou desistir". Eu não tenho esperanças de que alguns dos políticos ou líderes mundiais vão mudar. Em vez disso, será preciso que a comunidade se levante, e acho que agora o terreno está sedimentado para isso. Esse lockdown nos fez redescobrir uma espécie de interconexão que temos, esse senso de comunidade. Ele quase nos lembrou que nós somos cidadãos.

LF: Em seu livro On Fire (ainda não publicado no Brasil), Naomi Klein fala sobre um plano Marshall de recuperação, um novo acordo para uma economia verde. Talvez isso acabe acontecendo, porque se os governos e as empresas quiserem sobreviver a esse vírus eles terão de mudar drasticamente. Qual seria o seu plano Marshall pela natureza?

JG: Estou escrevendo um ensaio para um livro sobre aumentar as áreas verdes urbanas plantando árvores, abrindo espaço, colocando coisas no telhado, [criando] paredes verdes e jardins urbanos. Poderíamos até ter vegetais orgânicos crescendo em todas as hortas nas escolas, para que as borboletas e insetos possam fazer a polinização e trazer as flores de volta. Sabe, nós poderíamos fazer isso. Funciona! Além de plantar árvores e proteger florestas, acho que temos que trabalhar com jovens, temos que trabalhar com políticos, temos que trabalhar com empresas, com professores e pais. Temos que tentar por todos os lados. Alguém famoso disse uma vez "pense globalmente, aja localmente", não me lembro de quem era. Mas está errado. Temos que agir localmente antes de ousar pensar globalmente, porque, se você sentar aqui e pensar em todos os problemas globais só vai ficar deprimido. Mas se você disser 'bem, eu posso fazer algo sobre isso; posso fazer toda a minha escola ou talvez meu bairro reciclarem', você faria isso e isso é ótimo. Essa é a mentalidade por trás do Roots & Shoots, que está ativo em 65 países agora. Nós atualmente temos um programa na China com estudantes universitários, que percorrem grandes empresas e fazem uma avaliação sobre o impacto ambiental; coisas como deixar luzes e laptops ligados e o uso de papel. Como resultado dessas inferências, as empresas têm mudado!

Retrato atual de Jane Godall A pesquisadora, hoje: "Temos que agir localmente antes de ousar pensar globalmente". Foto Cortesia

LF: Isso é fantástico. Tenho certeza de que empresas do mundo todo adorariam ter crianças visitando seus escritórios para dizer como ser responsável. Quero dizer, deveria começar com crianças. É isso o que eu amo no movimento de Greta Thunberg. É uma jovem mobilizando milhões de jovens em todo o mundo para protestar. Mas eu acho que os protestos devem agora passar para soluções. Portanto, não deveria ser apenas um protesto, deveria ser sobre o que nós vamos fazer. Se você deseja influenciar na mudança, você tem de ser positivo, construtivo e otimista também. Mas às vezes é difícil. No meu trabalho como ativista, às vezes fico muito frustrada e com raiva e perco a paciência com todos os negócios que fingem querer mudar e não mudam...

JG: Bem, você precisa reduzir isso à sua simplicidade. E também não tente usar o mesmo método para tudo, porque isso não funciona. Lembro-me de quando comecei esse longo esforço para acabar com a pesquisa médica em chimpanzés. Eu consegui entrar em um laboratório e depois organizei uma reunião com algumas das pessoas de lá. Muita gente dos direitos dos animais nunca mais falou comigo. Eles disseram: 'Como você pode se sentar com aquelas pessoas maléficas? Como você aceitar uma xícara de café deles?' E eu disse: 'Se você não se senta para falar com eles, como pode esperar alguma mudança?' Então, eu não os confrontei, apenas falei sobre os chimpanzés de Gombe, mostrei filmagens, falei sobre se deitar no poente sobre um belo ninho de folhas. E aquilo entrou neles. Eles não admitiram isso na época. Mas, como você sabe, todos os chimpanzés americanos agora são poupados [das pesquisas médicas].

LF: Você está absolutamente certa. Você acredita que com essa pandemia nós temos a oportunidade de "resetar" tudo?

JG: Nós temos mesmo essa oportunidade. Esperançosamente, muitos indivíduos vão se 'auto-reiniciar'. E isso, de alguma forma, vai se espalhar e finalmente envolver os caras no topo.

LF: Tomara! Se todos nós conectarmos e se dermos as mãos isso será uma realidade também.

JG: Não podemos dar as mãos agora!

LF: Mãos dadas virtualmente! Adorei ver você, Jane, e espero que possamos nos abraçar pessoalmente em breve.]

Fotos Cortesia



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